Será que não aperto bem?

(Porm.adão cruz)

Não é que eu me considere tolo, embora os meus amigos digam que às vezes eu não bato bem. Eu penso, de facto, que há uma ou outra vez em que eu não aperto bem, ou melhor, aperto à minha maneira, que não é exactamente a maneira como os outros apertam.

Dá-se o caso que, vindo eu de Lisboa, de uma reunião médica, saí da auto-estrada para ir almoçar ao centro de Ílhavo. Estacionei o carro e procurei um restaurante, o qual, por acaso, estava ali mesmo à beira. Restaurante Villa Madrid.

Agradável, aconchegado e com um ambiente acolhedor. Televisão abafada, só com imagem, e no ar uma música suave e melodiosa que já não é habitual ouvir-se na maioria dos restaurantes: a Barcarola, dos contos de Hoffman, de Offenbach.

Sentei-me. A meio da refeição, uma Senhora idosa, dos seus oitenta anos, que me pereceu muito bonita, entrou na sala e sentou-se na mesa em frente à minha. Tinha um rosto vincado e sofrido, uma daquelas caras que parecem estar sempre prestes a chorar. Os nossos olhares cruzaram-se duas ou três vezes durante a minha permanência na mesa. O suficiente para eu achar, com efeito, que aquela Senhora deveria ter sido muito bonita.

Paguei a conta, levantei-me, e quando passava junto à Senhora coloquei-lhe suavemente a mão no ombro e disse: A Senhora desculpe o meu atrevimento, não leve a mal, mas eu gostava de lhe dizer que a Senhora deve ter sido muito bonita.

Ao contrário do que eu esperava, ela não se mostrou surpreendida. Calmamente poisou o talher, colocou serenamente a sua mão direita sobre a minha mão direita que eu havia apoiado na mesa e respondeu: Pois era. Era, de facto, muito bonita. Meu caro Senhor, muito obrigada pelas suas palavras que me souberam melhor do que a refeição, E, já agora, meu caro e desconhecido Senhor, deixe-me fitá-lo bem nos olhos, porque eu não quero esquecer a sua cara.

Fiquei meio paralisado. Com o melhor sorriso de que sou capaz e com uma inesperada sensação de estúpido, voltei a pedir desculpa e afastei-me.

Sentei-me no carro, com a porta aberta, e em voz alta atirei para o ar: Porra! Eles têm razão, eu não devo bater muito bem! Mas no fundo, bem no fundo senti-me feliz. Que belo momento, pensei! E quase senti uma lagrimeta no canto do olho. Não sei o que ganhei com o meu gesto. Não sei o que perdia se o não tivesse feito. Sei que há momentos tão subtis na vida real como os milhões de subtis mecanismos que geram o nosso mundo interior, e dos quais não nos damos conta. Há momentos cuja grandeza vai dos escaninhos da nossa alma à dimensão universal. Que se apresente aquele que seja capaz de os medir.

Comments

  1. graça dias says:

    ” NÃO É QUE EU ME CONSIDERE TOLO”!… – Oh, sr adão, com a sua exp. de vida , algum dia escutou os tolos de julio de matos? eles respondem imediatamente” EU NÃO SOU TOLO” perante isto os seus amigos alguma razão terão !…

  2. Jon Kings says:

    Gostei deste episódio e aprecio as pessoas que como você, assumem a espontaneidade de transmitir aos outros, mesmo que desconhecidos, o que lhes vai na alma. Todavia, pergunto-lhe se já considerou a hipótese de se ter gerado um equívoco qualquer e se porventura a senhora do texto não terá desejado fixar bem a sua cara para depois melhor o descrever às Autoridades?


  3. Meu caro Jon Kings, essa hipótese é mais que oportuna, mas, sinceramente, dada a naturalidade com que a cena se passou, penso que não. Um abraço.

  4. tereza says:

    Digam o que disserem, eu acho que fez muito bem ;
    – disse o que pensava e;
    – fez a senhora feliz.
    Ela olhou bem para si porque quis reter na memória o rosto de quem lhe fez ganhar o dia.
    Acho que de tolo não tem, nada (pelo menos no que a este texto diz respeito !)

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