Lemos, ouvimos e vemos

Ana Cristina Pereira Leonardo

 

O capitalismo é como aquelas pessoas a quem emprestamos um dedo e, dois dias não são passados, nos querem levar os membros. A frase não é do velho Marx, nem sequer de Žižek: é minha. E em época tão dada à arrogância da humildade opinativa, digo-o sem falsa modéstia. Porque o caso é este, ao debate de ideias opõe-se hoje uma batalha de opiniões: «Eu acho isto, tu achas aquilo. Eu tenho direito a achar isto, tu tens direito a achar aquilo. Eu estou certo em achar isto e tu és uma besta em achar aquilo» – como se ao criticismo kantiano acrescesse, vá lá, uma espécie de democratização do insulto e do disparate. São tempos palavrosos, pois, em que o império das imagens (cf. o fenómeno narcísico das selfies) não correspondeu ao colapso anunciado das palavras: à imagem de Trump como palhaço de cabeleira bizarra seguiu-se a presidência dos EUA por via de meia dúzia de frases feitas e curtas (não será por acaso que não larga o Twitter).

Quem fala de Trump, fala de capitalismo, pelo que não me desvio do assunto. E o assunto é este: são OITO. Contas feitas, oito multimilionários detêm riqueza idêntica à miséria somada de cerca de metade da população mais pobre da Terra: 3,6 mil milhões de pessoas. [Read more…]

Manuel António Pina

Esta noite vale a pena ligar a televisão.

O Tesouro de Manuel António Pina

25 de abril sempre e, por estes dias, mais que nunca!

Não é o fim nem o princípio do mundo

Passaram três meses e o Manuel António Pina já nos fez falta muitas vezes. Já não me acontece pegar no JN e virá-lo para começar pela última página, mas andei semanas a fazê-lo. Imagino que não fui a única. Depois chega uma manhã em que nos lembramos e o jornal fica intocado sobre a mesa. Resignamo-nos às ausências. Se todos os grandes poetas fazem falta, o MAP cronista não o faz menos. Ele sabia que tudo é política e não voltava às costas a nenhum tema. Foi um crítico mordaz e lúcido deste e de outros governos, escreveu sobre economia, direitos sociais, educação, desemprego, crise, desigualdade. E quando lhe apetecia, enxotava a política para fora da sala, e sentava-nos ao lado dele para contar-nos coisas que realmente importam, como a notícia de que haviam nascido três melros na trepadeira do muro do seu quintal.  [Read more…]

Feliz Natal e um fantástico 2013

O Aventar, com quem escreve, com quem comenta, com quem aparece para ler foi parte de mim no último ano.2feliznataljp

A Todas e a Todos desejo um fantástico Natal e um 2013 cheio de coisas boas!

À falta de competência para escrever mais e melhor deixo nas palavras de Manuel António Pina o que vos quero dizer.

Obrigado por estarem por aqui!

A canção dos adultos

Parece que crescemos mas não.
Somos sempre do mesmo tamanho.
As coisas que à volta estão
é que mudam de tamanho.

Parece que crescemos mas não crescemos.
São as coisas grandes que há,
o amor que há, a alegria que há,
que estão a ficar mais pequenos.

Ficam de nós tão distantes
que às vezes já mal os vemos.
Por isso parece que crescemos
e que somos maiores que dantes.

Mas somos sempre como dantes.
Talvez até mais pequenos
quando o amor e o resto estão tão distantes
que nem vemos como estão distantes.
Então julgamos que somos grandes.

E já nem isso compreendemos.

Virtuais e reais

Foram anos a abrir todas as manhãs o Jornal de Notícias on line para ler a crónica de Manuel António Pina. Era um prazer imenso aquela prosa enxuta, aquele estilo directo, aquela cultura e carácter enroupados de ironia.  Era um conforto de alma ver que, neste naufrágio em que tantos se têm perdido, o Pina era como um farol de coerência, de coragem, de desassombro na luta pela Pátria.Estava do lado certo na batalha e combatia o bom combate. De súbito, no verão, as crónicas do Pina deixaram de aparecer. E eu, cheia de pena, mas a pensar que era tempo de férias, que o Pina bem as merecia. Chegou Outubro e a morte do Manuel António Pina fez a primeira página de todos os jornais. Foi um choque e uma desolação. Nunca vi o Pina, nunca nos falámos, estou certa que ele nem sabia da minha existência, mas para mim era uma pessoa em quem acreditava, que estimava. Um amigo virtual, mas um amigo.

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“O Medo”, por Manuel António Pina

O Medo

Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?

Manuel António Pina, “Nenhum sítio”

E os gatos

Aqui mais ninguém opina


«Chegou a hora de nos despedirmos do Manuel António Pina.
A dor é sempre grande quando morre alguém que brilha no nosso céu.
O Pina era a mente mais brilhante que escrevia nas páginas do Jornal de Notícias.
Enquanto eu tiver a honra de dirigir este jornal, ninguém mais escreverá opinião neste espaço que era dele mas que ele fazia questão que fosse sempre tão nosso.
Obrigado, Pina.

Manuel Tavares»
(última página do JN de 20-10-12)

A resposta que nunca lhe dei, professor


Foi o Eduardo que me deu a notícia: Morreu o Manuel António Pina, o nosso velho professor de Jornalismo do Garcia de Orta.
Como o tempo passa… Foi em 1986/1987, no mesmo ano em que o Porto ganhou a Taça dos Campeões Europeus em Viena. Ele, que na altura era um repórter do «Jornal de Notícias», usava frequentemente o futebol como exemplo das matérias que transmitia. Devo-lhe tudo o que sei hoje em dia sobre Jornalismo.
Nos anos seguintes, fui encontrando o meu velho professor por aqui e por ali. Confirmando ser dono de uma excelente memória visual, conhecia-me sempre e cumprimentava-me afavelmente. Como numa conferência no Largo de S. Domingos, talvez em meados dos anos 90, em que mais uma vez foi falar de Comunicação Social.
Mais recentemente, voltámos a cruzar-nos por diversas vezes, agora por causa dos animais e da Associação MIDAS, que ambos ajudávamos como voluntários. Lembro-me como se fosse hoje de uma Tertúlia na Associação dos Deficientes das Forças Armadas, em que discorreu sobre a sua relação com os animais e em especial com os seus gatos. Seus não, que não lhe pertenciam, apenas andavam lá por casa. [Read more…]

O leitor do Aventar morreu

Perdemos Manuel António Pina.

O nosso leitor.

Entrevista com Manuel António Pina

Entrevista a Manuel António Pina, produzida pela Página Literária do Porto e disponível integralmente na net. Uma visão diferente de um dos maiores portugueses da actualidade no dia do seu desaparecimento.

Morreu o Manuel António Pina

Caramba…

O que se escreve nestas alturas? Lembra-se o Homem, o escritor, o criativo, o cidadão.

A primeira coisa que me ocorreu foi um dos últimos trabalhos que fiz com os meus alunos em torno do livro “O tesouro.”

Estamos de volta ao país das pessoas tristes, hoje ainda mais triste pela partida do Pina.

«Ler é sexy»

Este é o nome dado a uma iniciativa do Bairro dos Livros que decorreu no passado dia 12 de Maio. Os livros “considerados sexy” tiveram desconto, segundo consta.

Os promotores da iniciativa, procurando captar leitores, juntaram o adjetivo «sexy» a uma ação que não dá prazer à maioria das pessoas…

Lembrei-me desta iniciativa a propósito da crónica de Manuel António Pina publicada ontem na revista Notícias Magazine. O escritor escreve a certa altura:

Ler é um acto de amor. Se o leitor não for um amante, se o escritor for um proxeneta, os livros entregar-se-ão sem paixão e sem ternura (…). Um dos piores crimes praticados contra os livros é obrigarmo-nos a lê-los. (…) devorar livros sem gostar de literatura nem de livros (…) imagino-os, pobres livros!, transidos e inseguros, desnudados sem pudor por mãos cobiçosas e incapazes de medo ou enternecimento diante do rumor das palavras). [Read more…]

Contar Abril

É também viver Abril.

 

O Tesouro” de Manuel António Pina é uma das melhores formas de levar Abril aos mais pequenos.

“Nem sequer podiam beber Coca-Cola, porque a Coca-Cola também era (ninguém sabia porquê) proibida!”

Passos Coelho, o quinto gato fedorento

“Nestes nove meses, nós no Governo temos cumprido aquilo que prometemos”

E a dívida alemã?

Manuel António Pina, hoje no JN

Gostaria de ver os arautos dos “mercados” que moralizam que “as dívidas são para pagar” (no caso da Grécia, com a perda da própria soberania) moralizarem igualmente acerca do pagamento da dívida de 7,1 mil milhões de dólares que, a título de reparações de guerra, a Alemanha foi condenada a pagar à Grécia na Conferência de Paris de 1946.

Segundo cálculos divulgados pelo jornal económico francês “Les Echos”, a Alemanha deverá à Grécia em resultado de obrigações decorrentes da brutal ocupação do país na II Guerra Mundial 575 mil milhões de euros a valores actuais (a dívida grega aos “mercados”, entre os quais avultam gestoras de activos, fundos soberanos, banco central e bancos comerciais alemães, é de 350 mil milhões).

A Grécia tem inutilmente tentado cobrar essa dívida desde o fim da II Guerra. Fê-lo em 1945, 1946, 1947, 1964, 1965, 1966, 1974, 1987 e, após a reunificação, em 1995. Ao contrário de outros países do Eixo, a Alemanha nunca pagou. Estes dados e outros, amplamente documentados, constam de uma petição em curso na Net (http://aventar.eu/2011/12/08/peticao-sobre-a-divida-da-alemanha-a-grecia-em-reparacao-pela-invasao-na-ii-guerra-mundial) reclamando o pagamento da dívida alemã à Grécia.

Talvez seja a altura de a Grécia exigir que um comissário grego assuma a soberania orçamental alemã de modo a que a Alemanha dê, como a sra. Merkel exige à Grécia, “prioridade absoluta ao pagamento da dívida”.

Manuel António Pina sobre as «Novas Oportunidades»

O António Almeida relembrou um post antigo que escrevi sobre as Novas Oportunidades. Um post que se baseava num caso concreto, o do atleta Pedro Póvoa, e que transcrevia parte de uma crónica de Manuel António Pina sobre o assunto.
Porque o tema é muito actual, fui procurar e encontrei o resto da crónica do novo Prémio Camões, publicada em Dezembro de 2008 no JN. Todo o texto, como sempre, é muito bom, mas o final é delicioso.

A propósito do generalizado tratamento de “doutor” em Coimbra, contava-se a história de um barbeiro que, enquanto escanhoava o cliente, metia conversa com ele: “O sr. dr. não é o engraxador que pára lá em baixo na Portagem?” Entretanto todo o país se “coimbrizou” (e o que não se “coimbrizou” está a “bolonhizar-se”) e a piada perdeu-se.
Hoje, no supermercado, devemos dirigir-nos à menina da caixa dizendo: “Pago com Multibanco, sra. dra.”, e à empregada doméstica: “Dra. Irene, sirva o leite-creme”, do mesmo modo que não podemos esquecer-nos de que o lavador de carros pode ser engenheiro pela Moderna ou pela Internacional: “Lavagem completa, sr. engenheiro”.
A revista “Sábado” conta a história de um atleta de “taekwendo” que, sem nunca ter feito o ensino secundário, em poucos meses conseguiu, como tantos outros, um diploma “simplex” do 12.º ano nas “Novas oportunidades” e já está a caminho da Faculdade de Medicina.
Um dia destes, juntamente com um anestesista também “simplex”, estará a operar o leitor num hospital público, os dois cheios de curiosidade sobre o que haverá dentro de uma barriga.

Manuel António Pina é Prémio Camões

O poeta, ficcionista, dramaturgo, cronista e jornalista Manuel António Pina irá receber o 23º Prémio Camões. Apesar de ser autor de uma obra poética assinalável em quantidade e qualidade,  tornou-se mais conhecido, recentemente, na qualidade de cronista, graças à lucidez com que tem zurzido os portuguesinhos que poluem Portugal, sem nunca prescindir do rigor formal que só num cultor irrepreensível da língua se pode aliar a um sarcasmo certeiro e descontraído.

Muito provavelmente, Marinho e Pinto, o tonitruante Bastonário da Ordem dos Advogados, não dará os parabéns ao premiado, também ele um licenciado em Direito. Entretanto, a cultura portuguesa poderá continuar a usufruir do privilégio de ler uma voz que a engrandece. Em casa do autor, os gatos continuarão embalados pelo ciciar beirão que os trinta anos de Porto não apagaram.

A finura e a delicadeza de um Bastonário

Manuel António Pina, que por acaso é um dos maiores portugueses vivos, acusou o Bastonário da Ordem dos Advogados , na sua habitual coluna de opinião do JN, de ter sede de protagonismo, ainda a propósito da «greve» às eleições de 5 de Junho.
Marinho e Pinto, respondendo ao nível a que nos habituou, chamou-lhe cretino (8 vezes), medíocre, megalómano, desonesto, canino (mais as variantes caniche e mastim), ocioso, parolo, frustrado, desesperado, senil, rancoroso, complexado e cobarde. Termina por dizer que ele precisa é de uma boa dose de iodo, recorrendo a um trocadilho especialmente inspirado: «Vá para uma boa praia e… ioda-se!». Calcula-se que o imperativo do verbo ioder.
Com a sua habitual fleuma, Manuel António Pina lá teve de responder à caricata personagem que «tenho um princípio de sobrevivência na estrada que consiste em dar sempre prioridade a um camião destravado (ainda por cima, este vê-se bem que faltou a alguma inspecção). Meto, pois, travões e ele que passe. É certo que, na sua fúria em contramão, o camionista atropelou repetidamente, provocando-lhe traumatismos vários, a pobre gramática da língua portuguesa. Mas gramática e ele que se entendam. Eu não me queixo. Podia ser pior, sei lá se o homem tem tomado a medicação.»
Li algures que Marinho e Pinto desta vez ultrapassou todos os limites. Não, não concordo. O decoro e a educação de Marinho e Pinto não conhecem limites. Digo eu, que sou um cretino…
Mas como a crónica de Marinho Pinto no JN, «Um cretino é um cretino», é absolutamente imperdível, aqui fica na sua totalidade:

«Comecemos por onde estas coisas devem começar: o escriba que diariamente bolça sentenças nesta página e que dá pelo nome de Manuel António Pina é um refinado cretino. Posto isto, assim, que é a forma honesta de pôr este tipo de coisas, nada mais haveria a dizer. Citando um treinador de futebol dado a elucubrações epistemológicas, «um vintém é um vintém e um cretino é um cretino». E… Pronto! Estaria tudo dito. Além disso, só se MAP não fosse tão cretino é que valeria a pena mostrar-lhe por que é que ele é tão cretino.

Não costumo responder a cretinos. Mas, correndo o risco de este, como todos os outros, se tornar ainda mais agressivo, vou abrir uma excepção e descer ao seu terreno para lhe responder com as mesmas armas que ele tem usado contra mim, até porque este é um cretino especial, do tipo intelectual de esquerda. [Read more…]

Défice – responsáveis e responsabilizados

Um dos meus prazeres quotidianos consiste na leitura das crónicas de Manuel António Pina, na última página do JN. O prazer não desaparece nas raras ocasiões em que discordo do conteúdo.

Neste texto, o cronista faz uma chamada de atenção justíssima para a necessidade de o jornalismo evitar ser confundido com a mais antiga profissão do mundo, a propósito desta notícia saída no i e já comentada aqui.

O jornal visado tem, efectivamente, uma tendência tablóide na escolha das notícias e na criação de títulos, que são, frequentemente, menos engraçados do que pretenderiam os seus autores. Deste ponto de vista, a crítica de Manuel António Pina às deficiências do exercício jornalístico parece-me justa. Julgo, no entanto, que a excessiva atenção dada aos defeitos alheios estará a impedi-lo de descobrir o meretrício praticado pelo jornal em que escreve, com um critério editorial que usa ligas e pisca o olho ao poder.

Ora, a notícia do i poderá ser extemporânea, mas não serôdia. Na verdade, o que ali se conta é um dos muitos exemplos de um exercício irresponsável da política. O problema está na multiplicação desses exemplos e na consequência do costume: todos estes buracos orçamentais acabam por ser pagos por quem não os abriu. Os responsáveis foram demitidos, é certo, mas isso significará que foram responsabilizados?  

Escândalo: Manuel António Pina compara Deus à Ivone do «Caminho das Indias»!

 

Li e pasmei. Manuel António Pina, homem das Letras, bem considerado, compara na sua habitual crónica no JN o Deus da Bíblia à personagem Ivone do «Caminho das Indias», interpretado pela actriz Leticia Sabatella.

É um herege, Manuel António Pina. E ainda por cima, não percebe nada de Deus nem do «Caminho das Indias». Devia ter vergonha!