Farfetch: como se constrói uma multi-nacional (parte 1)

A Farfecth

Se acedermos ao endereço http://www.farfetch.com/ podemos ler o seguinte sobre a empresa:

“A Farfetch existe pelo amor à moda. Acreditamos no empoderamento da individualidade. A nossa missão é ser uma plataforma global para a moda de luxo, conectando criadores, curadores e clientes.”

Então, o que é a Farfetch? A Farfetch é uma marca de venda de moda de luxo. Concentrando as suas vendas no mercado on-line, a empresa foi criada em 2007, pela mão do empresário português José Neves. Trata-se, portanto, de uma multi-nacional de invenção lusitana. Conta, neste momento, com cerca de 4500 trabalhadores e tem sedes no Porto e em Londres. Os seus mercados predilectos são o norte-americano, o japonês, o chinês e o brasileiro.

Fotografia: Fernando Veludo

Quem é José Neves?

José Neves criou a Farfetch em 2007. O empresário já investia no mundo da moda desde a década de ’90. Em 2007 cria a B Store, uma empresa de moda com loja física e que apostava em marcas e designers jovens e inovadores.

José Neves, CEO da Farfetch. Fotografia: Público

É em 2007, numa viagem à Semana da Moda de Paris, onde se desloca para promover a sua loja B Store, que Neves tem a ideia de criar uma marca de bens de luxo que operasse on-line e investisse em valores emergentes ao redor do mundo. Em 2013, o The Economist dizia sobre a empresa portuguesa que esta “valoriza as suas origens, dando oportunidade a boutiques independentes, mas permitindo que estas mantenham a sua identidade, ao mesmo tempo que cimenta a sua posição no mercado mundial”.

Em 2010, a multi-nacional investe 4,5 milhões de dólares em acções da Advent Ventures Partners (AVP), expandindo o negócio ao Brasil e aos Estados Unidos da América. No mesmo ano, novo investimento: 18 milhões na AVP, na Index Ventures e na eVenture Capital Partners.  Em 2013, 20 milhões de dólares na Condé Nast International, seguido de novo investimento de 66 milhões. No ano seguinte, a DST Global investe 86 milhões na Farfetch, valor posteriormente elevado para os 195 milhões.

Quem investe na Farfetch?

Tendo em conta o que é público, os investidores da Farfetch são: a Advent Ventures Partners, Condé Nast International, a Index Ventures, a Novel TMT, a eVentures e a Vitruvian Partners.

Em 2015, a Farfetch é considerada uma “empresa unicórnio” pela Private Eye. As “unicórnio” são start-ups de sucesso, que apresentam larga margem de progressão, e que beneficiam de incentivos fiscais para operarem em diversos países.

Já no ano de 2021, foram anunciados lucros de cerca de 1,3 mil milhões de euros, tendo as receitas crescido 34% para os 2 mil milhões de euros. Segundo o CEO José Neves, 2022 será um ano de “aumento da rendibilidade” e de “captura de quota de mercado”. Nesse ano, em Outubro, a empresa lançou a sua primeira marca de roupa em nome próprio. Os preços dos acessórios varia entre os 70€ e os 195€. E em Dezembro, o grupo liderado por José Neves adquire a marca de revenda de roupa de luxo, a Luxclusif, também de origem portuguesa.

Já este ano, a 5 de Abril, nova aquisição: a Farfetch investe cerca de 200 milhões de euros no grupo norte-americano Neiman Marcus.

Depois de atingido o sucesso nacional e o impulso internacional, a Farfetch começa, então, a monopolizar o seu espaço de actuação no mercado (que é livre, parece-nos).

Mas, convém investigar, como foi atingido este sucesso? Quais as bases? No início de 2022 surgiram as primeiras denúncias anónimas. 

Foi no Instagram da estilista polaca Patrycja Juraszczyk, depois do anúncio feito pela Farfetch de que iria enviar ajuda humanitária para a Ucrânia, que a face real da empresa começou a vir ao de cima. Centenas de denúncias chegaram às mãos da estilista, que hoje vive no Porto e que já trabalhou na Farfetch: abusos psicológicos, pagamentos abaixo do acordado, bullying laboral e burnouts. Não é a queixa de uma, duas ou três pessoas. São, como disse, centenas de trabalhores, directa ou indirectamente ligados à Farfetch, que expõem o clima de intimidação que se vive no seio laboral, nomeadamente na fábrica que a empresa detém em Guimarães.

Tais queixas serão abordadas e expostas, salvaguardando a identidade dos queixosos, no próximo artigo correspondente ao assunto Farfetch. Fica aqui uma dessas queixas, como aperitivo.

Continua… 

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Pelo que percebi, e já lá vão uns anos, de quem ia ou queria ir, foi uma questão de estar no lugar certo na altura certa com a rede certa, que mesmo a tecnologia em si não era nada de novo com uns pozinhos do boom de análise de dados num mercado extremamente conservador.
    Que apanhe os mesmos tiques das empresas que copiou não é de estranhar.

  2. balio says:

    Hmmm. Temos portanto uma pessoa que se queixa de estar muito cansada porque mora no Porto e todos os dias vai para Guimarães trabalhar. É caso para perguntar, porque não se muda para Guimarães (ou para algures nas redondezas), que presumivelmente será mais barato? A culpa do cansaço da pessoa é da Farfetch, ou do facto de morar muito longe do local de trabalho?

    • Paulo Marques says:

      Porto-Guimarães são 2:30h e nunca reparei!

    • Joana Quelhas says:

      O Maio deve achar que a Farfetch devia mudar para o Porto , ali para a rua das Flores, mesmo ao lado da trabalhadeira que anda tão cansada…
      A transmutação do comunista: antes supostamente defendia os trabalhadores famintos, que com o capitalismo ascenderam ao nível de vida que nunca pensaram conseguir . Agora defendem …sei lá … qualquer queixinhas serve.. enfim!

      Joana Quelhas

      • João L Maio says:

        Queillas,

        Isto ainda só é a parte 1 e vocês, libero-fachos, já espumam. Imagino a quantidade de baba que perderão depois disto chegar à parte 10. Ficam desidratados, pá… calma com o fossar.

Trackbacks


  1. […] aqui este capítulo, prometendo voltar com mais testemunhos. Repito o que disse na Parte 1: não é uma, não são duas ou três pessoas; são centenas de testemunhos com queixas graves […]

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