Aguenta-te Saramago

Há milhões de gajos que estão contigo, admirando a tua coragem. A igreja já não tem puto de credibilidade, no seio de todos aqueles que pensam e consideram a razão a sua maior riqueza. As vozes que da igreja se levantam contra ti, na lenga-lenga do costume, já não chegam ao céu. Ficam pelo caminho, caiem de “estelo” como costuma dizer-se. Os argumentos da igreja, de tão corriqueiros, de tão frágeis quanto absurdos, não se aguentam nas canetas. Classificar, entretanto, as tuas palavras como “operação de publicidade” para aumentar a venda de livros, é baixo e soes, e é uma maneira muito reles de denegrir e diabolizar a mente de um homem que pensa muito a sério pela sua própria cabeça. “Um escritor da craveira de Saramago deveria ir por caminhos mais sérios”, argumentam. Isto é, devia ser politica e religiosamente correcto, dizer amém as todas as patranhas e perversidades da igreja e cantar o Avé. 

Perante tudo o que se vê e tudo o que se sabe, a igreja devia fechar a boca e estar caladinha. Que respeito pode merecer uma comunidade religiosa, que na véspera do julgamento sobre abusos sexuais, decide declarar a falência da diocese de Wilmington, para impedir o julgamento e o pagamento das indemnizações e evitar as escandalosas páginas dos jornais? É a sétima (?!) diocese dos Estados Unidos a recorrer a este expediente. Havia receio de que as indemnizações a dar a oito vítimas fossem tão grandes que inviabilizassem as compensações a mais 133 vítimas (?!). Segundo Thomas Neuberger, advogado de 88 vítimas, a falência é “um esforço desesperado para encobrir a verdade e impedir que milhares de páginas de documentos escandalosos” se tornem públicos. E continua dizendo “este pedido é o mais recente e triste capítulo na história de décadas de encobrimento destes crimes condenáveis, para manter em segredo a responsabilidade e cumplicidade do abuso de centenas de crianças católicas”. Muitos milhares, se incluirmos a irlanda, austrália etc. etc.

 

Outras dioceses já evitaram as indemnizações, declarando falência (a primeira foi a arquidiocese de Boston, em 2002). A diocese de Wilmington, até agora, pagou 6,2 milhões de dólares e a arquidiocese de Los Angeles desembolsou em 2007 a quantia de 660 milhões de dólares, para “compensar” 508 (?!) vítimas. É caso para perguntar o que anda a igreja a fazer neste mundo. E todos sabemos que em matéria de crime aquilo que se vê e se sabe é a pontinha do iceberg. Mais uma vez nos perguntamos se a igreja católica não será a instituição que alberga mais pedófilos e pervertidos sexuais, no mundo. Porque é que ninguém fala disto, (isto sim, que cobre de vergonha a face da igreja) e todos caiem em cima de Saramago, que não faz mal a ninguém, e apenas transmite aquilo que pensa ser a sua verdade?

 

E vêm agora estes senhores dizer que Saramago é um malandreco, que deveria ir por um caminho mais sério (!), que não deveria entrar no caminho da ofensa (!) que Saramago é confrangedoramente ingénuo e incapaz de reconhecer o valor das obras que estão entre os grandes textos do património literário da humanidade. Saramago pode não reconhecer o valor dos grandes textos literários da humanidade, mas reconhece com certeza o valor da dignidade do ser humano. Não me gozem meus senhores. Deixem o Saramago em paz, que sabe muito bem o que está a dizer, e que, apesar da idade, tem uma lucidez e uma dignidade que faz muita falta à mentalidade esclerosada e anquilosada da hierarquia da igreja.

 

 

 

Blasfémia! Ele disse-o outra vez!

 

As minhas desculpas pela ausência de legendas, não consegui encontrar nenhuma versão legendada.

Saramago: Não Gosto Do Homem Nem Um Bocadinho

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SARAMAGO, O INTOLERANTE

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Não gosto deste escritor. Nem do que escreve, nem da maneira como o faz. Nem como pessoa eu gosto. Ele, não gosta de Portugal nem dos Portugueses, e eu não gosto dele. As suas palavras, os seus escritos, as suas ideias, as suas atitudes, arrepiam-me, de um modo que me faz mal.

Dizem-me que tenho de gostar do senhor porque ele recebeu um Nobel, e ainda por cima é Português.

Muitos o receberam e há mais portugueses por aí, e não tenho de gostar de todos.

Não gosto deste, pronto.

Agora, nem ele sabe porquê, resolveu apresentar o seu último livro em Penafiel. Por certo nem saberia onde ficava a cidade antes de saber que ia ser homenageado.

Na apresentação deste seu livro, Caím, mostra muito do que este homem é. Mais uma vez, e de novo, resolve bater em Deus e na Igreja Católica, e embora me não interesse minimamente que seja quem for escreva ou fale (bem ou mal) sobre o Antigo Testamento ou até mesmo sobre o novo, não precisa de para isso ser desnecessariamente estúpido, e estupidamente jacobino, sectário e intolerante, como o foi este autor. As suas palavras sobre a Bíblia, são cruéis, vingativas e se nos déssemos ao trabalho de as ouvirmos bem, enlouquecedoras. A sua incapacidade para ter Fé, é por demais evidente. E essa capacidade é uma mais valia para quem a possui. E embora, não a ter, não possa ser considerado defeito, já o é criticar quem tem a felicidade de ter nascido com ela .

Não precisava, mas insulta e despreza a fé de terceiros para dizer o que pensa, e tem um prazer orgásmico em agredir os outros.

Os seu problemas com a religião nunca terão ficado resolvidos, e agora, já velho e casmurro, é muito tarde para os solucionar.

Não consigo gostar de pessoas assim.

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A dourada pirâmide de Caim

  

 

 

 

Eneida, A Odisseia, Os Doze CésaresGilgameshO Livro dos Mortos ou o Hino a Aton, são alguns daqueles textos que para sempre ligarão o Ocidente  a um passado que em termos civilizacionais não se encontra assim tão distante, nem no espaço – o cadinho do nosso ethos, o Mediterraneo e a Mesopotâmia – e muito menos ainda, no tempo.

 

A Bíblia consiste numa amálgama de textos, uns destinados a contar a experiência do povo de Israel, outros que foram assimilando aspectos considerados geralmente aceites, como absolutas verdades originárias da história oral dos povos que habitaram a vasta área marginada a oeste pelo Nilo e a este pelo Tigre e Eufrates.

 

 

O Dilúvio, o sonho da Terra Prometida – este nosso Shangri-la do Ocidente indo-europeu –  e toda uma série de relatos edificantes que estabeleceram um primado ou conceito de ordem moral,  procuravam uma identificação unificadora dos ainda relativamente escassos contingentes humanos, em alguns casos dispersos por um território que à época era infinitamente mais vasto e de difícil acesso para aqueles que quiseram criar raízes, sedentarizando-se. O Êxodo consistiu na lendária base fundamental que uns milénios mais tarde, justificaria a criação de um Estado que se formatou em torno dessa acreditada gesta. Pouco importa se Gilgamesh já tivesse experimentado a enxurrada que dos céus inundou aquele todo o mundo que os semitas, egípcios e até mais a norte os anatólios, consideravam como completo e único. Se o Pai Nosso é fruto da fervilhante criatividade e imaginação de Amenófis IV trasmutado em Akhenaton, a verdade é que hoje surge como a suprema oração, o fio condutor da conversa, ou melhor, do implorar do comum mortal de qualquer uma das religiões do Deus Único .

 

Vestes sagradas, cerimoniais complexos e carregados de fumos de incensos, chamas purificadoras, águas milagrosas e livros erguidos em direcção à luz solar – talvez aquele deus que ainda resiste no subconsciente da maior parte dos homens -, fazem parte de uma tradição que ininterruptamente se adaptou a novos espaços, realidades étnicas – adequando os ritos e a crença ao passado pagão – e geográficas. Loucos de Deus sempre existiram e sempre existirão, numa quase sempre solitária interpretação de um mundo ao qual, soberbamente se julgam destinados a servir como vingadores de um ente superior, basicamente austero e avesso ao negregado hedonismo. Grosso modo, as histórias edificantes focam contextos muito específicos, onde invariavelmente a fixação da hierarquia, a morigeração de costumes, ou a simples necessidade de zelar pela perfeita saúde física das comunidades, impunham as regras a acatar universalmente. Os cataclismos naturais  impuseram  algumas semelhanças entre textos de culturas tão distantes quão diversas em vários continentes. A própria necessidade e expressão artística – muitas vezes fortemente condicionada pelo engrandecimento do poder -, levou à adopção de soluções técnicas que os mais crédulos ainda hoje, pensam ser um elo muito longínquo de um passado comum, outrora ligado por um fabuloso continente perdido pleno de super-homens, afinal, a perdida ponte entre nós e o divino.

 

Bíblias foram queimadas em fogueiras, assim como homens também o foram apenas por acatarem uma versão errónea à luz do oficialismo imperante num certo espaço político e social. O que parece bastante anacrónico e causa perplexidade, é o constante acirrar de posições que de tão irredutíveis se tornam merecedoras da indiferença mais ou menos generalizada. Aqueles que não compreendem – ou fingem não entender – os contextos históricos em que os textos surgiram como uma necessidade para a conformação social, acabam por equivaler-se aqueles outros que à semelhança de autoproclamados filhos de uma das Tribos Perdidas de Israel, vociferam contra os "ímpios" de uma modernidade que não aceitam e querem ver destruída. No fundo, o fanatismo Saramago equivale-se ao de um Menino de Deus, de um Mormon ou de um Hamisch.

 

O caso deste escritor que nestes dias acaba por preconizar o fim da sua própria pátria de nascimento, parece intencional, decorrendo normalmente de um percurso de vida pautado pelo endurecimento da convicção  num destino de predestinado e ao encontro daquele que afinal foi o verdadeiro Mito do Século XX. Pouco lhe importam as histórias, os contos, as experiências e desejos individuais ou colectivos – estes stricto sensu, há que frisar – dos homens que fizeram a pequena e a grande História. O devir de uma supersticiosa certeza, numa constante e maniqueísta liquidação de "inimigos de classe" – descurando assumida e completamente as realidades da inter-permeabilidade entre algumas ou todas -, conduz ao dogma que impõe a destruição do outro. Um dos derrotados do século – e aqui já o alçamos a um muito contestável estatuto que pouco interessa reconhecer ou não -, Saramago finge não ter compreendido a vastidão imensurável de um legado que antes de tudo tenta impor regras onde o conceito de Bem pode ir-se adaptando aos novos tempos e realidades que a sucessão de gerações infalivelmente estabelece.

 

Para Saramago, a Bíblia parece ser um …manual de maus costumes, crueldade e do pior da natureza humana... Curiosa conclusão que não atende à realidade de outras épocas e á própria necessidade de afirmação da certeza de pertença a um determinado grupo. Apesar disto,  não existe vivalma sobre este planeta, que alguma vez tenha escutado uma só palavra do escritor, acerca dos manuais de brutalidades, das cartilhas que impõem pela mais iconoclasta violência,  a "construção científica" de um outro homem, tão desumano como Moloch ou tão escravizado a uma quimera como os ilotas.  Saramago nem sequer dá conta da clara cópia do preceituado necessário à construção  do seu Novo Templo, de uma religião tão tingida de vermelho como as escadarias sacrificais dos aztecas. Pouco lhe importam que as estórias – disso não passam – edificantes da sua religião versem a denúncia, a opressão do imaginado inimigo ou a acefal
ia
geral em benefício de um imposto dogma. A visão da certeza, do Bem estabelecido pelo Caim da sua Verdade, exclusivamente pertencerá aos eleitos, aos poucos que escolhidos inter-pares, decidem pela amorfa e anónima soma de números em que a humanidade obrigatoriamente se torna, anulando-se como motor da continuidade da própria História.

 

Agarrado ao encharcado lenço de uma derrota que jamais esperou ver chegar, pouco mais resta ao escritor premiado com o Nobel, senão aferrar-se à sua grande certeza: a metálica matéria. No seu caso, o ouro, não em forma de bezerro, mas da vaidade que lhe garante um final confortável e feliz.