Os Conselhos do Chico

Há vários anos que é assim. Quando a inquietação me assalta de rompante e não consigo encontrar uma explicação lógica para compreender ou tentar explicar esse acontecimento, ou até mesmo quando não encontro uma explicação lógica para explicar algo que se está a passar no mundo, pego nos meus discos do Chico para ali encontrar a explicação. É impossível não conseguir achar a resposta nos Conselhos do Chico. A obra do Chico é tão vasta, tão genial, tão sublime, tão humana ao ponto de crer que o Chico não é do século passado, não é deste século e não é dos próximos – é um ser transcendente a todos nós que vive noutra era, muito mais avançada – é outra forma, é outra matéria. É um ser que foi enviado para nos ensinar a saber como lutar. Nós é que somos ao lado dele gente tola na lufa-lufa que são os nossos dias, metidos quase sempre nas nossas vidas mundanas, na nossa eterna insatisfação, no nosso esforço abnegado para querer mais deste mundo quando o mundo não nos quer dar mais nada.

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Elisabeth, Dallas, Geni

«Stagecoach" (1939)

«Stagecoach” (1939)

Certa mãe de um adolescente queixava-se a uma amiga que, para chegar à sua nova escola secundária, o filho tem agora de passar por uma rua onde há senhoras. “Daquelas. Sabes? Das de má vida.” E que as senhoras não se metem com o rapaz, mas dão mau aspecto à rua. Carregava muito na palavra “senhoras” e fazia um trejeito amargo com os lábios para que se percebesse que dizia “senhoras” para mostrar que ela o era, as outras é que não.

A amiga solidarizava-se com aquela angústia. Realmente. Nem devia ser permitido tão próximo de uma escola. Deviam estar lá num bairro delas, como na Holanda. Sabes que na Holanda é assim, explicava, elas estão proibidas de sair dali. Têm cada uma casinha, com uma lanterna à janela, podem ir para a montra, para se mostrarem, mas não podem sair dali. Era o que faltava andar a rondar as escolas, isso é que era bom. Ia logo tudo para o xilindró. [Read more…]

«Piada com Sporting obriga Marisa Matias a retratar-se»

MM retrata-se

Fonte: Jornal de Notícias (http://bit.ly/1RSJMFT)

 

At this point Hume really takes off. He says that we should examine the underlying principles of cause and effect, and he discovers two principles: the principle of causation and the principle of causality. The principle of causation says every event has a cause. The principle of causality says like causes have like effects. These, as he correctly sees, are not equivalent. For it might be the case that every event had a cause though there was no consistency in what sort of effects any particular cause might have, and no consistency in what sort of causes any effect might have.

— John Searle, Mind: A Brief Introduction, p. 196

though it makes the vnskilfull laugh, cannot but make the iudicious greeue
— Shakespeare, “Hamlet” (Quarto 2, 1604)

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Segundo alguma comunicação social, Marisa Matias ter-se-á retratado, depois de uma piada sobre o Sporting:

«Uma piada de Marisa Matias que envolveu o Sporting incendiou as redes sociais, obrigando a candidata às presidenciais com apoio do Bloco de Esquerda a retratar-se». (Sol)

A frase de Marisa Matias, em entrevista ao ‘Observador’, gerou alguma polémica nas redes sociais e levou a candidata presidencial a retratar-se no ‘Facebook’. (A Bola)

Efectivamente, Marisa Matias retratou-se depois da piada sobre o Sporting: a entrevista em que a piada foi registada ocorreu no dia 7 de Janeiro e o retrato foi tirado em 14 de Janeiro. Contudo, verifique-se, a causa da retratação não é a piada.

Embora por razões grafémicas, também não encarei «o pedido de desculpas de João Pedrosa […] como uma retratação». Em português europeu, um pedido de desculpas não corresponde a uma retratação. Uma selfie, sim.

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Chomsky e Houaiss: perspectiva, concepção, aspectos e facções

110p

Elements of Linguistic Structure, Noam Chomsky, 1955 © MIT (http://bit.ly/1vRi4OH)

Truly, we live in a world in which people feel entitled not just to their own opinions but their own facts.

Paul Krugman

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Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma

Evanildo Bechara

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Li recentemente um artigo de 1996, do jornalista brasileiro Ibsen Spartacus (1965-2003), acerca do Roda Viva com Noam Chomsky. Lembrei-me, obviamente, do Roda Viva com Antônio Houaiss (1915-1999), ao qual me referi em 2009 (p. 10), com o conhecido lexicógrafo a admitir o valor diacrítico da letra ‘c’, embora errando o alvo: na palavra ‘actividade’, a letra consonântica ‘c’ tem de facto valor grafémico, sim, mas esse valor não é diacrítico.

Neste registo, com um desempenho teórico francamente melhor, Houaiss esclarece aqueles que não conhecem o sistema ortográfico do português europeu: “[a consoante muda], em Portugal, se escreve para fins de abrir o timbre ou por coerência; como em ‘activo’, eles põem o ‘c’ para dizerem ‘activo’ [aˈtivu], em lugar de dizer *’ativo” [ɐˈtivu]; eles põem esse ‘c’ em ‘acção’, coerentemente, por serem co-radicais”. Depois, acrescenta: “para dizerem ‘optimizar’ [ɔtimiˈzaɾ], eles têm que pôr o ‘p’; ao pôr em ‘optimizar’ o ‘p’para essa função de timbre, automaticamente eles levam o ‘p’ para o cognato ‘óptimo'”.

Muitos anos volvidos sobre estas intervenções de Houaiss [Read more…]

A saga dispensável e a hipocrisia ortográfica

RC Expresso 592013

Ricardo Costa deve assumir, duma vez por todas, que no Expresso não se adopta o Acordo Ortográfico de 1990, apesar de a adopção ter sido anunciada, com pompa e circunstância, há três anos, dois meses e onze dias.

Já todos percebemos que na versão em papel do Expresso se adopta uma grafia hipócrita: os escribas – incluindo o director – escrevem na norma de 45/73, depois o texto vai à máquina para ser mastigado e só então é enviado ao quiosque, para ser metido no saco de plástico e vendido aos incautos. Se Ricardo Costa não gosta do AO90, diga-o: preto no branco, com consoantes, acentos e hífenes.

Já que acusa os deputados de criarem “condições para essa bagunça”[1], o director do Expresso podia aproveitar para acabar com a desordem ortográfica que reina no jornal que dirige, deixando de atormentar com grafia regurgitada aqueles que ainda lêem o Expresso e ajudando a pôr fim à mixórdia que impera na actual escrita portuguesa europeia.

Só poderá ser válida a tese “as regras não se mudam a meio do campeonato” quando estas são aplicadas e quando o exemplo vem de cima. Como podemos verificar (e já por uma, duas ou três vezes aqui verificámos), não são, nem vem. A tarefa é mais simples do que parece à primeira vista: voltam a dar aos leitores da versão em papel o produto original e não a versão hipócrita e verão que tudo corre lindamente.


[1] Segundo o Houaiss, ‘bagunça’ significa “falta de ordem; confusão, desorganização” e o grande Chico Buarque – com música do excelente Tom Jobim  –  confirma:

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Chico Buarque poderá ser processado

Alegre com Dylan por um Mundo livre

alegre_dylan

«Manuel Alegre ao lado de Bob Dylan, John Lennon e Leonard Cohen» anunciou hoje a Leya, feliz da vida por Alegre passar a estar ao lado de tão notáveis poetas (e Chico Buarque também lá está) no âmbito da antologia italiana Canto Por Um Mundo Livre. Marketing é marketing (essa ciência que é um remédio santo) mas talvez José Afonso fosse realmente o único nome que faria sentido nessa representação portuguesa de grandes poetas/músicos. Alegre é doutra guerra.