O Rico Português, Tese de um Par de Linhas

Toda a minha vida observei indirectamente o que é um português rico. Não vou revelar a fonte raivosa, legitimamente raivosa, da informação. Apenas desejo pincelar alguns traços distintivos que tornam o nosso rico um tipo muito pouco recomendável, um indigente moral, alguém digno de nojo, apesar da roupa usada que dá para a caridade e das esmolas que deposita com fastio nalguma causa, contra o cancro por exemplo, o que é quase nada.

O que é um português rico? Um zero social. Lucra pessoalmente dois ou três milhões por ano? Atira todas as despesas pessoais para a empresa, contorna o Fisco com mestria, especializou-se em fazer dinheiro, e faz efectivamente muito dinheiro, com a mesma naturalidade mecânica tipo lei físico-química, lei gravitacional, com que nos vemos privados, melhor, surripiados dele, pelo contexto global e pela política, para suprir o básico: não há nem cristianismo social nem filantropia britânica no português rico: trata-se de uma ilha desumanista e associal que não tem em vista, nunca teve, jamais terá, criar postos de trabalho e por vários modos fazer a diferença na sociedade, mas somente explorar oportunidades de lucro com o máximo de automatismos robóticos possíveis, sem gente a atrapalhar. Tipicamente! [Read more…]

Tempo de minhocas e de filhos de meretriz

“O dia deu em chuvoso”, escreveu Álvaro de Campos. Num tempo soturno, melancólico, deprimente. “Tempo de solidão e de incerteza / Tempo de medo e tempo de traição / Tempo de injustiça e de vileza / Tempo de negação”, diria Sophia de Mello Breyner. Tempo de minhocas e de filhos da puta, digo eu. Entendendo-se a expressão como uma metáfora grosseira utilizada no sentido de maldizer alguém ou alguma coisa, acepção veiculada pelo Dicionário da Academia e assente na jurisprudência emanada dos meritíssimos juízes desembargadores do Supremo Tribunal da Justiça. Um reino de filhos da puta é assim uma excelente metáfora de um país chamado Portugal. Que remunera vitaliciamente uma “sinistra matilha” de ex-políticos, quando tudo ou quase tudo à nossa volta se desagrega a caminho de uma miséria colectiva irreversível.

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