Al Jarreau (1940-2017)

A vida vai-me matando a adolescência ou, como teria dito o Manuel Dias, está a morrer uma data de gente que nunca tinha morrido. O cantor que era também músico: uma voz que falava, cantava e tocava, tudo ao mesmo tempo, em muitos géneros.

 

Hoje dá na net: Bobby McFerrin and guests

Concerto de Bobby McFerrin, o homem-instrumento celebrizado por “Don’t worry be happy”, no Burghausen Jazz Festival, em 2002. Maria João é uma das convidadas.

Pensamentos XXXI e XXXII

XXXI

Abre uma garrafa de vinho e deixa-o respirar. Se, passado um pouco,

não o ouvires respirar, bebe-o, antes que morra.


XXXII

Levanta bem alto a tua voz.

Mas não tanto que a possas deixar cair.


Conheça o primeiro Caderno de Pensamentos do Sr. Anacleto da Cruz.

E quem não vê caras pode ver corações?

Por volta dos meus 14 ou 15 anos, vivi um curto período de campeã de concursos radiofónicos. Com o beneplácito e a colaboração da minha mãe, que deve ter achado que melhor isso do que meter-me nas drogas, fartava-me de ligar para tudo quanto era concurso de rádio e em poucos meses amealhei dezenas de prémios, nenhum deles de grande valor monetário, mas todos muito bem-vindos. É justo dizer que nenhuma dessas vitórias teria sido possível sem a introdução em nossa casa de um telefone de teclas, supra-sumo da evolução tecnológica nesse início da década de 1990, e sem as enciclopédias que o meu pai comprara nas Selecções do Reader’s Digest, e nas quais eu encontrava num ápice resposta a questões como “quem inventou o nónio?” ou “que rio banha Praga?”. E assim, em poucos meses, a minha mãe – que se juntava a mim aos fins-de-semana – e eu ganhámos óculos de sol, bilhetes para espectáculos, vinis, CDs, tortas de noz e bolos-rei, e muitas outras coisas de que já não me lembro. Por essa altura eu não tinha locutores favoritos (viria a ter, anos depois, o Aurélio Gomes), mas a minha mãe apreciava em particular o galã radiofónico de uma estação do Porto, que falava com voz de cama, e a quem ligavam algumas senhoras que, entre sussurros melosos, confidenciavam que estavam a ligar da banheira, num banho de imersão com pétalas de rosa, e coisas semelhantes. Um dia ganhámos um concurso promovido pelo dito senhor, e tocou-me ir levantar o prémio. O meu pai, que nessa tarde estava livre, acompanhou-me e a minha mãe, que tinha de trabalhar, roeu-se de inveja mas fez de conta que tanto lhe fazia.

Fomos recebidos por um matulão de cento e tantos quilos, vestido com uns calções de explorador, com umas unhacas a sair das sandálias, e que para meu espanto tinha a mesma voz do locutor sexy. A primeira coisa que me ocorreu é que se trataria de uma partida, um estranho ventriloquismo que faziam para troçar com os ouvintes ingénuos. Não era, claro. Era mesmo ele. Se as senhoritas da banheira o pudessem ver, meteriam a cabeça na água e deixar-se-iam afogar. Felizmente o meu pai, deliciado com a descoberta, estabeleceu a conversa diplomática que havia que estabelecer, já que eu fiquei muda, assombrada pela voz que saía daquela cabeça à qual era claro que não podia pertencer. Nesse dia desisti dos concursos de rádio. E prometi que nunca mais quereria conhecer qualquer pessoa a quem eu tivesse imaginado antes, intuindo já por essa altura que esse encontro estaria condenado ao desencanto. Claro que viria a quebrar essa promessa anos depois, mas isso é outra história. Vem isto a propósito de eu ter visto aqui há dias, no Facebook, a fotografia do nosso Adalberto Mar, enfant terrible do Aventar, perpetuamente do contra, ágil a deitar abaixo qualquer uma das nossas paixões musicais, literárias, cinematográficas, desportivas, arquitectónicas, digam vocês (isto em português não soa tão bem quanto “you name it”, verdade?) e que tem um ar tão cândido e de boa pessoa que eu até pensei que devia haver engano. Onde estão o bigode mefistofélico, os cabelos revoltos de endemoninhado, o olhar incendiado pela indignação, a turbulência que o faz GRITAR-NOS com o Caps Lock ligado? Como é possível que a foto que nos surge seja a de um simpático moço em passeio pelas ruas de Aveiro? Isto de partilhar um projecto com alguém a quem não se conhece o rosto ou sequer a voz espicaça a imaginação e faz-nos hesitar entre o desejo e o receio de chegar mais perto. Claro que os outros também são aquilo que pensámos deles, o que avaliámos de acordo com experiências passadas e às quais eles muitas vezes são alheios, o que imaginámos e interpretamos, o que intuímos e inferimos, e julgamos com ou sem justiça. Mas essa também é a graça de nos relacionarmos com aqueles cujo rosto não conhecemos, não é?