Foi você que pediu uma disseção?

We want to know how these things are organized.
Noam Chomsky

***

Há 14 anos, fui ao Instituto Franco-Português (pdf) denunciar, entre outras coisas, estas transcrições fonéticas do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, publicado pela Academia das Ciências em 2001.

Nessa altura, e também mais tarde, chamei a atenção para (e de) autores de Vocabulários Ortográficos “ao abrigo do” AO90 que seguiram cegamente estas propostas (leia-se: imprecisões) de Malaca Casteleiro (1936-2020) & C.ª.

Como o “critério fonético (ou da pronúncia)” é vago e impreciso e a base são dicionários com transcrições fonéticas extremamente discutíveis (leia-se: sem critério), os autores de Vocabulários que seguem, adoptam e servem de base ao AO90 andam por aí ao-deus-dará e o resultado é aquele que acabámos de ver.

Obviamente, o “critério fonético (ou da pronúncia)” da base IV é meio caminho andado para estas aventuras. E, sabe-se lá porquê, subitamente lembrei-me do “agora facto é igual a fato (de roupa)“. Para Santana Lopes, como os jornalistas continuam a deixá-lo andar por aí e sem responder àquelas perguntas que sugeri há cerca de dois meses, tudo continuará a ser igual a fato (de roupa) e ao litro.

Hoje, tendo regressado por uns minutos à interessantíssima leitura da melhor montra do desastre ortográfico em curso, encontrei no Diário da República uma grafia muito mais atractiva do que fatos e contatos.

Desde 1 de Janeiro de 2012 (pdf), houve, no Diário da República, 70 ocorrências de dissecção e 26 de disseção.

Haverá alguma razão para tal <disseção>? Se calhar, não.

O Dicionário da Academia (2001) é omisso em relação quer a <dissecção>, quer a <disseção>:

O actual regista <dissecção> (sem transcrição fonética) e ignora <disseção>.

O meu dicionário de língua portuguesa preferido, o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora (2009), só regista a forma com [k]:

 

O mesmo acontece na Infopédia (versão AO90): com <dissecção> e sem <disseção>.

E o mesmo acontece na melhor Infopédia de todas (a da versão sem AO90): com <dissecção> e sem <disseção>.

Haverá razão para tal <disseção>?

Há uma.

A razão para tal grafia, ainda por cima entre gente instruída, especialista e especializada, é a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. E os culpados disto tudo são os políticos que ignoraram os avisos pré-AO90 e que escrevem “agora facto é igual a fato (de roupa)” e os políticos que actualmente ignoram a realidade e que dizem coisas extraordinárias, como: “é importante sublinhar a relevância do Acordo para a literacia“. É importante sublinhar, é. É, é. Sim, sim.

Agora, vou mas é trabalhar.

Até breve.

***

Comments

  1. Anonimo says:

    No que respeita ao AO sou um espetador.
    Na práctica, iremos assistir à victória dos emojis. Os egípcios do Egito é que a sabiam.

  2. POIS! says:

    E lá vai Poesya Achordal (da série Biogeometria em Ação):

    “Estou a terminar de dissecar,
    Uma complicada trissetriz.
    Em seguida vou p’rá cama descansar,
    Abraçado à amiga Beactriz.”

  3. Manuel M. says:

    Excelente.
    Isto é serviço público.

    Manuel M.

  4. Manuel M. says:

    Excelente.
    Isto é serviço público.

    Manuel M.

Trackbacks

  1. […] ser uma máxima, uma preocupação permanente da classe política portuguesa, principalmente daqueles que amiúde prejudicam, com “agora facto é igual a fato (de roupa)” ou com “é importante […]

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