A irresistível atracção pelos números das pessoas que não gostam de pessoas

Michelangelo Buonarrote_O tormento de S Antão  1489

As pessoas que não gostam de pessoas outrora adoravam o deserto, compraziam-se com  outros animais, eremitavam e alguns tinham a Deus e rezavam-lhe; hoje preferem os números, ajoelham-se no Excel e, gente dada à prestidigitação, divertem-se na acrobacia de uma tabela com mortal encarpado à retaguarda de um gráfico. Tenho por eles uma sedução próxima da que Herberto Helder manifestou pelos poliglotas tradutores de poesia, incapazes do parir de um verso mas infatigáveis no afã de o traduzir.

Se ando saudoso deles é certo e sabido que vou ao ermitério do costume, o Blasfémias, visitar o Vítor Cunha a quem aguarda nas hagiografias uma página próxima de um S. Antão. E que vejo desta vez? um quadro publicado pelo Paulo Guinote com dados sobre alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE). E que visão teve e atormenta S. Cunha? a de que misteriosamente estes se reduzem entre o básico e o secundário, o que só pode. diz ele, ter duas explicações:

  • ou o sistema é tão tão tão bom, que faz com que as necessidades educativas especiais desapareçam mal se termina o 9º ano ou;

  • o sistema é tão tão tão mau que não consegue fazer com que alunos com necessidades educativas especiais consigam chegar a frequentar o ensino secundário.

Referindo-se a dita tabela a um tempo em que o secundário não era obrigatório, e sendo-o agora só até aos 18 anos, as pessoas que gostam de pessoas, e já agora que sabem distinguir um aluno com NEE de um número, teriam raciocínios simples: quando completam o 9º ano quantos desses alunos não coleccionaram já  repetências? que idade têm? e fizerem-no por múltiplas razões, daquelas práticas que qualquer professor conhece: falta de psicólogos e professores do ensino especial, provocando por exemplo atrasos irremediáveis no diagnóstico, sucessivas políticas de poupança que retiraram por exemplo as horas de redução lectiva que cada professor tinha e fazem da constituição de uma turma com menos de 21 alunos um calvário para qualquer dirigente escolar, ou muito simplesmente porque, outro exemplo, a escola inclusiva é para eles apenas o direito à vida social mínima, toda a gente o sabe e aceita.

Mas não, e logo nos comentários um João Miranda garante:

Isto é um indício claro de abuso da classificação de NEE para alunos que a única característica especial que têm é reprovarem nas provas de avaliação.

não vá perder o seu lugar de mais santo eremita que todos os eremitas santos e mesmo Mário Amorim Lopes, entretido em assegurar que nem com os números atina,  consegue, naquilo que estava em discussão, este constatar:

90% das escolas em Portugal são públicas e 10% são privadas. (…) podemos inferir que 90% dos alunos estão no ensino público e 10% no privado (e é assim, de facto). Ora, se assim o é, é absolutamente normal que nas necessidades educativas especiais a tendência convirja (sic) para a média.

Sendo que, azar dos Távoras, no ensino básico apenas 4,6% dos alunos com NEE estão em escolas privadas e no ensino secundário apenas 5,2% e, acrescente-se, a estatística engana mas o algodão esclarece quando passamos das escolas com verdadeiros contratos de associação para as dos contratos ilegais.

Nisto de NEE tenho uma história, uns gostam de números eu gosto de histórias, velhinha e ocorrida em Penela, na altura a menos de 30 km de Coimbra mas perdida no tempo da outra senhora, e onde vários dos lugares que se cansaram de subir na encosta da serra ainda tão bem retratavam o Portugal que ficou da emigração dos anos 60.

A Maria, vai-se chamar Maria, era uma invisual que estacionara no 8º ano. Não se percebia lá muito bem porquê, mas dali não fazia esforço nenhum para sair. Calhou-me conhecê-la no ano em que o professor do ensino especial, na altura mais voluntarismo que formação e a quem competia assegurar-nos que os testes eram transcritos para braille e muitas vezes mais não faziam até porque mais não sabiam, decidiu investigar. A Maria vivia numa dessas aldeias que nem eram aldeias, sozinha com uma avó, pai embarcadiço, mãe algures por aí. E a vida da Maria dividia-se entre a escola, onde sempre ouvia os colegas, e ficar sentada na cozinha a ler as chamas de uma lareira.

O tal professor, especialista improvisado mas quem corre por gosto não se cansa, percebeu, pegou na Maria e trouxe-a a Coimbra, levou-a à secundária que se especializara no apoio a invisuais, apresentou-a a colegas que andavam no 10º e 11º, garantiu-lhe que 9º ano feito haveria para ela lugar num lar, e as novas amigas estariam à sua espera.

Milagre, dissemos nós quando subitamente a Maria subiu nos testes, perdeu a timidez na oralidade, desembrulhou o saber que lá tinha guardado e foi um ver se te avias de notas em subida crescente, mas não era milagre, apenas um professor que tinha rompido as correntes que ligavam a Maria à sua C+S que era o único e periclitante mundo que até aí tivera.

Remetida a Maria a um número, para nada interessa. Perdi-lhe o rasto, não sei se o sistema que não funcionava sempre funcionou, mas sei que com as pessoas não se brinca, sobretudo com aquelas que sendo diferentes já estão amarradas às armadilhas da selva.

Indivíduos fracos estão condenados na nova ordem social dos números, do deus mercado, da liberdade consagrada no sagrado direito a desprezar o próximo, justificam que os cortes em todos os apoios que tinham vão caindo a galope, abismo abaixo, é esse o destino que lhes está traçado, e é melhor nem pensar nos custos para o estado que pode ter tido a Maria, se efectivamente veio estudar para Coimbra e acabou o secundário com despesas para todos nós.

mae filha deficienteTal como a mãe Ofélia que passeia a filha Patrícia no carro de rodas 10km de estrada para a levar  ao médico, que no fundo sempre faz exercício, e assim não engorda, pensarão os burocratas do caso, no fundo, no fundo os deficientes estão para lá dos reformados, gente improdutiva, volta eugenia, cambada de malandros que desaparecem entre o 9º e o 10º ano, não me recordo agora do nome mas houve um tipo de bigode que lhes tratou da calandrice, cáfila de abaixadores da produtividade, enfim, o mercado tratará do assunto, a ver se com o ensino privado a funcionar não desaparece metade num instante.

Ilustração: Michelangelo Buonarrote, O Tormento de S. Antão,  1487-88

Comments


  1. Gastaste muito tempo com o cunha. O tipo é tão burro e tem tanta má fé que dá dó.


  2. Deus vai ser insurgir contra ti, blasfemo!!! 🙂


  3. O caso da Maria apresenta a outra razão que me pareceria importante: os alunos com necessidades especiais são descobertos mais facilmente no ensino básico que noutros graus e, posteriormente, em alguns casos, conseguem recuperar e são enquadrados no ensino regular. Ou seja, os alunos estão sobre-representados no ensino básico precisamente porque é nessa altura que os problemas são descobertos e podem ser corrigidos.

    Dou um outro exemplo (holandês): um antigo colega meu tinha dificuldades de aprendizagem na escola primária. Foram detectadas e ele passou algum tempo a receber apoio especial. Não ajudava muito. Descobriu-se depois que ele tinha problemas de visão (de forma desigual: pouco num olho e muito noutro) e dislexia. Uma vez tratado um problema e criadas condições para o outro, ele deixou de precisar de ajuda no ensino secundário. Terminou os estudos secundários, os universitários e fez doutoramento. É hoje professor associado numa universidade holandesa. As necessidades especiais foram detectadas, aplicadas ao caso, corrigiram o problema e ele deixou de necessitar delas. Mais um caso de como o ensino básico fica sobre-representado nestes gráficos simplistas onde cada aluno não é um caso mas um número na tabela dos Cunhas deste mundo.


  4. Reblogged this on Azipod.

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