Tempo de minhocas e de filhos de meretriz

“O dia deu em chuvoso”, escreveu Álvaro de Campos. Num tempo soturno, melancólico, deprimente. “Tempo de solidão e de incerteza / Tempo de medo e tempo de traição / Tempo de injustiça e de vileza / Tempo de negação”, diria Sophia de Mello Breyner. Tempo de minhocas e de filhos da puta, digo eu. Entendendo-se a expressão como uma metáfora grosseira utilizada no sentido de maldizer alguém ou alguma coisa, acepção veiculada pelo Dicionário da Academia e assente na jurisprudência emanada dos meritíssimos juízes desembargadores do Supremo Tribunal da Justiça. Um reino de filhos da puta é assim uma excelente metáfora de um país chamado Portugal. Que remunera vitaliciamente uma “sinistra matilha” de ex-políticos, quando tudo ou quase tudo à nossa volta se desagrega a caminho de uma miséria colectiva irreversível.

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Será Que Querem Que As Empresas Fechem?

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FOMENTA-SE MAIS DESEMPREGO?

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Segundo a notícia dos jornais, uma das empresas do sr Godinho, ganhou mais um concurso.

Segundo os mesmos jornais, até parece que a dita empresa, a O2, nem deveria concorrer, ou concorrendo, não deveria ganhar.

Que querem estes senhores? Que pelo facto de o gestor da empresa estar com processos em tribunal, e indiciado pela prática de crimes, a empresa feche? E quem lá trabalha, não importa o que lhes acontece?

Será que já não há mais limites ao que se deixa entreler nas notícias?

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A Amélia das Sucatas

trash

Imagem KAOS

 

As taxas de combustível estão altíssimas e isso torna as Maldivas muito longínquas, e já está toda a gente a pensar para que é que as Maldivas são chamadas para aqui, mas isso ainda é segredo: posso adiantar que estando muito perto do nível do mar, a erosão salina faz desaparecer a sucata muito depressa, por aquelas paragens, ao contrário de cá, em que se enrolam em trapos pretos, e vão viver para umas terras de nomes horríveis, na Beira, e ficam com a sucata toda lá por baixo, enfim, supõe-se que seja por isso que os garanhões da pastorícia — ainda há pastores — prefiram as ovelhas, a terem de comer a avó do melhor amigo…

Tirando esta introdução, muito metafísica, como viram, vou já falar do tema do dia, que é quando a gente pensa que já chegou à última cave, a Nação tem sempre uma surpresa, e lá levanta mais um alçapão, e mostra-nos uma subcave, bafienta, e ainda mais deprimente, que, afinal, nos rege na sombra.

Antigamente, no tempo em que o António Variações fazia de Cesévora Ávida, e nada lhe escapava, nem na goela, nem na cloaca, o rés do chão era a corrupção do Futebol, mas o avião fez-se um pouco mais à pista, e descobrimos que, por detrás do Futebol se escondia o nível inferior, dos Construtores Civis, e eu pensei, "pronto, chegámos às bases…", mas a verdade é que as bases ainda não eram essas, e ainda havia as rainhas, as princesas e as camareiras da sucata, uma espécie de discretas vascas francas, que saltavam à vara por cima de uns godinhos que só deus sabe em que ferrugem habitavam.

É deprimente saber que, enquanto a Rússia tem o Kremlin, os States, a Casa Bran… perdão, Preta, a França, o Eliseu, o País é governado a partir de uma sucateira, e, portanto, qualquer Plano Tecnológico, qualquer Plano Nacional de Leitura, ou qualquer Plano de Ação da Matemática estão, não só cronológica, como espacialmente desfasados da Realidade, como, aliás, todos pressentimos, embora nos choque ver a confirmação.

Eu até aqui estaria descansado, mas deixo de estar descansado, quando penso, por analogia, que, se já ontem o último patamar foi vencido por um mais baixo, também amanhã aparecerá qualquer coisa ainda mais subterrânea, que fará parecer a Sucata um Belvedere, ou "un Petit Trianon".

Tudo o resto que vou escrever é pura imaginação, mas suponho que, por detrás dos sucateiros, amanhã, se descobrirá que quem realmente governa este país sejam aquelas velhinhas dos sacos, recoletoras do lixo, que entornam os caixotes verdes no passeio, para grande desgosto do António Costa e alegria dos cães e gatos famintos, que têm bigode, dizem palavrões rosnados, e nos ameaçam com a bengala, mas que, em contrapatida, naquelas sacolas, amarradas com cordéis sujos, transportam segredos, matéria cifrada, e o registo de fluxos financeiros importantíssimos. No fundo, só a nossa desatenção não o permitiu ainda descobrir: basta olhar para a corcunda de cada uma dessas sombrias criaturas, e para o disfarce perfeito de… sei lá… de pobres, sim, de pobres, que elas põem, para se ver que, na verdade, são realmente poderosas.

Isto não sou eu a delirar: mal a gente vira as costas, elas tiram dos bolsos telemóveis caríssimos, de platina, e ligam para o Obama, tratam-no por tu, com vozes de Maria João Avillez, exercem pressões e chantagens no Héron-Castilho, e ditam todas as oscilações do preço do Petróleo e do Plutónio, no Golfo Pérsico. É por isso que eu adoro viver no Umbigo do Mundo, e me sinto todos os dias importante, e cada vez mais  seguro, e espero que vocês também.

 

 

(Hexagrama do latão do lixo, no "Aventar", no "Arrebenta-SOL", no "A Sinistra Ministra", no "Democracia em Portugal", no "KLANDESTINO", e em "The Braganza Mothers")