Compreender os lisboetas

Na passada sexta-feira fui ao futebol, assistir ao Sporting C.P. – C.S. Marítimo em Alvalade. Nas imediações do estádio, que frequento há dezenas de anos, é sempre complicado conseguir um lugar de estacionamento, à medida que se vai aproximando a hora do jogo. Quando se trata de jogos grandes, as dificuldades aumentam. Longe vão os tempos em que até se estacionavam carros na 2ª circular, em dias de futebol nos estádios da Luz ou Alvalade, mas sempre existiu alguma benevolência das autoridades, para com viaturas estacionadas em cima de passeios ou mesmo de forma irregular, estreitando a via, desde que não se coloquem em causa o acesso a garagens ou estacionamentos, ou condicionem os acessos a prédios, armazéns ou estabelecimentos, ou se criem constrangimentos à circulação.
Só que a EMEL tem vindo a adquirir competências que estavam reservadas às forças policiais, sendo frequente os seus funcionários comportarem-se com prepotência, sem qualquer bom senso, numa lógica de caça à multa, extorquindo dinheiro aos lisboetas.
Pela 1ª vez que me recorde em dia de futebol, na passada 6ª feira, vi fiscais da EMEL bloqueando as rodas das viaturas que estavam estacionadas de forma irregular, mas sem rebocarem ninguém. Ficaram por lá nas suas viaturas em segunda fila, à espera que o jogo terminasse, para a colecta que foi o objectivo único daquela acção.
Mas a passada sexta-feira não constituiu um caso único, longe disso. Qualquer lisboeta ou cidadão que lá se desloque, sabe que não é bem tratado pela EMEL. O objectivo de Fernando Medina nos últimos anos tem sido plantar ciclovias em toda a cidade, reduzir o número de lugares de estacionamento, aumentar brutalmente o preço dos mesmos, impedir a circulação de automóveis com alguns anos, expulsando-os do centro da cidade e promovendo a utilização de veículos eléctricos, obviamente demasiado caros para a maioria dos cidadãos.
Não sou PSD e se tivesse votado em Lisboa, o que não faço desde que saí da cidade, já lá vão alguns anos, teria votado na IL. Mas a vitória de Carlos Moedas ontem, foi também uma vitória dos cidadãos lisboetas contra o fundamentalismo e arrogância da agenda politicamente correcta que nos querem impor. Suspeito que o PS terá uma surpresa em próximas legislativas se continuar com a sua agenda sem atender aos custos que os contribuintes têm de suportar.
Só na freguesia de Arroios, o PS perdeu 1658 votos, comparando com 2017. Já a coligação liderada pelo PSD, perdeu 319 votos na freguesia, para a soma do resultado de 2017, obtido por CDS e PSD. Salta à vista que a soma das ciclovias na Av. Almirante Reis, com as notícias recentes da presidente da Junta de Freguesia, Margarida Martins, não produziu bom resultado. Também Olivais, Alvalade, Avenidas Novas, Benfica ou Lumiar, penalizaram fortemente o PS. Precisamente as zonas onde são mais controversas as ciclovias.
Suspeito que o anúncio de compra de novos radares e constantes emboscadas da Polícia Municipal, que diariamente colocam radares dissimulados, procurando aproveitar a eventual distração dos condutores mais incautos, também terá dado algum contributo para o desfecho eleitoral.
Se por um lado a derrota de Fernando Medina me deixa satisfeito, temo que a vitória de Carlos Moedas não represente qualquer alívio para os lisboetas. A EMEL continuará business as usual, muitos boys com cartão rosa vão perder emprego, mas logo encontrarão outro, que o PS no governo, alimenta quem o serve, mas por esta altura, não faltarão boys & girls, titulares de cartão laranja já a procurarem um lugar na gamela da maior autarquia do país, que também é a que tem maior orçamento, e consegue empregar mais tralha partidária.
Oxalá me engane, mas os lisboetas votaram na mudança e receberão mais do mesmo…

Comments

  1. Antonio Morais says:

    Tem toda a razão. A lucidez da sua análise é de louvar. Esta gente ensandeceu com a mania dos carros eléctricos que eu professor reformado jamais poderei comprar ! A caça à multa é uma constante e agora até ir 15 Km acima do indicado nas placas dá multa só para arrecadar dinheiro. É fartar vilanagem.
    .

  2. Paulo Marques says:

    Acho bem, acabe-se com o AL para ter um silo automóvel em cada bairro, a bem da liberdade. Depois há é que pagar as multas da qualidade do ar, mas também é para isso que o sr eng quer financiar um seguro de saúde privado. Uma solução moderna e completa.
    Que não haja liberdade para os pés andarem na rua é que não conta, comprem 2 toneladas de rodas, preguiçosos.

  3. Paulo Ricca says:

    Pelo que vejo em Lisboa quando lá vou, a EMEL multa muito pouco: continua tudo cheio de lata estacionada em cima dos passeios. E as multas por excesso de velocidade, é como os fora-de-jogo do VAR: há um limite, cumpre-se. Quando me vêm com a cantiga da caça à multa puxo logo da… ahn… ia dizer pistola, mas ainda me levam à letra.

  4. Filipe Bastos says:

    Conheço quem vote em qualquer candidato, mesmo qualquer um, seja o Jerónimo, o Ventura ou o Conde Drácula, desde que garanta que irá extinguir a EMEL. É ódio puro.

    As ciclovias do Merdina foram o fim da picada. Parecem pensadas para irritar o maior número de pessoas e causar o maior número possível de acidentes. Estão quase sempre vazias, um monumento à vaidade PC Merdiniana, mas quando alguém as usa são um perigo para ciclistas, carros e sobretudo peões.

    Claro que Moedas será mais do mesmo. Mais trampa do Centrão. Mas há quem goste: há sempre um Paulo Marques para defender seja o que for. Desde que seja mais do mesmo.

    • Paulo Marques says:

      Bonito, bonito é o Bastos a defender que regras são para os outros, que ele não merece cumpri-las.


  5. Caro consócio. Diria que não tenho pena de quem leva o carro para Alvalade, tendo em conta que a estação de metro fica a 100 metros das portas do estádio. “Diria” porque eu vou de metro, e isso implica, ao FDS, ir a pé de Campolide ao Marquês ou ao Rato, porque raramente passa um autocarro nas Amoreiras (é isso ou o 42, que ao FDS passa, quando passa, de 20 em 20 minutos), depois, esperar uns 10 minutos pelo metro, e, no regresso, esperar ainda mais (o meu recorde é 19), para depois subir o morro a pé, porque, depois das 22, só um autocarro sobe do Marquês para as Amoreiras (é o 2, que só passa de 20 em 20 minutos). Se eu fosse de carro, dava para ver um jogo em Leiria. PS: ah! E depois há o nojo que é a estação do Campo Grande, com pichagens, água a pingar, obras eternas e cheiro a mijo em todos os vãos. E claro, muitos picas. Porque, quando há bola, o metro não reforça os maquinistas e composições, só os picas.

    • António de Almeida says:

      Até hoje nunca tive o carro bloqueado e já lá vão alguns anos que não recebo uma multa de estacionamento. Minimamente sou dos que procura cumprir.
      Antes de apanhar o metro, preciso chegar a Lisboa. Ao fim de semana, os comboios interurbanos circulam de hora a hora, o que nem sempre é razoável…

      • Paulo Marques says:

        Dizer que a capacidade de chegar aos locais é insuficiente e que a EMEL é um abuso de autoridade não é o mesmo que querer estacionar em qualquer lado de qualquer maneira, António, nem que seja só em “dias de festa”. Ou que as ciclovias só funcionam depois de melhores e mais frequentes acessos à cidade, que demoram tempo e está tudo contra na mesma.
        Porque com esses carros todos não funciona nem Lisboa, nem o Porto, nem as áreas metropolitanas que os servem.

  6. Júlio Rolo Santos says:

    O futebol não pode dar direitos especiais a quem o frequenta. Utilizem transportes públicos nas deslocações aos campos de futebol e deixem as estradas livres para quem nelas quer circular. Multas, pois claro sobretudo para quem se dá ao luxo de pagar um ingresso demasiado caro para quem nem sequer tem dinheiro para comer. Desporto sim mas não para sustentar quem corre a trás de uma bola a ganhar milhões.

  7. Luís Lavoura says:

    sempre existiu alguma benevolência das autoridades, para com viaturas estacionadas em cima de passeios ou mesmo de forma irregular

    Eu discordo do autor do post. Não deve haver benevolência nenhuma. Não há razão absolutamente nenhuma para um jogo de futebol ser maior motivo de benevolência do que muitíssimas outras atividades. A lei é dura, mas é a lei.

    Ademais, o estádio de Alvalade tem o metropolitano à porta. O António de Almeida pode estacionar o seu carro onde quiser longe do estádio e depois seguir para ele de metropolitano. Não há razão nenhuma para exigir estacionar em contravenção da lei perto do estádio.

    Eu não vivo perto de nenhum estádio, mas conheço quem vive perto do da Luz e se queixa(va) amargamente do caos e da falta de lei perto de sua casa em todos os dias de jogos.

    • António de Almeida says:

      Como disse a outro comentador, nunca me bloquearam o carro, há muitos anos que não recebo uma multa de estacionamento. Alguma coisa devo fazer bem, não pode ser apenas sorte. Sei lá, talvez cumpra as regras.
      No post referi-me ao que assisti, não aconteceu comigo.

  8. Manuel says:

    A EMEL num dia de jogo? Deve ser coisa passageira de campanha eleitoral.

    Quem vive ao lado de um estádio sabe perfeitamente como funciona: durante o dia EMEL e Polícia Municipal andam por lá muito zelosos e impiedosos (excepto uma ou outra empresa, ou cargas e descargas ou ou ou ou…).

    À hora dos jogos (ex. durante a semana, liga dos campeões) evaporam-se. Um carro em cima do passeio às 16h é bloqueio na certa (é a lei, dizem), às 18h30 é “não podemos fazer nada”.

    E quem diz isso? A PSP-trânsito, que mete uns poucos agentes já de cabelos brancos, e que se costumam encontrar em arcadas a olhar para o telemóvel.

    É a lei e, por muito aborrecido que seja, é para cumprir. O que está errado é não ser cumprida em “dias de festa” em prejuízo de alguns (moradores) para não chatear os eleitores-adeptos.

    E como alguém disse, se é “caça à multa” ou não, pouco importa, quem não deve, não teme.

    Antes de virem com “mas eu tenho o direito de ir a um jogo”, pensem no que é sair com uma cadeira de rodas num passeio bloqueado por um carro. Acontece. E a lei e o civismo são o mesmo às 16h e às 18h30.

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