Santos e bruxas

Aquilo a que no Ocidente se chama civilização é um longo processo de sistematização das relações sociais e dos símbolos que a essas relações presidem. Desde há bastante tempo, contudo, que esse processo, em virtude da complexidade que atingiu, se transformou numa das mais exigentes disciplinas da Engenharia e, mais propriamente numa vertente muito particular da Engenharia que toma o nome de design.

O design de sistemas sociais faz-se através da aplicação de um cânone, de uma matriz de correspondências e proporções geométricas, ao conjunto de elementos mais ou menos dispersos que compõem um ou vários conjuntos sociais e respectivos símbolos, com o fim de organizá-los numa estrutura coesa de simetria variável, cujos pontos de estabilidade e ruptura sejam previsíveis e controláveis.

Essa simetria variável confere a cada estrutura a flexibilidade necessária à sua adaptação a condições permanentemente mutáveis, impedindo, ao mesmo tempo, que a tensão atinja um ponto de desmembramento, isto é, que force a estrutura para lá da sua capacidade de coesão e destrua o seu equilíbrio.

Uma das marcas mais visíveis do designer de sistemas sociais, o arquitecto de civilização, é o modo como relaciona os tais símbolos e, mais do que isso, as modificações que introduz na sua matriz geométrica, no seu cerne ontológico e na relação que eles estabelecem com os receptores psicológicos – identitários – dos elementos que compõem um conjunto e o conjunto dos conjuntos, vistos como um todo.

Faz algum sentido eliminar o feriado de “Todos os Santos”?

Rui Nadinho

O dia de ” Todos os Santos”, sendo um feriado religioso, não deixa de ser acima de tudo uma evocação à nossa ancestralidade. Aqueles que num passado recente resolveram por sua alta recreação apagar o feriado de 1 de Novembro, só demonstraram uma enorme insensatez, uma falta de princípios morais e éticos confrangedora, perante o seu apetite pelo neoliberalismo.

Cemitério de São João de Areias, Dia de Todos os Santos, 2014

Cemitério de São João de Areias, Dia de Todos os Santos, 2014
Foto: Lino Dias @Farol da Nossa Terra

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Quando eu morrer

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Hoje, já dia 2 de Novembro, mas ainda dia 1, celebrou-se mais um Dia de Todos os Santos. Dia de ida ao cemitério. Dia que se justificava ser feriado, já que as famílias aproveitam para se encontrar. Velar os mortos é apenas um pretexto e em muitos casos reúnem-se dezenas de pessoas em torno de um jazigo. É uma forma de recordar quem partiu e de estar com quem ainda por cá anda. Morte e vida são celebradas de mãos dadas. Mas claro que a nossa Igreja, ao ser confrontada com a necessidade de reduzir feriados religiosos, escolheu eliminar este. Um dos poucos feriados que realmente juntavam as famílias. Tem muito de pagão, é verdade, mas foi a própria ICAR que tentou abafar uma celebração bem mais ancestral…

Hoje celebra-se a vida através da recordação dos mortos e dos seus feitos. A mim continua-me a fazer espécie aproximar-me de um buraco no chão coberto por lápides de mármore, sabendo que o corpo inerte do meu pai está algures ali por baixo desfazendo-se lentamente. Raramente visito o cemitério. Não suporto a ideia de o saber ali. Detesto ver a fotografia dele numa placa de mármore. Abomino sabê-lo ali. Sempre acreditei e defendi que a melhor homenagem que podemos fazer aos nossos mortos é tê-los tratado bem em vida. Que adianta ir regularmente ao cemitério, limpar campas, comprar flores, acender círios, se não os tivermos tratado bem em vida? Não foi exactamente o meu caso. Sempre «choquei» com o meu pai. Feitios demasiado semelhantes. Demasiadas diferenças de opinião. No entanto, já doente, visitei-o sempre que podia. Por vezes sabia que iria ser mal recebida, que iria ser maltratada, mas aparecia. O fim de vida dele não foi digno. Um homem enérgico preso a uma cama, a usar fraldas, dependente de terceiros para a higiene e alimentação, frequentemente com alucinações… Não foi bonito.

Sei que não estive presente tanto quanto devia. Sei que não dou o apoio que devia à minha mãe. Sei que não a vejo tanto como gostaria e isso vai radicalmente contra a minha teoria de tratar bem em vida porque o que importa e o que conta é a sua presença vivos. É isso que nos permitirá recordá-los depois de os perdermos. [Read more…]

Pão das Almas 3

Todos os Santos.
Cossourado, Barcelos.

Pão das Almas 2

Todos os Santos.
Cossourado, Barcelos.

Pão das Almas 1

Todos os Santos.
Cossourado, Barcelos.

A maturidade dos mais novos e o quarto mandamento

Escrevo este texto enquanto a filha médica toma conta de uma súbita doença da mãe médica.

É o Quarto Mandamento dos Cristãos e Muçulmanos em ação. Lamento a doença, mas é um facto que apoia o meu argumento. A mãe era para viajar, a doença não lhe permitia. A filha ordenou e a mãe obedeceu. Há maturidade na mais nova, aprendida dos seus ancestrais.

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Dia de Todos os Santos

 

Eis a banda sonora dos tempos em que não vivemos, dos tempos que correm em direcção ao passado a uma velocidade assustadora, dos tempos em que se percebe que os fracos pisa-os a História. É importante responder a esta canção do Sérgio Godinho. Como é possível andarmos a construir as cidades que não são para nós, como pode ser isto de trabalhar um dia inteiro por tão pouco? Que estranha força é esta que nos tira toda a força? Hoje será o dia de todos os santos, mas para se ser santo tem de haver uma inumana propensão para aceitar os sofrimentos infligidos, uma tendência para o martírio. Que os outros dias sejam de todos os homens, mesmo que sejam fiéis defuntos.