Domingos e Mário são dois jovens portugueses, ambos a estudar Medicina na Ucrânia, e estão há três dias em frente ao portão da fronteira polaca, de passaporte português na mão, mas não os deixam passar. Não os querem sequer ouvir. E porquê? Porque Domingos Ngulond e Mário Biangnê são negros, apesar de nascidos e criados em Portugal. E porque as autoridades ucranianas têm instruções para só deixar passar brancos.
Este é apenas um de muitos relatos da segregação racial que está neste momento a acontecer na fronteira da Ucrânia com a Polónia, onde a cor da pele parece definir quem pode ou não passar. Não haveria aqui qualquer novidade, ou não fosse o governo polaco um dos bastiões da direita racista no seio da UE, mas são os soldados ucranianos a impedir a passagem de não-brancos na sua fronteira. Isto é inaceitável e diz-nos muito sobre quem manda na Ucrânia e, sobretudo, sobre a dualidade de critérios que norteia aqueles que controlam a narrativa e estão a usar a sofrimento dos ucranianos para servir agendas partidárias. Putin agradece.
Adenda: Quando escrevi os dois parágrafos acima, Mário e Domingos ainda estavam retidos na fronteira. Felizmente, já a conseguiram atravessar, graças à acção conjunta do ministério dos Negócios Estrangeiros português e da embaixada ucraniana em Lisboa. Tal não invalida a vergonha que é ver um país invadido por uma força opressora, envolvido neste tipo de práticas nada democráticas. Se não servir para outra coisa, que nos sirva pelo menos para pensar
Em Foggia, uma cidade agrícola na província de Puglia, em Itália, as autoridades locais anunciaram a criação de duas linhas de autocarros distintas: uma apenas para imigrantes e outra apenas para cidadãos locais. Na verdade, a linha é a mesma: a número 24, que une o centro da cidade ao bairro periférico de Borgo Mezzanone. A cerca de dois quilómetros deste bairro está um centro de acolhimento para imigrantes. De forma a evitar as fricções que se poderiam fazer sentir entre residentes e indesejáveis, nada melhor do que separar os veículos, ampliando o percurso do autocarro dos imigrantes até ao centro de acolhimento, e assim poupando-os à caminhada de dois quilómetros, e libertando os locais da presença dos não-europeus. O racismo mascara-se muitas vezes com a capa da falsa piedade, das hipócritas boas-intenções, da segurança que se impõe pela violência. E também esta medida vem com o rótulo de higiénica e bem-intencionada. Para quê forçar a convivência de pessoas que, não fosse a vaga de imigração africana que assola a Europa, nunca se teriam cruzado? Naturalmente será mais prudente isolar estes imigrantes para que a sua frustração, o seu sentimento de impotência e de injustiça não venham a encontrar expressão numa espiral de violência que se acenda com um olhar, um insulto, o encontro súbito de dois seres humanos assustados. Deparei-me com a notícia hoje e a coincidência deixou-me um sabor amargo na boca. É que hoje cumpre-se mais um aniversário, o 41º, do assassinato de Martin Luther King.





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