Cavaco Silva esqueceu-se do Acordo Ortográfico de 1990

NAGG
I hope the day will come when you’ll really need to have me listen to you, and need to hear my voice, any voice.
Samuel Beckett, “Endgame

… the opportunity to use our voice for the voiceless.
Joaquin Phoenix

Todos os meus discursos saem com o acordo ortográfico mas eu, quando estou a escrever em casa, tenho alguma dificuldade e mantenho aquilo que aprendi na escola.
Cavaco Silva

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Esta notícia chegou-me no preciso momento em que ouvia, vinda de algures, a voz do Anthony Blanche a declamar à varanda do Sebastian Flyte o The Waste Land do T. S. Eliot (“His vanity requires no response,/And makes a welcome of indifference”). Momentos antes, pensara na razão pela qual Charles Ryder/Jeremy Irons diz “we were eating the lobster Thermidor when the last guest arrived”, quando no livro temos Ryder a indicar que “when the eggs were gone and we were eating the lobster Newburg, the last guest arrived”. Aliás, antes de passarmos ao assunto do costume, ficai a saber que, embora haja (Scottish) lobster Thermidor no Simpson’s in the Strand, no filme a sugestão é “roast beef and Yorkshire pudding”, mas no livro recomenda-se “saddle of mutton”. Quer num, quer noutro, para que não haja dúvidas, “cider to drink”.

Adiante.

Efectivamente, é essencial acabar com a pobreza. É importante desenvolver a rede de cuidados paliativos. A corrupção deve ser combatida. Portugal não pode estar na cauda da União Europeia nem em matéria de desenvolvimento, nem em qualquer outra matéria. Tudo isto é importante, fácil de dizer, mas difícil de fazer. Todavia, acabar com o AO90, além de essencial, é fácil. Muito fácil. Extremamente fácil. Acabemos com isto, sff:

Obrigado.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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O Acordo Ortográfico de 1990 explicado por Dilma Rousseff

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“I want so to see the Arno. The rooms the Signora promised us in her letter would have looked over the Arno. The Signora had no business to do it at all. Oh, it is a shame!”

— E. M. Forster, “A Room with a View

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Hoje, durante o discurso inicial de defesa, Dilma Rousseff explicou as razões pelas quais o Acordo Ortográfico de 1990 é perfeitamente inútil.

Por exemplo, no discurso de Rousseff há duas ocorrências de «ruptura democrática» e uma ocorrência de «ruptura institucional». Ora, segundo o estabelecido no AO90, ruptura mantém-se no português do Brasil, mas deixou de existir em português europeu: criou-se a *rutura. Exactamente, aquela que já em 1999 parecia “injustificada“. Efectivamente.

Quanto ao aspecto, Rousseff volta a referi-lo:

Nos últimos dias, novos fatos evidenciaram outro aspecto da trama que caracteriza este processo de impeachment.

O aspecto foi proscrito da norma portuguesa europeia. O aspecto português europeu é outra vítima do AO90: criou-se o *aspeto. Quanto aos “novos fatos”, todos sabemos onde encontrá-los: sim, eles existem.

Obrigado, Dilma Rousseff, por esta lição.

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