A grande balbúrdia a que chamam inclusão

Santana Castilho*

No início deste ano lectivo, ecoam os violinos líricos da inclusão, das metodologias diferenciadas e da flexibilidade a galope. Porém, para a geração dos “professores do século XIX”, sarcasticamente ferrados de “mortos” pelo iminente pedagogo da Escola da Ponte, tudo fede a coisa já vista (área-escola, área de projecto, gestão flexível do currículo e projectos curriculares de turma) e falhada. As aulas expositivas, proscritas pela modernidade bacoca de João Costa e dos seus prosélitos, estão longe de ser recurso único da geração mais velha dos professores portugueses. Quem guarde memória de tempos menos frenéticos, viu-os sempre empenhados em actividades transdisciplinares, mobilizadoras de saberes diversos e geradoras de inovação. Fossem eles simplesmente “passadistas”, como se teria chegado à era digital? Quem os pretende domesticar hoje com algoritmos pedagógicos toscos e absurdas flexibilidades, deveria considerar esta perspectiva. [Read more…]

Ainda me lembro da PàF em campanha na Cercica. Foi há um mês.

Alunos sem apoio e pais com medo de falar. Associação Portuguesa de Deficientes descreve “cenário bastante grave”. (Foto: Lusa)

Educação Especial: 5 760 professores para 78 763 alunos

Nos últimos anos, o governo tem apontado a baixa da natalidade e a diminuição do número de alunos como razões para o despedimento de cerca de 40000 professores nos últimos quatro anos. Mesmo sabendo que as verdadeiras razões são outras, note-se, ainda assim, a contradição: o número de alunos com necessidades educativas especiais aumentou (mais 70% do que em 2011), enquanto o número de professores da área se manteve o mesmo.

Ainda assim, porque há gente para tudo, poder-se-ia pensar que o número de professores seria suficiente para cobrir as necessidades. A reportagem do Jornal de Notícias de ontem, contudo, mostra que há alunos que, graças à falta de recursos humanos, só têm direito a meia hora de apoio por semana, o que pode ter efeitos devastadores e irremediáveis na recuperação/evolução dos alunos em causa. Nada de novo: temos um governo que não cumpre o dever de contribuir para que os cidadãos mais frágeis sejam ajudados, preferindo a lei da selva à mais elementar humanidade.

Vivemos num mundo em que se exibem números. Juntem-se, então, mais alguns e repitam-se outros: em Portugal, no século XXI, em quarenta anos de democracia, há 5760 professores para 78763 alunos com necessidades educativas especiais, o que leva a que alguns destes tenham apenas meia hora de apoio por semana.

A irresistível atracção pelos números das pessoas que não gostam de pessoas

Michelangelo Buonarrote_O tormento de S Antão  1489

As pessoas que não gostam de pessoas outrora adoravam o deserto, compraziam-se com  outros animais, eremitavam e alguns tinham a Deus e rezavam-lhe; hoje preferem os números, ajoelham-se no Excel e, gente dada à prestidigitação, divertem-se na acrobacia de uma tabela com mortal encarpado à retaguarda de um gráfico. Tenho por eles uma sedução próxima da que Herberto Helder manifestou pelos poliglotas tradutores de poesia, incapazes do parir de um verso mas infatigáveis no afã de o traduzir.

Se ando saudoso deles é certo e sabido que vou ao ermitério do costume, o Blasfémias, visitar o Vítor Cunha a quem aguarda nas hagiografias uma página próxima de um S. Antão. E que vejo desta vez? um quadro publicado pelo Paulo Guinote com dados sobre alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE). E que visão teve e atormenta S. Cunha? a de que misteriosamente estes se reduzem entre o básico e o secundário, o que só pode. diz ele, ter duas explicações:

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Desumanizar a Escola: os exames dos alunos com Necessidades Educativas Especiais

O projecto Desumanizar a Escola prossegue a todo o vapor. Numa confirmação de que só mudam as moscas, o Ministério da Educação, respeitando o ADN socrático-passista, voltou a tomar medidas com base em dois critérios fundamentais: alteração das regras a meio do jogo e falta de respeito pelos alunos e encarregados de educação.

Quando já estão decorridos dois terços do ano lectivo, fica-se a saber que os alunos com necessidades educativas especiais não terão direito a fazer exames adaptados às deficiências que possuem, sendo obrigados, no 6º ano, a realizar as mesmas provas, apesar de terem tido um currículo diferente e de estarem a contar, desde o início do ano, com o já referido exame adaptado.

Nada de novo: o nacional-caceteteirismo que nos governa há alguns anos, seguindo a ideologia antipieguista primária, não quer saber das especificidades dos cidadãos, sobretudo se tiverem problemas acrescidos.

O Ensino Especial tem sido progressivamente sujeito a um esvaziamento desumano, porque, para os economizadores com pasta ministerial, só interessa poupar dinheiro e não gastar em solidariedade. É preciso juntar para o BPN ou para pagar aos gestores sérios e competentes.

A propósito deste tema, leia-se este testemunho sentido.