Cartoline de Roma #5

Questa cartolina è dedicata ai miei genitori

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ou seja, este postal é dedicado aos meus pais. Duvido que alguma vez o leiam. E não vou exatamente escrever sobre eles ou para eles. Mas hoje vi, com o Stefano (finalmente, depois de tantos adiamentos) um filme. Um documentário melhor dizendo, chamado exatamente ‘Genitori’** e aquilo que é relatado (de uma bela forma, diga-se desde já, muito sociológica e objetiva, sem cair na lamechice fácil) são as histórias dos pais que têm filhos ‘diferentes’. Deveria dizer, muito mais adequadamente, das mães. São elas as protagonistas. Também há homens, mas muito poucos. As ‘cuidadoras’, já o sabemos e há muitos estudos sociológicos que nos mostram isso, são as mulheres. O documentário ‘Genitori’ é de Alberto Fasulo e foi apresentado fora de competição no Festival de Locarno deste ano. Por estes dias (de 15 a 22 de setembro) Roma enche-se com os filmes (em várias salas da cidade) dos Festivais de Veneza e Locarno. Tenho pena de não poder ficar aqui mais tempo, para aproveitar esta coisa maravilhosa. Sei que a maior parte (quase todos) os filmes aqui apresentados jamais estrearão em Portugal (e quando digo Portugal, estou a dizer Lisboa, bem entendido).

Mas voltando aos pais com filhos ‘diferentes’ e ao filme-documentário e aos meus próprios pais. Não é que eu seja muito ‘diferente’, mas nasci um bocadinho ‘diferente’ e há 48 anos, em Portugal, dentro da longa noite que vivíamos, isso era motivo suficiente para que os meus pais tivessem sofrido bastante com a minha ‘diferença’. No entanto, tal como muitos pais que aparecem em ‘Genitori’, os meus pais foram fortes e andaram sempre para a frente, fazendo o que podia ser feito e o que não podia ser feito, empurrando-me sempre também para a frente. Muita da minha independência e alguma da minha ‘força’ vem deles e desse modo como souberam sempre (mesmo se nem sempre de forma muito consciente, lidar com a essa minha, mesmo se pequena, ‘diferença’. Os pais e as mães do documentário narram as suas histórias e dificuldades. Os seus receios. A sua dor. Por duas ou três vezes estive ali à beira das lágrimas. Acho que o Stefano não notou. Mas tive um nó na garganta. Não sei se há amor maior no mundo do que o dos pais pelos seus filhos. Eu não tenho filhos. Mas conheço o amor dos meus pais.

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Cartoline di Roma #4

‘Roma è un tesoro e noi siamo tutti capitani’***

Este postal é mais curto que os anteriores. Levantei-me às sete e meia, depois de ter dormido quatro horas e já são três da manhã. Apesar de ter acordado muito cedo, chego à Faculdade de Economia de Roma Tre um bocadinho depois das nove. Pouquíssima gente na sessão que será a última do meu grupo de trabalho. Estou ainda meia a dormir, apesar do duplo espresso que tomei. Quando acabamos, vamos (eu e o A.) beber mais café. O Diogo também chegou entretanto e ficamos na conversa. Peço ao primeiro que conte ao segundo a sua história hilariante com um monge budista de visita a Florença. A mesma primeira estória que me contou em Wageningen, tínhamos acabado de nos conhecer. Em 2007. Rimos-nos muito, outra vez, a estória é realmente hilariante, pode ser que um dia conte… e chega a hora de voltarmos, eu para uma sessão sobre vendedores de rua (street food, vá), porque me apetece, o Diogo já não sei para que grupo e o A. para casa, em Florença.

Toda a gente sabe que as despedidas me enervam. Mas algumas deixam um vazio tão imenso, um buraco tão fundo, que não sei o que fazer. O A. abraça-me. Diz-me coisas que só eu devo ouvir e saber. E eu fico triste enquanto o deixo para trás, na cadeira, à espera do amigo que o há-de levar a Termini. E entro triste na sala da sessão sobre street food. Há casos de NYC, França, Chad. Gosto especialmente do último. E do senhor que o apresenta. Ou é do vazio que sinto ainda ou é do esforço notável que o senhor faz para falar inglês, mas só me apetece agradecer-lhe. Almoço com o Diogo e quase no fim aparecem duas mulheres e uma delas, loira e de olhos azuis pergunta-me ‘are you Mrs. Figoeredo?’ ou qualquer coisa do género. Respondo que sou eu sim, mais i menos e, mais u, menos o. E ela diz que irá à conferência de Aveiro daqui a duas semanas e apresenta-se. Reconheço o nome, da lista de participantes. É grega. São as duas gregas, aliás. Ficamos para ali a conversar. Elas conhecem os outros gregos de quem tanto gosto. E, na verdade, gosto delas também, assim de repente.

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Cartoline di Roma #3

‘Tutta la merda dell’universo succede a me’, murmurou ele…

Hoje não tenho muitas fotografias. Há pouco que fotografar num congresso e mesmo que fotografe os colegas não vou, ainda que às vezes o faça, publicar aqui as fotografias… não vão eles aborrecer-se comigo.

O dia começa cedo. Mas assim mesmo eu e o Diogo não vamos à Sessão de Abertura. Chegamos a tempo da primeira Sessão Plenária, depois de apanharmos o metro na Piazza Bologna, em direção a Laurentina e de sairmos na estação da Basilica de S. Paolo e caminharmos uns bons 15 minutos até à Faculdade de Economia da Universidade de Roma Tre. A sala da sessão está bastante composta e vejo algumas caras conhecidas. No entanto, este congresso não é exatamente a minha ‘praia’, por assim dizer, já que é sobre agricultura e eu percebo pouco de agricultura propriamente dita. Mas o G. um dos organizadores convidou-me a mim e ao A. para fazermos um Grupo de Trabalho sobre Turismo e Agricultura. Aceitámos. Recebemos propostas de comunicação em número mais que suficiente e, portanto, aqui estou eu. O A. há-de chegar apenas depois de almoço, mas ainda a tempo da primeira sessão do dito grupo de trabalho.

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Cartoline di Roma #2

La pioggia su Roma ed essere a metà strada*

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Não é preciso dizer-vos que perdi o pequeno almoço. Já é um clássico, onde quer que vá. Levantei-me ja passava das 11h. Dormi pouco e mal. tomo banho e visto-me e saio para a rua rapidamente. A Piazza Bologna está praticamente deserta. Está calor como ontem, mas o céu anuncia que a chuva virá. Lembro-me que não trouxe chapéu de chuva. Mas penso que tanto faz e que se for preciso compro um algures. Antes tinha visto uma mensagem no facebook do Stefano que me dizia bom dia e que ia fazer isto e aquilo e que talvez por volta das nove estivesse livre. Respondo-lhe que então, falaremos depois. No bar da esquina, aqui mesmo em frente ao hotel, bebo um sumo de laranja, um espresso e como um croissant com doce. Desço as escadas do metropolitano. O jardim está deserto, mas alguém deixou uma garrafa em cima da fonte com uma rosa vermelha. Considero aquilo um bom sinal. Não sei que sinal, nem sei por que o considero bom. Mas desço as escadas a pensar em coisas boas.

Tomo o metro em direção a Termini, claro. Aqui tomo outro para a Piazza de Spagna. Não tenho um plano bem definido para hoje. Não tenho um plano, ponto. Mas há lugares onde quero regressar. Não ao Vaticano, seguramente. Uma vez é suficiente. E já o visitei antes. Não é sítio onde queira voltar. Demasiada pompa e demasiado embaraço diante de tanta ostentação. Lembro-me que quando visitei o Vaticano estava um calor abrasador e desagradável. Lembro-me que dentro da Capela Sistina nos trataram como se fossemos gado, sempre a mandar-nos avançar. Não, o Vaticano não é definitivamente, um lugar a que queira regressar. Uma vez na vida creio que será suficiente. Tão pouco penso em regressar ao Coliseu. Ainda ontem lá passei à noite. Está no mesmo sítio e deve continuar bonito como dele me recordo. Mas não está nos meus planos hoje ficar em filas infindáveis para ver o que já foi visto. No entanto, há lugares onde gostaria de regressar e é esse o meu plano, dentro do plano que, afinal, não tenho.

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Cartoline di Roma #1

‘Il passato è un fiume’ o ‘Giuro che me sembrava francese’

Voltar a Roma depois de sete anos (embora entretanto aqui tenha passado de comboio para outras paragens algumas vezes, sem, no entanto, parar) é regressar a um sítio muito familiar. Voltar a Itália depois de dois anos é, definitivamente, regressar a uma casa que é nossa, mesmo se a visitamos apenas de vez em quando. Uma casa onde se conhecem os cantos, mesmo no escuro. Onde nos movemos bem, mesmo de olhos fechados. Uma casa que se entende, mesmo sem acender a luz.

Saio de Lisboa quase às 3 da tarde. Estou com os meus pais apenas umas horas, algumas das quais passamos a dormir. Decidem ambos ir levar-me ao aeroporto, apesar da minha insistência em contrário. Apanho um táxi, repito, para não dar trabalho. Mas o meu pai, apesar dos seus 77 anos, é um homem que não se deixa vencer assim tão facilmente. Se já consegui que não me vá buscar à estação ou ao aeroporto quando chego de noite, não consegui ainda (e espero que o não consiga por mais alguns – muitos – anos fazê-lo desistir do prazer que tem em ir buscar e levar as filhas (faz o mesmo com a minha irmã) a qualquer lado. Às vezes, quando não trago – como agora – o carro para Lisboa, leva-me ao cinema ou onde for preciso, mesmo que eu lhe diga que não é necessário, que vou de transportes públicos. É também o meu pai quem frequentemente se levanta, seja que horas for, mesmo muito de madrugada, para me fazer o pequeno almoço muitas vezes que estou em Lisboa de passagem para algum lugar. É também o meu pai que me faz o café depois das refeições, mesmo que eu lhe diga que não se levante. Há estes rituais de mimo de que gosto tanto e que quero aproveitar sempre, muito e por mais tempo.

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Cartolina prima di tornare in Italia

Ora vado e non so se torno

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Esta fotografia foi tirada há muitos anos – sete – em Roma. Piazza Navona, creio. Sete anos não são quase nada e, no entanto, podem ser tanto, na verdade. Em 2008 eu era feliz em Roma. Como sempre fui, aliás, feliz, em Itália (ou deverei dizer em toda a parte onde estive e estou). Não daquela felicidade absoluta e inquestionável, mas daquela que vem de um bem-estar quase permanente. Suponho que seja uma maneira de ser. E sei que a fui aprendendo, com o tempo, muito antes desta fotografia, muito antes de muitas coisas importantes que me aconteceram por viver e estar viva. Não é exatamente a mesma coisa, creio que sabem isso tão bem como eu o sei.

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Postal de Portugal (de Lisboa)

Elisabete Figueiredo

POSTAL DE LISBOA
‘Quando è entrato in l’aereo ho visto subito che lei non era una persona come tutte le altre’*
Levanto-me, em Palermo, às 6 da manhã (5 da manhã em Portugal). Tomo banho. Visto-me. Seco o cabelo. Fumo um ensonado cigarro. Constato que dormi 3 horas. Olho para a cama com vontade. Arrumo o resto das coisas. No hotel têm a gentileza de, apesar de tão cedo, me darem o pequeno-almoço. Um café duplo, forte e um bolo delicioso. O táxi chega. Vamos para o aeroporto de Palermo. O voo entre Palermo e Bologna é da Ryanair. Quantas vezes jurei a mim mesma nos últimos, digamos, 5 anos, que era a última vez que andava num avião da Ryanair? Seja como for, fico sempre contente por não ser a última vez, se entendem o que quero dizer. De qualquer modo, a Ryanair não recebia a minha preferência há pelo menos um ano. Ou mais. Havendo outras, honestamente, prefiro, mas que o bilhete seja um bocadinho mais caro. [Read more…]

Ultima Cartolina d’Italia (musicale*)

Elisabete Figueiredo

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‘Lascia ch’io Pianga’*


Talvez hoje houvesse ou haja algumas razões para chorar. Para começar o raio do livro que comecei a ler, entre outros em que agarrei e coloquei na mala antes de vir. Dois deles já foram lidos, este vai já a meio. Comprei-o há mais de 2 anos e, não sei porquê, eu que tanto gosto do Julian Barnes deixei-o para ali ficar, também juntamente com outros ainda por ler. Até que agarrei nele e o trouxe comigo. Vá-se lá saber porquê. A escolha dos livros que vieram comigo a Itália foi perfeitamente aleatória, não pensada: o Amante Bilingue do Juan Marsé; Chet Baker pensa na sua arte, do Enrique Vila-Matas e  O Sentido do Fim, este do Julian Barnes. Ou se calhar até foi pensada sem o ser de facto, reparo agora que escrevo os títulos lado a lado. Quem já o leu O Sentido do Fim e me conhece um bocadinho talvez perceba uma das razões para chorar. As outras razões são ora tristes (vou-me embora amanhã e ainda que não terminem é quase quase como se terminassem as férias) ora contentes (vou para casa, ao fim de tantos dias e as saudades que eu tenho de casa, da minha vida regularzinha, sem andar com malas para trás e para a frente. Sim, a minha vida. Que em nada, ou em pouco ou talvez apenas nas férias se assemelhe à literatura. Não é que me desgoste, seja como for). [Read more…]

Cartoline d’Italia (16) (da Palermo)

Elisabete Figueiredo


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‘Ma… lei è a Palermo per fare la rivoluzione?’*

Em vez de ir a Marsala ou a Cefalú decido ficar em Palermo. Afinal há ainda muitas ruas a percorrer, muitos sítios onde ir. No mapa tinha visto a Piazza Rivoluzione. Interessa-me, penso. E lá vou hoje. Começo pela Via Maqueda, Piazza Quattro Canti, desço um pouco da Via Vittorio Emanuele e a sinistra a via Roma e a dritto a Piazza San Domenico. Não está calor, aliás o céu alterna continuamente entre o cinzento e o azul, faz vento, é domingo, as ruas estão mais ou menos desertas. Uma cidade muito diferente de ontem, esta de hoje. Na Piazza San Domenico resolvo inovar e em vez de voltar para trás e percorrer a Via Roma até perto da estação, onde fica a Piazza Rivoluzione, não. Meto por uns becos. Perco-me numas ruas logo a seguir, claro está, mas continuo. Entro numa zona estranha, com prédios bastante degradados, ruas cheias de lixo, garrafas, caixas, sacos de plástico cheios. Chego a uma praça bastante estranha e penso que podia ser a Piazza Rivoluzione, tal é a quantidade de graffitis com mensagens de protesto, tal é a degradação dos prédios, como se acabassem de ser bombardeados. Não me assusto, afinal, não há quase ninguém na rua. Não me assusto e começo a tirar fotografias aos edifícios cheios de mensagens políticas. Que estranho sítio ou então sou eu que acordei com mais disposição militante que o costume. Ou talvez seja apenas a ideia de ir à Piazza Rivoluzione que me põe mais atenta. [Read more…]

Cartoline d’Italia (15) (da Agrigento e da Palermo)

Elisabete Figueiredo

IMG_5621Il posto più brutto al mondo, i templi, mezza angùria, un’ape e, alla fine, um bello gatto giallo*

Decido ir ao Vale dos Templos, já que o tempo parecia anunciar-se mais fresco (mas, na realidade, nem por isso). Saio do hotel, Via del Celso abaixo, doppo a destra pela Via Maqueda. Passo a Piazza Quattro Canti, continuo a dritto. Vou com calma a apreciar as coisas, sou duas ou três vezes interrompida com perguntas de turistas sobre lugares que não sei explicar onde ficam e acho graça, confesso. Embora tenha pena de não saber explicar como se vai para os sítios para onde as pessoas querem ir. Continuo em frente até ao cruzamento com a Via Torino, doppo a sinistra, doppo a destra e chego à Stazione Centrale di Palermo. Vejo o que parte mais cedo, se o comboio, de o autocarro. É este e, por isso, uma vez mais com uma certa pena, apanho o autocarro. Andata e ritorno para Agrigento. Sento-me, lá fora o céu está cinzento e eu contente com o meu chapéu-de-chuva cor-de-rosa (que afinal não foi preciso) dentro do saco. No autocarro vão poucas pessoas. Só eu e duas raparigas irlandesas (ouvi-as falar e percebi) somos turistas. Também vão, seguramente, para o Vale dos Templos. [Read more…]

Cartoline d’Italia (14) (da Palermo)

Elisabete Figueiredo

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As pessoas interessam(me) pouco se não me acertarem diretamente no coração

Cheguei ontem às 10 da noite a Palermo, Sicilia, depois de um dia longuíssimo em que me perdi no mar, entre outras coisas. Palermo pareceu-me ontem uma cidade tranquila, quando depois de pousar as malas no hotel da Via del Celso, a voltei a descer, rumo à Via Maqueda que percorri por um bocadinho até alcançar o Teatro Massimo, imponente e luminoso no meio da noite. Estava tudo silencioso à minha volta. Pouco iluminado, excetuando o teatro. Sentei-me por ali numa esplanada e comi um gelado. Os sabores já os conhecem, ‘cioccolato, fragola e limone’. Tenho a originalidade que se sabe. Quero dizer, nenhuma e gosto de hábitos e de canções do Paolo Conte. Un gelato al limon, sprofondati in fondo a una città*… por exemplo. E como os gelados sem misturar os sabores. [Read more…]

Cartoline d’Italia (13) (da Costiera Almafitana, da Napoli e da Palermo)

Elisabete Figueiredo

IMG_5625Acanto a te…*

Hoje, se soubesse como, podia escrever uma cartolina cheia de poesia. A vida é bastante, no entanto. Quero dizer, há bastante poesia em toda a parte e isso talvez seja suficiente. É de certeza suficiente. E asseguram-me que assim é, de muitas maneiras, as pessoas, certas pessoas, as canções do Paolo Conte que hoje cantei, com alguém, muito alto, enquanto seguíamos a Costiera Amalfitana, o sol da terra do mezziogiorno, o mar em volta a refletir a cor de um profundo olhar. Sim, é verdade, há poesia bastante em toda a parte e lontano a te no se pò stare**. E, mais que no mar, ali ao fundo, do ‘mare scuro che si muove anche di notte e no sta fermo mai’*** o que deveria acontecer era mergulhar, tuffarmi negli tue ochi**** e ficar, lá no fundo, a enlouquecer devagar.

Alguém de quem gosto muito fez hoje sete horas (andata e ritorno) de viagem só para me mostrar a Costiera Amalfitana. Deve valer a pena, pensei. E nela demorámos, a valer a pena, devagarinho, um pouco mais de tempo. Alguém que conheço há muito tempo e canta comigo e me faz rir e me oferece girassóis, só porque gosta de me ver contente. Alguém que raramente me disse outra coisa além de todas as palavras certas. Mesmo se estiveram, algumas vezes ou muitas, fora do tempo ou dos lugares ou me tenham parecido erradas. [Read more…]

Cartoline d’Italia (12) (da Napoli)

Elisabete Figueiredo

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‘Lei è francese?’ Ou uma comédia romântica que podia ter começado se a vida fosse como nos filmes.

De manhã apanho o funicular central, perto da Piazza Municipio para ir à Certosa S. Martino. Resolvo atravessar todo o Quartieri Spagnoli, apesar da insistência do senhor do hotel em que tome, em vez, a Via Toledo. Insisto eu que quero atravessar o bairro espanhol e ele diz-me que me vou perder. Penso que o receio dele seria outro. Apesar de o Hotel estar situado na entrada do bairro espanhol, o meu guia (antigo, de 2003) assim como os comentários que li acerca do hotel, qualificam a área como sinistra. Sinistra como sinistra em português e não sinistra como esquerda em italiano, naturalmente. Respondo ao senhor que se me perder, me encontro. Pergunto a alguém e então ele sai para a rua e explica-me. A dritto, doppo a sinistra. Lá vou eu. Cruzo o bairro espanhol, contente como um miúdo, tiro muitas fotografias, passam lambretas e buzinam. Uns homens gritam Ciao! Concluo que devia ter a pele dois tons, pelo menos, acima, para passar por residente, mas nada destas coisas me demove de atravessar o Quartieri. [Read more…]

Cartoline (questa, musicale*) d’Italia (11) (da Napule)

Elisabete Figueiredo


‘Luntana a Napule nun se po’ sta!’**

Este postal deve ler-se ao som da música mas, sobretudo, das palavras, que são, elas mesmas, música. Mais que música. Uma carícia. Esqueçam tudo o que vos disse. O italiano não é a língua mais bela do mundo…
‘…o napulitan’ e’ a chiu bella lingua o munn’.***
Estou nnamurata di Napule. Bem o sabia mesmo antes de aqui chegar que ia acontecer. Apaixonar-me violentamente por tudo isto. [Read more…]

Cartoline d’Italia (10) (da Napoli)

Elisabete Figueiredo

A vit e’ nu’ muorz, viratenn bene!*

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Cheguei ao centro ‘della terra del mezzogiorno’. Da terra do meio-dia. Deixo Capri para trás, e o seu mar azul e as suas escarpas longas. Deixo o quartinho branco e o terraço de ver o pôr-do-sol e chego a Nápoles às três da tarde. O calor é insuportável. Assenta bem na terra do meio-dia, é verdade. O mesmo não pode dizer-se das ruas estreitíssimas onde o sol entra com muita dificuldade e onde se pode apanhar a roupa que o vizinho da frente deixou a secar, bastando estender o braço. Estou numa rua dessas e consigo ver perfeitamente a televisão dos vizinhos, tocar os lençóis de flores que têm a secar. Mas prefiro deixar tudo como está e sair do hotel. [Read more…]

Cartoline d’Italia (9) (da Capri)

 Elisabete Figueiredo

«Il pommeriggio è troppo azzurro e lungo per me»* (Paolo Conte)


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A poesia. Como se a paisagem não fosse suficiente para nos atingir no centro do coração, aí onde acontecem todas as coisas e, tantas vezes, o vazio.
De manhã, a minha manhã, um pouco mais cedo que a minha manhã costumeira resolvo ir ao farol, na Punta di Carena, do lado de Anacapri. Antes de ontem o senhor do hotel disse-me que era imperioso ir… ‘il posto più bello dal mondo’. Uma vez, numa dessas vezes em que o coração se concentra, alguém me disse ‘il tuo sorriso è come um faro sul mare’** e se houve um sítio onde isso poderia ser verdade, quero dizer, um sítio para além do coração, esse sítio será seguramente aqui. Então, não há razões para não ir ao farol, certificar-me que encontro o meu sorriso. Certificar-me que é o lugar mais bonito do mundo.
Caminho devagar desde o hotel até à praça da estação de autocarros. Sempre estão 40 graus, ou mais, e eu já feita água, caminho. Devagarinho. Apanho o autocarro. Um autocarro muito pequenino. Tem oito lugares sentados e talvez uns 10 ou 15 em pé. Este minúsculo autocarro avança então pela estrada do farol, curva e contra curva, e alcança-o. Ao farol. [Read more…]

Cartoline d’Italia (8) (da Capri)

Elisabete Figueiredo

«Una giornata al mare / tanto per non morire/ nelle ombre di un sogno / o forse di una fotografia lontani dal mare/ con solo un geranio e un balcone …»* (Paolo Conte)

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Um dia no mar, o bastante para não morrer na sombra de um sonho… pode dizer-se assim. O mar aqui é o mediterrâneo absurdamente azul que nas mil grutas formadas na rocha toma, por vezes a cor das esmeraldas. Ou de um sonho. É uma água quente, de muitas maneiras. Uma terra quente. 42 graus. Ouço dizer no autocarro e acredito. Encho-me de protetor 50+ mas escapam-me uns bocadinhos de pele nas costas que estão agora da cor das lagostas. Uns quadradinhos vermelhos, nas costas e no meio de dois deles o risco formado pelas alças da blusa a que o senhor do barco chamou ‘una bella gonnina bianca’. 

Somos talvez uns dez no barco que faz a volta completa da ilha, com paragem na Grotta Azurra. Do barco, vejo as atrações todas de Capri, a partir do mar. A Grotta Bianca, a Grotta Verde, os farilhões, a Marina Grande, a Marina Piccola, a Villa Jovis… as praias de cimento ou rochas. Não há praias de areia aqui. O terreno é rugoso, como a pronúncia napolitana. Rugosos e belos, ambos. No barco vai uma família mexicana, mãe e dois filhos. Outra família italiana. Um casal idoso, brasileiro. Um casal coreano, aparentemente muito jovem, uns três ou quatro ingleses, branquinhos como eu, embora sem quadradinhos vermelhos nas costas. [Read more…]

Cartoline d’Italia (6) (fra Firenze e Napoli)

Elisabete Figueiredo

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‘Napoli non sembra un bucco’.

 

Não sei bem de que mundo sou. O Alfredo Mendéz, no livro que acabei agora de ler, escrevia que ‘todo es real, pero nada es verdadero’. É possível que tenha tido razão.

Sobrevivi ao congresso, aos mosquitos e ao resto (talvez depois tenha de explicar isto). Arrasto de manhã a mala enorme pelo pedaço da Via Nazionale que me separa da estação de Santa Maria Novella, em Florença e espero pelo comboio que me levará a Nápoles. Enquanto fumo um cigarro à espera que no placard apareça o número da plataforma, um rapaz pergunta-me se vou para Pistoia. Que não, digo-lhe eu. É que está um quarto de hora atrasado, continua ele, em italiano, como se eu fosse italiana e quisesse dividir comigo a sua irritação. Digo-lhe que um quarto de hora não é nada. Responde-me que está muito calor na estação. É verdade, está. E acrescenta que quer ir depressa para Pistoia, que ‘Firenze è un bucco’. Concordo vagamente. Pergunta-me de onde sou e para onde vou e eu digo-lhe. Parece ficar contente e diz-me que em Capri não estará tanto calor porque há o mar. Rio-me. E pergunto ‘Capri non è un bucco?’ Ri-se também ele. Entretanto anunciam a minha plataforma e eu despeço-me. Ele diz-me ‘buona fortuna’. Respondo-lhe o mesmo.

A viagem faz-se sem sobressaltos. O comboio pára 10 minutos em Roma onde eu e outros passageiros fumamos um cigarro retemperador. Uma hora depois, chegamos a Nápoles. Alguém solicitamente me tira a mala do comboio, falando num napolitano cerrado que sou incapaz de compreender. Naturalmente, digo ‘grazie mille, lei è molto gentile’ no meu italiano desengonçado e saio para os 39 graus. ‘Napoli non sembra un bucco’.

Cartoline d’Italia (7) (fra Napoli e Capri)

Elisabete Figueiredo

Tudo é real, nada é verdadeiro.

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São três da tarde e, à parte o pequeno-almoço e duas garrafas de água, não tomei mais nada. Pelo que decido comer qualquer coisa, no café da estação antes de decidir como vou para o Molo Beverello apanhar o ferry para Capri. Percebi tarde demais que não tinha procurado saber se haveria autocarros da estação ao porto. Mas entro no café e vejo os gelados. Decido comer três bolas de gelado e mais água. Peço. Pago. Escolho ‘cioccolato, fragola e limone’. Começo a comer antes que derreta. É muito bom, penso. Um homem ao balcão vira-se para mim e queixa-se que o pessoal ali é muito lento. Digo-lhe que tenha paciência: ‘cosa fare?’. Encolhe os ombros e espera. Continuo a comer e a achar que nunca comi um gelado tão bom.

Uma criança do outro lado do vidro olha para mim com uns olhos enormes, verdadeiros e pede-me (percebo pelo movimento dos lábios e das mãos) que lhe compre um gelado. Penso dizer-lhe que não. Mas não sou capaz, principalmente porque aparece um polícia que expulsa a miúda dali e aqueles olhos enormes, cheios de não sei que realidade, ou de que verdade, merecem aquele gelado tanto como eu. Mais ainda, seguramente. Chego à porta e pergunto à menina que sabores quer. Diz chocolate e aquela coisa branca com pedaços de (mais chocolate) (stracciatella? Pergunto. Que sim, responde). Vou de novo à caixa. Pago o gelado, dão-me um copo e eu saio, com a mala gigantesca e o copo de gelado e estendo-o à criança. Agradece-me. Digo-lhe que de nada e adeus. Sorri-me. Acho que ficou contente. Fico contente também eu, mas penso que ontem jantei num absurdo palácio, num palácio ridículo, num palácio onde nunca entraria em nenhuma outra circunstância. Num ostensivamente ridículo palácio, com gente bem vestida e bem nutrida a beber vinho e a comer coisas ‘em cama de…’ e comovo-me com a miúda e digo a mim mesma que foi a última vez que entrei em palácios palermas, para comer jantares pomposos.  [Read more…]

Cartoline d’Italia (5) (da Firenze)

Elisabete Figueiredo

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Esta é uma fotografia de uma fotografia. Parece que agora nos congressos se tiram fotografias, como nos casamentos. Esta esteve em exposição desde manhã, de modo que ao longo do dia, em várias línguas, me foram perguntando: ‘já viste a tua fotografia?’

(whatever)

acabaram por me dar uma cópia. é justo.
Outra coisa bonita foi que em conversa com um grego, ele me estendeu a mão, como um jogador de basquete depois de encestar e exclamou: ‘so, we are comrades!?!‘.

Somos camaradas, pois. No caso concreto, com bastante orgulho.
E mais que isto, só o facto de finalmente a ESRS* ter uma presidência do sul da Europa! E de, à conta disso, termos feito mais um jantar de PIGS. Nunca são demais e esta gente, presidente da ESRS incluído, é de facto boa gente. Já o sabíamos, claro.

Buona notte compagni!

Cartoline d’Italia (4) (da Firenze)

Elisabete Figueiredo

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Prima di tutto il cuore. Dentro di tutto il cuore*.

Buona notte compagni!
 
*Em primeiro lugar o coração. Dentro de tudo o coração.

Cartoline d’Italia (3) (da Firenze) – A Ponte Vecchio, o pôr-do-sol, os príncipes

Elisabete Figueiredo

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Regressa-se sempre à Ponte Vecchio quando se está em Florença. Bem sei que te contaram estórias sobre o pôr-do-sol e os príncipes. Tenho de te dizer que apenas o pôr-do-sol existe e, mesmo assim, nunca tive exatamente a certeza de que exista, porque é demasiado. Os príncipes ao que julgo saber não existem em nenhuma parte. Já nem sequer nos filmes de que gosto ou nos livros que leio. Talvez gostes de outros. É difícil saber e talvez não me esforce o suficiente. Porque entre tu e eu existem muitas coisas e é difícil saber e querer saber e eu penso que na maior parte das vezes não tenho qualquer desejo de saber. Mas dizia(te) que não existem príncipes em parte nenhuma e que a probabilidade que o(s) encontres na Ponte Vecchio é idêntica à probabilidade de que o(s) encontres em qualquer outro sítio. Quero dizer, nenhuma. Lamento desapontar-te. Ou que seja a própria realidade a desapontar-te. Bem sei que a ti – como a mim – te contaram, provavelmente desde sempre, sobre os príncipes e as princesas e os finais sempre felizes para sempre. Que te contaram desde pequena que para seres uma mulher inteira terias sempre de encontrar um príncipe – ou mais, já que os tempos, apesar de tudo, mudam – lamento desapontar-te. Existe a ponte, está ali e até já a atravessamos juntas. Existe o rio Arno, está ali, a ponte cruza-o. Existe o pôr-do-sol e já o vimos ambas desde a ponte. Existem outras coisas que partilhámos e não quero já saber. Existem homens e mulheres, pessoas, gente. E não existe mais nada. O resto está escrito naqueles livros que nunca li e nos filmes que vejo, às vezes, e me irritam profundamente, sempre. Não há outra felicidade que a de aprender a estar só connosco mesmos. Ser suficiente. Ser inteira. Sem príncipes, nem finais felizes.

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Cartoline d’Italia (2) (da Firenze) – ‘Los belloteros unidos jamás seran vencidos!’

Elisabete Figueiredo

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(Dos PIGS, slogan tantas vezes repetido hoje entre uma cerveja e outra, em memória do congresso de Lisboa, o ano passado. O ano passado cantámos a Grândola no jantar do congresso… este ano acho que vamos cantar o Bella Ciao… uma coisa é certa, os PIGS são gente mais interessante que a outra gente e o I ali no meio stands for Italy, not for Ireland)

Cartoline d’Italia (1) (da Firenze) – Un luogo troppo strano*

Elisabete Figueiredo

Cartolina 1A

gostava de dizer que não é estranho. na verdade, talvez não seja. mas parece. vens a um lugar onde estiveste já tantas vezes. onde repetes algumas fotos ou, mesmo, todas. onde falas uma língua que amas tanto (talvez mais) que a tua própria. vens a um lugar que é, fora do teu país, aquele onde estiveste mais vezes. com um calor abrasador. com um frio cortante. com demasiada chuva. com neve como raramente viste. um lugar que te é demasiado familiar. onde já tiveste a ‘tua’ lavandaria, a ‘tua’ trattoria, o ‘teu’ café, as ‘tuas’ casas e, até, o ‘teu’ coração. vens a este lugar e gostavas de dizer que não é estranho… (se leste Vila-Matas, sei que me compreendes bem). [Read more…]