“Esverdeamento”

O ano acabou mal, com a Comissão Europeia a classificar os investimentos em energia nuclear e gás como sustentáveis no processo de transição ecológica. A taxonomia é um sistema de classificação de produtos financeiros à escala da UE, destinado a orientar capital directo para a transformação verde da produção de energia e da economia.

E como os lobbies falam mais alto, a CE, na sua habitual incoerência entre o palavreado e a prática, apresentou aos 27 Estados-membros, na sexta-feira, uma proposta de rotulagem verde para centrais nucleares e a gás, abrindo assim as portas a que milhares de milhões continuem a fluir rumo a tecnologias nocivas e ultrapassadas – ao invés de serem aplicados em energias renováveis.

Além das consequências ambientais devastadoras destas formas de energia, hoje os sistemas energéticos baseados em energias renováveis são já mais baratos do que o nuclear e os combustíveis fósseis, criam mais empregos e possibilitam a criação descentralizada de valor, em vez de concentrar o poder económico em algumas grandes empresas.

Mas não há maneira de a responsabilidade e a sensatez falarem mais alto do que o dinheiro.

Comments

  1. JgMenos says:

    Entre o nuclear e a depredação de território para obter metais para as baterias, e sua reciclagem, só o preconceito não leva a fazer contas.

  2. Paulo Marques says:

    Vamos ser claros, avançou porque agrada ao capital Franco-Alemão, simplesmente.
    Agora, continuo sem perceber muito bem as contas de como há electricidade suficiente no médio prazo sem nuclear (ainda para mais com liberalismos cripto-parvoice); e se o deixar andar tem muitas culpas, ao ponto de até fazer o gás parecer sensato para o médio prazo, um pode continuar a produzir muito tempo com desenho e manutenção moderna com controlo apertado, o outro será o que sempre foi e o investimento terá que ter rendimento a bem ou a mal.

  3. Ana Moreno says:

    “Agora, continuo sem perceber muito bem as contas de como há electricidade suficiente no médio prazo sem nuclear”
    Viva Paulo Marques, estamos a falar de novos investimentos, não nos existentes; e quanto a isso, diz-se aqui: https://www.deutschlandfunk.de/kernenergie-in-der-eu-ein-auslaufmodell-fuer-mehr-100.html
    “Pode a energia nuclear contribuir de alguma forma para a protecção do clima? O grupo de reflexão “Cientistas para o Futuro” negou-o claramente no seu estudo apresentado em 27.10.2021: A energia nuclear não pode contribuir para resolver a crise climática, é “demasiado lenta para se expandir, demasiado cara e demasiado arriscada”, segundo a equipa internacional de cientistas liderada pelo perito da indústria energética Ben Wealer e Claudia Kemfert do Instituto Alemão de Investigação Económica.”
    Os governos andaram 30 anos a fazer de conta que as alterações climáticas não existiam. E agora ai jesus, mas continuando a serem os irresponsáveis servidores do capital a que sempre nos habituaram. E as maiorias masoquistas continuam a votar nestes partidos que defendem esse mesmo capital. Em Portugal, PS, PSD, farinha do mesmo saco.

    • Paulo Marques says:

      “Demasiado cara” e “demasiado arriscado” são opiniões e opções políticas. Não usam os mesmos recursos, há falta de emprego, e não é preciso deixar nas mãos de quem quer o lucro (ver 1).

  4. balio says:

    hoje os sistemas energéticos baseados em energias renováveis são já mais baratos do que o nuclear e os combustíveis fósseis

    Pois são, quando funcionam. Mas às vezes não funcionam, o que pode ter consequências catastróficas. Tal como o país em que a Ana vive verificou este ano, em que soprou menos vento do que devia. Se não fossem os combustíveis fósseis (e o nuclear!), a Ana poderia ter tido faltas de corrente.

    • Ana Moreno says:

      Isso porque o actual chanceler, durante o anterior governo da Große Koalizion bloqueou activamente o desenvolvimento das energias renováveis com absurdas regras sobre o distaciamento de moinhos de vento. Assim como antes já tinha sido bloqueada a energia solar. Mas nada justifica que se continue com investimentos futuros nessas tecnologias; já não bastou terem andado a impedir a transição energética, querem continuar a dar cabo do planeta.

      • balio says:

        o actual chanceler, durante o anterior governo da Große Koalizion bloqueou activamente o desenvolvimento das energias renováveis com absurdas regras sobre o distaciamento de moinhos de vento

        !!! O atual chanceler foi, no anterior governo, ministro das Finanças. Como raio pode o ministro das Finanças ter estado a elaborar regras sobre moinhos de vento?

        Mas, de qualquer forma, não é a multiplicação de moinhos de vento que poderá fazer com que se produza suficiente eletricidade eólica quando há pouco vento, como em 2021 houve na Alemanha. Tal como a multiplicidade de barragens hidroelétricas que existem em Portugal em nada ajuda quando há seca. Todas as energias renováveis – exceto a geotérmica – estão sujeitas a períodos, determinados pelo clima, em que a sua produção irremediavelmente colapsa. Pelo que, energias fósseis e/ou o nuclear serão sempre necessários, ainda que mais caros. Ou seja, a frase “nada justifica que se continue com investimentos futuros nessas tecnologias” é errada.

        • Paulo Marques says:

          Como é que um ministro das finanças, ainda por cima alemão, da eurolândia bloqueia investimentos? É um mistério inalcançável a eurófilos, lamento.

        • Ana Moreno says:

          Boa noite balio, de facto a minha memória atraiçoou-me e não foi Scholz mas sim Altmeier, o ministro da Economia da Große Koalizion que bloqueou activamente o desenvolvimento da energia eólica com absurdas regras sobre o distanciamento de moinhos de vento; Scholz esteve foi envolvido no escândalo Cum-Ex. Nisso tem, portanto, razão. Mas Scholz não deixou de fazer parte do governo que, até ao fim, bloqueou a transição energética, contribuindo para que se tenha chegado a este beco.
          “Mycle Schneider, autor do Relatório do Status da Indústria Nuclear Mundial, afirma que, segundo novos cálculos, “a energia nuclear é cerca de quatro vezes mais cara do que a energia solar e a construção demora cinco vezes mais. Se levarmos tudo em conta, a construção de uma central nuclear levar em torno de 20 anos”.
          Repito: Estamos a falar de futuros investimentos, que é para isso que serve a taxonomia; ora não são centrais nucleares que estarão prontas daqui a 2 décadas que vão ser tecnologia de transição; além de que a energia nuclear é totalmente inaceitável por ser altamente perigosa (Chernobyl e Fukushima) e conspurcar o planeta durante muitos milhares de anos com o lixo radioactivo que produz. Nada justifica, não. O que está aqui em jogo é a ambição da França de continuar a ser uma potência dotada de armas nucleares, como Macron já abertamente afirmou.

          • Paulo Marques says:

            Não é seja completamente seguro, mas usar exemplos de modelos completamente ultrapassados, um já na altura de construção, e com graves problemas de manutenção, com corrupção à mistura, não é o argumento que acha que é.
            É que depois acabamos neste absurdo de continuar a ter centrais ao lado de grandes centros populacionais porque não há vontade de os substituir por locais com consequências possíveis muito mais reduzidas, até pela constantes extensões do prazo de vida porque continuam a ter que estar ligadas.

    • Paulo Marques says:

      O país em que vivemos aceitou esse plano, não foi por acaso; se quer ser anti-europeu, assuma-o.

  5. Bach says:

    Quando os franceses desligarem as centrais nucleares, que alimentam boa parte da Europa Ocidental, e veja-se, até Portugal, bem que poderemos comprar velinhas…
    Não se tomam medidas para regular as agro-indústrias. Permite-se o desflorestamento massivo. Fala-se em carros elétricos, como se estes fossem a panaceia para a poluição atmosférica, mas cada navio que acosta em qualquer porto, polui mais que muitos milhares de veículos com motores de combustão interna. Continuamos a não apostar nas taras retornáveis e continuamos a promover hábitos de consumo baseados no desperdício e consumo de recursos constante… É inadmíssivel e incompreensível ir a um restaurante e servirem-nos latas e garrafas de plástico… Nalgumas zonas os aterros são os maiores acidentes orográficos da zona… Sim, estão a tornar-se montanhas colossais!
    A reciclagem é normalmente apresentada como a única medida, mas há outros ‘r’… Antes de reciclar, há que repensar, recusar, reduzir e reutilizar…
    Desde os anos 80 do século passado que se discutem a maioria destes problemas… E o que foi feito? Muito pouco…
    As energias renováveis, que para já não disponibilizam uma oferta global e constante, estão já cativas dos ‘donos da energia’…
    Não pode existir uma política de protecção do ambiente quando a política dominante passa por explorar até à exaustão todos os recursos do planeta, incluíndo os nossos semelhantes!
    Proteger o ambiente é proteger o ténue equilíbrio que nos permite sobreviver… O planeta irá permanecer durante muitos milhões de anos até que o Sol o devore! O tempo que a nossa espécie por cá ficar, depende do respeito que tivermos pelo ecossistema que nos sustenta!

    • balio says:

      Quando os franceses desligarem as centrais nucleares, que alimentam boa parte da Europa Ocidental, e veja-se, até Portugal, bem que poderemos comprar velinhas…

      Os alemães acabam de definitivamente desligar três das suas seis centrais nucleares.

      E os franceses desligaram temporariamente (para reparações urgentes) três das deles. Estarão desligadas por três meses.

      Pelo que, vá já comprar velinhas para se alumiar… (E carvão para se aquecer.)

      • Bach says:

        Provavelmente estão a comprar à Polónia… Carvão…

      • Ribas says:

        Graças aos alemães desligarem as centrais nucleares, tem agora o Kw/h mais caro da Europa.

        • Ana Moreno says:

          o Kw/h da energia nuclear só não era mais caro porque era e foi sempre fortemente subsidiado. “(…) a electricidade das centrais nucleares é completamente antieconómica, especialmente quando comparada com as energias renováveis. A energia nuclear na Europa beneficia sobretudo de benefícios fiscais maciços, subsídios e outras ajudas financeiras para a construção, manutenção e eliminação (na Alemanha um total de cerca de 187 mil milhões de euros ao longo dos últimos quarenta anos), reduzindo assim artificialmente o preço da energia nuclear. Estes custos são transferidos para todos os cidadãos através do orçamento nacional. “https://www.bund-sh.de/energie/atomkraft/hintergrund/die-wahren-kosten-von-atomkraft/

          A saída da energia nuclear é uma decisão que tem todo o sentido.

          • Paulo Marques says:

            Se o objectivo é queimar mais carvão e comprar gás ao “inimigo”, está a correr bem.

    • Ana Moreno says:

      Concordo com tudo o que escreve lá mais acima sobre as agro-industrias, etc.; além de que, começarmos por poupar energia, mudar os sistemas de transportes, melhorar a eficiencia energética das casas e outras medidas deste tipo parecem-me bem mais sensatas do que continuar a dar cabo do planeta porque supostamente temos de ter tudo aqui e agora e não parar de crescer.

  6. balio says:

    A Ana Moreno conhece um alemão chamado Michael Dittmar?
    (Deve haver montes de alemães com esse nome, tem que encontrar o certo.)
    É (ou era) um físico experimental de altas energias que, nas horas vagas, se dedicava a investigar os pontos fracos da energia nuclear, que zurzia forte e feio. No último artigo que li dele, já há uns anos, previa para breve uma crescente escassez de urânio, mesmo para fazer funcionar os reatores atualmente existentes.
    Mas deixei de encontrar artigos dele, se calhar mudou de ramo. É pena, porque parecia verdadeiramente bom. Além de que, por ser físico profissional, falava com profundo conhecimento de causa.
    Se o encontrar, diga-me.

  7. Ana Moreno says:
    • balio says:

      Pois.
      Não sabia que estivesse reformado, pelo contrário, pensava que fosse jovem.

      • Ana Moreno says:

        É jovem de espírito, quando diz: “Penso que poderíamos passar muito bem com muito menos. Temos de criar alternativas que tornem possível uma vida interessante. Mozart fez coisas interessantes sem electricidade. Claro que acho que a Internet e a comunicação são óptimas. Mas podemos passar sem isso, como sabemos do tempo dos nossos dias de escola. Algumas coisas talvez fossem mais fáceis. Mas agora todo o mundo está ligado. Também se possa viver bastante bem com menos electricidade. Talvez devêssemos investir algo nesse sentido”.

  8. Filipe Bastos says:

    Costumo concordar com a Ana; neste caso concordo também com o Marques: ainda não vi como seja possível prescindir do nuclear. A realidade parece indicar o contrário.

    O Bach está cheio de razão. O problema de fundo, já toda a gente percebeu, é o capitalismo. Mas de onde virá a coragem política para mudá-lo, e um eleitorado que vote em tal mudança? Também aqui a realidade parece indicar o contrário.

    Certo é que não podemos, como alguns anseiam, voltar a uma espécie de idílio semi-medieval. O progresso requer tecnologia. Esta requer energia. Temos é de usá-la melhor, limitar e redistribuir a riqueza, açaimar o capitalismo.

  9. Ana Moreno says:

    -“Açaimar o capitalismo”: boa ideia;
    – Incluir o nuclear numa taxonomia verde para investimentos futuros: péssima ideia. O nuclear e o gás não são nem ecologicamente sustentáveis nem economicamente viáveis.

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