Telemedicina – desde a informação escassa à propaganda

O ‘Público’, aqui, anuncia com ressonância e detalhe o arranque de um serviço de telemedicina, em cardiologia, entre Portugal (Lisboa) e São Tomé e Príncipe. A iniciativa é meritória, mas o estilo hiperbólico com que é anunciada é inapropriado.

A telemedicina em Portugal tem um prolongado historial envolvendo diversos pontos do País, que é abstruso e imperdoável omitir ou distorcer perante a opinião pública; caso do desproporcionado realce dado ao projecto antes referido. Cria-se a ideia de um pioneirismo, obviamente falso.

A fim de ter a noção de que a telemedicina, como prestação remota de cuidados de saúde e ensino médico à distância, é uma actividade com certa tradição e disseminada a nível geográfico e médico em Portugal, será suficiente consultar o portal do cidadão. Os centros e as especialidades abrangidas são, de facto, em número significativo. [Read more…]

A falsa telemedicina ou o mercantilismo da medicina

Sob o risco de contribuir para publicitação de serviços de falsa telemedicina, realizado por 150 médicos envolvidos no projecto divulgado pelo ‘site’ Bem-vindo à Segunda Opinião Médica, não posso – nem devo! – deixar de expressar repulsa por actividades de mercantilismo da medicina, a que, hoje, o jornal Público, faz referência.

O jornal cita a opinião do bastonário da Ordem dos Médicos, Dr. Pedro Nunes, igualmente reprobatória da iniciativa. A actividade, ao que parece, é dirigida ou coordenada, por um tal David Goldrach, director do famigerado portal.

A segunda opinião médica tem que obedecer a regras estabelecidas no ‘Regulamento de Conduta nas Relações entre Médicos’, aprovado e enquadrado no ‘Código Deontológico’ da OM de 2008.

Primeira constatação, tão óbvia quanto espontânea: ‘não existe segunda opinião médica, sem que haja a primeira’. Ora, sendo assim, o médico assistente e consultor têm que respeitar o preceituado no regulamento de conduta, em especial o artigo 9.º, nos 1 e 2. Neste, estabelece-se a obrigação do médico da segunda consulta “não interferir na assistência que esteja a ser prestada por outro colega ao doente”; e, no caso desta segunda consulta, ocorrer por vontade livre do doente, o médico que a realiza “tem a obrigação de advertir o paciente de existir uma assistência médica múltipla, não consensual”. O artigo 12.º, n.º 1, admite que o médico assistente possa encorajar o doente a pedir uma segunda opinião, caso o entenda útil.

Embora o citado regulamento, em matéria de normalização de conferências entre médicos, me pareça menos claro do que os revogados artigos 110.º a 114.º do anterior Código, assaltam-me dúvidas que as mensagens do ‘site’ da segunda opinião estejam a respeitar regras elementares de deontologia, nomeadamente o preceituado no regulamento antes referido – incitam, directa e explicitamente, os doentes a pedir uma segunda opinião, à revelia do médico assistente. Uma coisa é a iniciativa partir do doente, outra é ser tomada por incitamento do prestador interessado da segunda opinião.

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Telemedicina e Tecnologias de Informação e Comunicação na Saúde

Há tempos elogiei no ‘Aventar’ a conclusão de um projecto de telemedicina, resultante de parceria entre a PT Inovação SA e a Universidade de Aveiro. O projecto, sob a insígnia ‘Medigraf’, permitiu criar a solução de captar e transmitir, em tempo real ou diferido, imagens médicas de ambulâncias para unidades fixas de saúde.

O interesse sobre tecnologias para a prestação remota de cuidados de saúde levou-me a participar no passado dia 27 de Maio, no Infarmed em Lisboa, no seminário ‘Telemedicine and Health ICT in Portugal in Norway’. O evento foi promovido por AdI – Agência de Inovação, Innovation Norway e Enterprise Europe Network. O Health Cluster of Portugal e empresas tecnológicas nacionais também estiveram presentes.

O Ministério da Saúde (MS), como usual em diversos governos, não participou uma vez mais em evento deste género. A ausência é prova do alheamento das autoridades da saúde por soluções inovadoras para a actividade prestadora e a gestão de informação médica.

Mas, esse alheamento ainda mais absurdo se torna, se atentarmos no facto do país parceiro, a Noruega, dispor das mais avançadas soluções tecnológicas, a nível mundial. Tudo resultado do trabalho científico da Universidade de Tromso, da principal operadora de telecomunicações norueguesa, e ainda do NST – National Centre of Telemedicine – estas entidades não têm vocação mercantilista relativamente às infra-estruturas tecnológicas demonstradas.

Com serviços de telemedicina na maioria das especialidades médicas, suportados em tecnologias de informação e comunicação electrónica, o SNS da Noruega garante condições de fácil acessibilidade a serviços de saúde a toda a população. Em Portugal, sem médicos e alternativas, encerram-se unidades de saúde. E um dia até o próprio SNS.

Os Méritos da PT Inovação na Telemedicina

PT é acrónimo muito associado ultimamente a suspeições de negócios duvidosos. Diga-se, porém, que a vida deste grupo empresarial não se confina a sarilhos e à busca de interesses em gabinetes da administração, e outros antros, em torno de poderes e benefícios inerentes à “golden share” do Estado.

Menos mediáticos, mas de interesse público autêntico, os desempenhos da parceria entre a PT Inovação SA e a Universidade de Aveiro, no desenvolvimento tecnológico de soluções de telemedicina ‘Medigraf’, merecem especial distinção.

O País foi informado da conclusão do projecto de telecomunicações LTE (Long Term Evolution) – 4.ª Geração, a utilizar em ambulâncias para comunicação síncrona (tempo real) ou assíncrona (“store and forward”) de imagens médicas. Tornou-se, assim, possível a transmissão remota de imagens de ecocardiogramas durante a viagem de uma ambulância, abreviando, deste modo, o tempo de diagnóstico e da acção terapêutica dos médicos da urgência hospitalar que acolhem o doente.

Tecnologia semelhante é há muito utilizada em comunicação à distância entre dois pontos fixos, o Hospital Pediátrico de Coimbra, Dr. Eduardo Castela, e uma unidade distrital, o Hospital da Cova da Beira, por exemplo.

A PT Inovação avança mais um passo no progresso da telemedicina em Portugal, progresso, aliás, desnecessariamente lento, devido à injustificada falta de um plano nacional do Ministério da Saúde para o sector.

Num País de encerramentos e limitações de actividade em unidades de saúde de zonas de baixa densidade populacional, por alegada falta de meios para garantir serviços médicos, é estranho que o Ministério da Saúde continue a ignorar a telemedicina como uma das soluções possíveis para ultrapassar barreiras de tempo e espaço, ou seja, de acessibilidade a cuidados médicos especializados, por parte de doentes isolados e carecidos desses cuidados.

Com esta abstrusa posição governativa – e não apenas do governo actual – mais justificado é o louvor prestado à PT Inovação SA e à Universidade da Aveiro.

O SAP de Valença -2

O meu texto de ontem ” O SAP de Valença” despertou muita curiosidade e muitos comentários que agradeço. Respondi a alguns, mas valerá a pena voltar ao problema de fundo. Há a possibilidade de termos cuidados médicos próximos? Qual é a melhor forma de o fazer já que é impossível existirem em todos os lugares onde viva gente?

Hoje as comunicações via telefone, fax, telemedicina permitem que muitas das situações possam ser diagnosticadas e tratadas à distância, ou prestar os primeiros socorros , estabilizar o doente e seguir para o lugar certo. O lugar certo é o lugar indicado para onde o doente deve ser encaminhado segundo a sua doença. O lugar onde estão reunidos os meios humanos e ténicos para prestar a melhor assistência. Ora, não é certo ( e não estou contente por ser assim) que o lugar certo seja o lugar mais perto.

Por exemplo, estudos revelam que num acidente, se os socorros chegarem nos primeiros 15 minutos, é possível salvar 80% dos acidentados. E este socorro, por exemplo nas estradas, deve ser prestado por ambulâncias e hélios devidamente equipados que estabilizam o doente e que o canalizam para o hospital mais capaz de lhe prestar assistência adequada que, na mais das vezes, não é o que está mais perto.

A existência de um SAP pode significar uma grande segurança psicológica mas não garante a assistência necessária. Não, porque não é possível ter em todos os lugares pessoal médico , de enfermagem e equipamento que garantam a assistência adequada. É muito mais realista ter transportes com apoio à vida e com pessoal devidamente formado que rapidamente presta os primeiros socorros e acede ao hospital, do que estar a pensar que tem ali à mão um serviço com todos esses meios. Não tem e não é posssível tê-los!

Compreendo que as pessoas se revoltem por ver uma e outra vez os serviços saírem da sua terra, sublinhando a desertificação que se acentua, mas não se deixem enganar por promessas que não são realizáveis.

Proximidade ou qualidade? Ter as duas seria óptimo mas não é possível!