A Nai Esperanza Revisitada

lembranças dos tecidos da alma da Nai Esperanza

Parte do livro que escrevo: Esperanza

É-me quase impossível tornar a escrever qualquer texto, sem me referir mais uma vez a essa mulher que não se furtava ao trabalho. Essa Senhora que sabia ser não apenas Nai (em luso galaico, Mãe em luso português), mas também uma boa mulher do seu marido. Sempre pensei nela como uma Senhora. Não dessas Senhoras que sabem vestir à moda imperante, com fatos de seda e penteados de cabeleireiro. Desde que me lembro, vestia da mesma forma, uma blusa com fundo amarelo, com flores estampadas para decorar esse fundo. A saia era cor castanha obscura, até os joelhos, e meias grosas para se defender do frio.  Esse em frio que até no verão de Lodeirón, a parte mais alta de Vilatuxe, calava os ossos e esfriava o corpo. A sua única sorte era estar sempre na cozinha para preparar a comida de uma família muito alargada: os filhos solteiros, os filhos casados e com filhos próprios, e os filhos casados que esperaram um tempo antes de continuar a descendência Medela Dobarro. Cobria o seu corpo na cozinha com um avental fechado para não sujar a roupa que usava para ir a rua, as compras ou visitar pessoas. Parecia eterno esse casaco de lã, castanho obscuro, tecido especialmente para cumprir uma promessa a Nossa Senhora do Carmo, por causa de doença de um filho. Casaco que, passada a doença, nunca mais tirou. As vezes, lavava o casaco, as vezes cheirava a comida frita que servia na mesa, ou a cozido galego. Esse cozido que não se perdoava de preparar para os Domingos em grande quantidade. A sua descendência comia até se fartar. Era preciso, como me lembra hoje em dia o seu viúvo, o meu amigo Hermínio, esse descendente

dos Condes de Lemos, que eu denomino compadre avô, servir em três turnos, tantos eram em casa; as crianças primeiro, os adultos mais novos já casados, e a seguir o casal, que sempre comia juntos, ou acompanhado pelo filho mais novo, que não sabia usar os talheres e comia com a mão, o hoje em dia Miguel Ângelo, Empresário em conjunto com a sua mulher, Karina Rodríguez  Fernández , pais do neto que, nos sentimentos do meu Avô Compadre, substituíram esse carinho que gosta de entregar por todo ou por nada, esse neto, o mais novo da saga Medela, Isaías, de 10 anos, nos dais em que escrevo estas letras. Um neto carinhoso como o avô, mas que manda em ele como melhor entende e gosta. Um Isaías que presencio a doença da avó, pessoa a que amava tanto como a sua nai. Foi nos braços deste neto, de nora Karina e de quem começava a ser viúvo, Hermínio, que Esperanza entregara a sua alma a sua divindade, na que acreditava tanto como em si própria. O pranto de Isaías foi silencioso, o de Hermínio, um desgarro da voz, o da Nora, um correr de vagas olhos abaixo e Miguel, uma infinita dedicação a tratar do corpo da sua nai enquanto o rosto ficava molhado pelas silenciosas lágrimas que, quiser ou não, caiam dos seus olhos, da sua alma, do seu coração, dos seus mais profundos sentimentos, esses que não se mostram a ninguém.  Ficara só para tratar do corpo, ninguém fez escândalos, nem gritara como fazem as carpideiras, mulheres pagas para chorar nos velórios e funerais e que, na Espanha, tenta-se resgatar e repor a actividade da tristeza para decorar um funeral. As carpideiras no foram necessárias no dia da passagem de corpo a alma, de Esperanza. A família toda estava a chorar.

Não entanto, parece-me ver o trabalho da Nai Esperanza, agarrando o já velho casaco de lã castanho obscuro, que, anos passados da promessa, usava para se agasalhar. Botões já não havia; com a mão esquerda segurava o casaco para se agasalhar, com a mão direita apanhava do chão o que pretendia. Normalmente, madeira pás ascender o lume e preparar o pequeno-almoço e começar a aquecer a casa, edifício imenso que não tinha defesa contra o frio. O calor do fogão a lenha, ou fogão económico como era também denominado porque poupava electricidade e gás e era o resultado da força de trabalho dos homens da casa, que no Outono dedicavam, com a companhia e força da Nai Esperanza, a desbastar madeira de pinho, de nogueira, cerejeiras secas, carvalho, de sobreiros, essas imensas árvores que de ramas fortes e com um machado, a madeira era tirada, levada para o pátio de trás, e partida em troços. Quando estas árvores faltavam, usava-se o eucalipto, que ardia bem mas aquecia pouco. Apenas que a política para a vida rural, tinha mandado plantar eucaliptos e pinheiros, para guardar as outras espécies mais fortes, para a construção. Ter uma mata de sobreiros, era sinal de riqueza, especialmente por serem vendidos a preço de ouro cada árvore ou a mata inteira.

A Nai usava apenas duas blusas: uma que vestia, descrita antes, e outra cós azul, com adornos de folhas e flores. Não era uma mulher de acreditar na divindade. Um dia, ao falar com elas, disse-me: eu faço e penso como o meu marido manda, e como ele não pensa em Deus, eu também não. No entanto, perante qualquer doença dum familiar, ela até orava, só para ela. Compartia as ideias do Hermínio: se já temos um inferno em vida, para que queremos outro a seguir, se já andamos todos queimados e a obedecer aos curas que apenas sabem tirar dinheiro, como o fisco, das nossas pobres algibeiras ou bolsos. No entanto, havia esse amor que, si a Nai Esperanza ia a Missa um domingo qualquer, ela a acompanhava e ficávamos fora na conversa, enquanto o meu amigo, o Presbítero Luís Vázquez Lamela, de feliz memória, rezava a sua Missa: haviam dois toques, como tenho referido antes: uma para os crentes entrarem desde o começo da celebração denominada Eucaristia, e outros, para todos nós os tristes pecadores que ficávamos fora a fumar, até o tanger do sino avisava que começava o Evangelho, que, se não se ouvia, a Missa não era válida. As Senhoras entravam directamente: não era bem visto ficar a falar com outros, especialmente homens. E como Esperanza era uma Senhora em todo o sentido da palavra: de vista baixa em público, de comportamento adequado às circunstâncias: se cumprimentar, cumprimentava, se era preciso fugir de conversas, ia embora. Não era bisbilhoteira, longe disso: era a discrição personificada…Nai Esperanza, como te lembro de tomar conta da tua ninhada de catraios, nenos e nenas (luso galaico para putos e meninas do luso português).

Hermínio, nesse amor pela sua mulher, comprou-lhe um fogão a gás, que se usava raramente, especialmente nos invernos, porque esse fogão dito económico, aquecia a casa toda. Ideia nascida dele e dos filhos que com eles moravam, Miguel e Karina, a sua mulher.

Lembro-me, como se estiver parada em frente de mim, que Esperanza usava um manto negro para se arregaçar enquanto estava parada, acabadas as labores dos cozinhados, e cobria a cabeça por causa do frio e do seu eterno dos de dentes: nunca quis ir ao dentista….

Nai Esperança, a tua família lembra até a mais pequena anedota da sua curta passagem pela terra. Se não fosse pelos médicos e hospitais, opina a família, eles a teriam curado. Será? A ver vamos que opina a família e a ciência médica, em outro capítulo.

Vamos revisitar a Nai só até este ponto. Já estive com ela a manhã toda, a teorizar para este livro que escrevo: Esperança

Parte do livro que escrevo: Esperanza

É-me quase impossível tornar a escrever qualquer texto, sem me referir mais uma vez a essa mulher que não se furtava ao trabalho. Essa Senhora que sabia ser não apenas Nai (em luso galaico, Mãe em luso português), mas também uma boa mulher do seu marido. Sempre pensei nela como uma Senhora. Não dessas Senhoras que sabem vestir à moda imperante, com fatos de seda e penteados de cabeleireiro. Desde que me lembro, vestia da mesma forma, uma blusa com fundo amarelo, com flores estampadas para decorar esse fundo. A saia era cor castanha obscura, até os joelhos, e meias grosas para se defender do frio. Esse em frio que até no verão de Lodeirón, a parte mais alta de Vilatuxe, calava os ossos e esfriava o corpo. A sua única sorte era estar sempre na cozinha para preparar a comida de uma família muito alargada: os filhos solteiros, os filhos casados e com filhos próprios, e os filhos casados que esperaram um tempo antes de continuar a descendência Medela Dobarro. Cobria o seu corpo na cozinha com um avental fechado para não sujar a roupa que usava para ir a rua, as compras ou visitar pessoas. Parecia eterno esse casaco de lã, castanho obscuro, tecido especialmente para cumprir uma promessa a Nossa Senhora do Carmo, por causa de doença de um filho. Casaco que, passada a doença, nunca mais tirou. As vezes, lavava o casaco, as vezes cheirava a comida frita que servia na mesa, ou a cozido galego. Esse cozido que não se perdoava de preparar para os Domingos em grande quantidade. A sua descendência comia até se fartar. Era preciso, como me lembra hoje em dia o seu viúvo, o meu amigo Hermínio, esse descendente

dos Condes de Lemos, que eu denomino compadre avô, servir em três turnos, tantos eram em casa; as crianças primeiro, os adultos mais novos já casados, e a seguir o casal, que sempre comia juntos, ou acompanhado pelo filho mais novo, que não sabia usar os talheres e comia com a mão, o hoje em dia Miguel Ângelo, Empresário em conjunto com a sua mulher, Karina Rodríguez  Fernández , pais do neto que, nos sentimentos do meu Avô Compadre, substituíram esse carinho que gosta de entregar por todo ou por nada, esse neto, o mais novo da saga Medela, Isaías, de 10 anos, nos dais em que escrevo estas letras. Um neto carinhoso como o avô, mas que manda em ele como melhor entende e gosta. Um Isaías que presencio a doença da avó, pessoa a que amava tanto como a sua nai. Foi nos braços deste neto, de nora Karina e de quem começava a ser viúvo, Hermínio, que Esperanza entregara a sua alma a sua divindade, na que acreditava tanto como em si própria. O pranto de Isaías foi silencioso, o de Hermínio, um desgarro da voz, o da Nora, um correr de vagas olhos abaixo e Miguel, uma infinita dedicação a tratar do corpo da sua nai enquanto o rosto ficava molhado pelas silenciosas lágrimas que, quiser ou não, caiam dos seus olhos, da sua alma, do seu coração, dos seus mais profundos sentimentos, esses que não se mostram a ninguém.  Ficara só para tratar do corpo, ninguém fez escândalos, nem gritara como fazem as carpideiras, mulheres pagas para chorar nos velórios e funerais e que, na Espanha, tenta-se resgatar e repor a actividade da tristeza para decorar um funeral. As carpideiras no foram necessárias no dia da passagem de corpo a alma, de Esperanza. A família toda estava a chorar.

Não entanto, parece-me ver o trabalho da Nai Esperanza, agarrando o já velho casaco de lã castanho obscuro, que, anos passados da promessa, usava para se agasalhar. Botões já não havia; com a mão esquerda segurava o casaco para se agasalhar, com a mão direita apanhava do chão o que pretendia. Normalmente, madeira pás ascender o lume e preparar o pequeno-almoço e começar a aquecer a casa, edifício imenso que não tinha defesa contra o frio. O calor do fogão a lenha, ou fogão económico como era também denominado porque poupava electricidade e gás e era o resultado da força de trabalho dos homens da casa, que no Outono dedicavam, com a companhia e força da Nai Esperanza, a desbastar madeira de pinho, de nogueira, cerejeiras secas, carvalho, de sobreiros, essas imensas árvores que de ramas fortes e com um machado, a madeira era tirada, levada para o pátio de trás, e partida em troços. Quando estas árvores faltavam, usava-se o eucalipto, que ardia bem mas aquecia pouco. Apenas que a política para a vida rural, tinha mandado plantar eucaliptos e pinheiros, para guardar as outras espécies mais fortes, para a construção. Ter uma mata de sobreiros, era sinal de riqueza, especialmente por serem vendidos a preço de ouro cada árvore ou a mata inteira.

A Nai usava apenas duas blusas: uma que vestia, descrita antes, e outra cós azul, com adornos de folhas e flores. Não era uma mulher de acreditar na divindade. Um dia, ao falar com elas, disse-me: eu faço e penso como o meu marido manda, e como ele não pensa em Deus, eu também não. No entanto, perante qualquer doença dum familiar, ela até orava, só para ela. Compartia as ideias do Hermínio: se já temos um inferno em vida, para que queremos outro a seguir, se já andamos todos queimados e a obedecer aos curas que apenas sabem tirar dinheiro, como o fisco, das nossas pobres algibeiras ou bolsos. No entanto, havia esse amor que, si a Nai Esperanza ia a Missa um domingo qualquer, ela a acompanhava e ficávamos fora na conversa, enquanto o meu amigo, o Presbítero Luís Vázquez Lamela, de feliz memória, rezava a sua Missa: haviam dois toques, como tenho referido antes: uma para os crentes entrarem desde o começo da celebração denominada Eucaristia, e outros, para todos nós os tristes pecadores que ficávamos fora a fumar, até o tanger do sino avisava que começava o Evangelho, que, se não se ouvia, a Missa não era válida. As Senhoras entravam directamente: não era bem visto ficar a falar com outros, especialmente homens. E como Esperanza era uma Senhora em todo o sentido da palavra: de vista baixa em público, de comportamento adequado às circunstâncias: se cumprimentar, cumprimentava, se era preciso fugir de conversas, ia embora. Não era bisbilhoteira, longe disso: era a discrição personificada…Nai Esperanza, como te lembro de tomar conta da tua ninhada de catraios, nenos e nenas (luso galaico para putos e meninas do luso português).

Hermínio, nesse amor pela sua mulher, comprou-lhe um fogão a gás, que se usava raramente, especialmente nos invernos, porque esse fogão dito económico, aquecia a casa toda. Ideia nascida dele e dos filhos que com eles moravam, Miguel e Karina, a sua mulher.

Lembro-me, como se estiver parada em frente de mim, que Esperanza usava um manto negro para se arregaçar enquanto estava parada, acabadas as labores dos cozinhados, e cobria a cabeça por causa do frio e do seu eterno dos de dentes: nunca quis ir ao dentista….

Nai Esperança, a tua família lembra até a mais pequena anedota da sua curta passagem pela terra. Se não fosse pelos médicos e hospitais, opina a família, eles a teriam curado. Será? A ver vamos que opina a família e a ciência médica, em outro capítulo.

Vamos revisitar a Nai só até este ponto. Já estive com ela a manhã toda, a teorizar para este livro que escrevo: Esperança

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