A Década das Redes Sociais:

Este texto foi (ou vai ser) publicado no semanário Primeira Mão e foi escrito no passado dia 29 de Dezembro. Porém, ao ver ontem o programa Eixo do Mal da SIC Notícias, cuja escolha foi idêntica, decidi partilhar com o Aventar esta minha opinião de facto mais relevante da década finda. E já agora: qual foi, para vocês, o facto mais relevante?

Quando se olha para trás e se pensa em tudo o que passou de 2000 até 2009 podemos sempre procurar fazer uma escolha, subjectiva, daquilo que foi mais relevante. O 11 de Setembro e o terrorismo Islâmico, a eleição de Obama, a campanha pelo ambiente e nesta a forte componente mediática de Al Gore, a China e as restantes potências emergentes (Índia, Brasil, etc.), o Iraque, o Euro e o alargamento da União Europeia, a crise internacional dos últimos anos, entre tantos outros factos relevantes.

A ter de escolher um e apenas um, não posso deixar de sublinhar a força adquirida por um dos mais relevantes fenómenos da Era Digital: as Redes Sociais. Basta pensar num dado impressionante: o número de utilizadores das redes sociais na internet é de tal grandeza que, se todos habitassem no mesmo país, este seria o 3º mais populoso do planeta. O Myspace, o Facebook, o hi5, a blogosfera, o Orkut, o YouTube, o Twitter, o Flickr, o Second Life ou o Linkedln, fazem parte do quotidiano de milhões e milhões de pessoas, instituições e empresas. No caso português, somos o 3º país europeu com maior penetração das redes sociais (fonte: Comscore).

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Fujimori do Peru, que raio de homem és tu?

25 anos de prisão por violações dos direitos humanos enquanto esteve no poder, e que incluíram raptos e massacres de civis. Foi confirmada pelo Supremo Tribunal a sentença que Alberto Fujimori, ex-presidente do Peru, já tinha ouvido em Abril de 2009.

De Fujimori devem lembrar-se da aparição à Rambo durante o longo sequestro na Embaixada japonesa, que acabou com ele a passear entre os corpos dos sequestradores.

Do que eu melhor me lembro é de um longínquo Herman TSF que começava com esse grito de indignação:

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Pão e vinho

Lembrei-me de escrever este artigo, a propósito da “missa do galo”.

Sou membro da igreja católica, baptizado, comungado e crismado por opção própria, coisa que nem qualquer católico se pode gabar.

Embora nunca tenha sido muito dado a missas – porque raro é o padre que consegue cativar a minha atenção com o seu discurso -, o certo é que tenho desde há muito um complicado sentimento contraditório quanto aos rituais da missa.

Por um lado aprecio o modo cuidadoso com os padres tratam das questões de “menage”. O modo como limpam o cálice do vinho e o prato da hóstia no fim de cada comunhão cuidando das migalhas e do asseio dos utensílios.

É, sem dúvida, um bom exemplo até mesmo para os homens casados e que, estou certo, as mulheres apreciam.

Por outro lado, quanto aos modos como se realiza a comunhão, acho, com o devido respeito, que não são os melhores. Entendo mesmo que violam o princípio da igualdade apregoado pelo ideal cristão, e acaba por ser um entrave á participação de mais gente nas missas e á concretização de uma das mais importantes missões da Igreja, além da evangelização.

Primeiro porque só o padre bebe, o que acho mal pois a hóstia não se pega só no céu-da-boca dos padres, mas sim de toda a gente. Além de que o vinho é produto nacional e há todo o interesse em promover o seu consumo, desde que com moderação.

Em segundo lugar, porque a distribuição daquela película que é a hóstia, não satisfaz o paladar e muito menos o estômago. Obviamente que a hóstia tem um valor simbólico, e deverá ser encarada numa perspectiva litúrgica. Mas se Cristo dividiu pão, deveria ser o pão, e não aquela coisa que se cola na boca, e, pior, nas próteses dentárias dos crentes.

Pão e vinho, sempre com moderação, deveriam ser os elementos da comunhão. Porque essa é a raiz histórica, e essa é uma das missões maiores do cristianismo: matar a sede e a fome ao próximo.

A tal história

A tal história

 A tal história é muito simples, Carlos. Verdadeira em tudo até nos nomes. É tão real e conhecida na aldeia que não afecta ninguém, se a contar. E conta-se em duas palitadas. Trata-se de um sujeito da minha terra que foi meu doente durante anos e cuja vida conheci, quase do princípio ao fim.

Tinha como alcunha o “palheira”. Era porqueiro, andava com uma carroça a vender e a comprar porcos. Um dia resolveu ir até África, de onde regressou anos depois com uma pequena fortuna, muito grande se comparada com os parcos haveres da nossa aldeia. Vestia bem e comprou um volvo, vermelho e branco, estou mesmo a vê-lo, coisa rara pelas redondezas, e passou a ser o Sr. Tavares, criando em seu redor imensos amigos que o bajulavam e o acompanhavam para onde quer que fosse.

Alguns anos passaram e entre o não fazer nada e o jogo, a fortuna foi-se esvaindo até dar o último suspiro. O Sr. Tavares voltou lenta e insidiosamente a ser “o palheira”, e os amigos sorrateiramente foram debandando, até não restar um único. Só não voltou a carregar porcos na carroça porque, entretanto, a morte, bondosa como é, para não o humilhar com a miséria, se encarregou de o levar para a vida eterna, como “palheira” e não como Sr. Tavares.

A opinião de Luis de Camões sobre o acordo ortográfico

Como em qualquer polémica há argumentos para todos os gostos. Os argumentos idiotas, de um lado ou do outro, irritam-me. Na imagem temos a ortografia de Luís de Camões, ou para ser exacto das primeiras edições impressas da sua obra que o manuscrito não chegou aos nossos dias, demonstrando o ridículo deste argumento:

Uma banda de infiéis à obra-prima que possuímos, a nossa bela língua portuguesa, tal como a praticavam Eça, Camões, Pessoa, Camilo, Aquilino, Miguel Torga e tantos e tantos outros, (…)

E não é  que de todos os autores citados apenas o otorrinolaringologista terá publicado em vida com as actuais normas ortográficas?  Chama-se desonestidade, a invocação da nossa língua como sendo o que sempre foi neste caso no capítulo da grafia, mas também se pode chamar ignorância, ou nacional-parvoísmo, que é a mesma coisa.

Suícidas sem experiência…

…é por isso que morrem, se tivessem experiência safavam-se. Quem tambem morre por falta de experiência são as vítimas dos atentados. Quem não morre mesmo são os experientes, que cheios de patriotismo e de braço dado com os deuses, vão mandando para a morte , um após outro, inocentes e inexperientes!

Os Muçulmanos são mandados para a morte ao abrigo das delícias do paraíso, os Americanos caminham para a morte à espera de uma renda vitalícia.

A única maneira de sair disto é, aos primeiros , mostrar-lhes que não há deus nenhum que exija o seu sangue e, aos segundos, que não há conforto nenhum que mereça o seu sacrifício. E, de um lado e outro, acabarem com os “vendedores de promessas”.

Sempre que eu abordava o meu pai no sentido de fugir à tropa e à guerra, o meu pai chorava, como se fugir para França equivalesse a perder-me…

Um dia, com uma grave depressão, ainda na tropa, consultei um médico civil que me  ouviu calmamente e me disse serenamente : “tenho três filhos que estão em Paris, eu próprio os levei lá. Filho meu não veste fardas nem vai para guerras.”

Só a cultura faz homens livres!

Língua

A contribuição de Caetano Veloso para o debate.

Língua

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala! [Read more…]

E é este o estado do sítio

Ontem, durante uma conversa com um grupo de amigos, cheguei a uma conclusão. Actualmente, o país está dividido em cinco tipos de pessoas:
1- As pessoas que estão a favor do casamento gay
2- As pessoas que estão contra o casamento gay
3- As pessoas que sim senhora, mas que não se chame casamento
4- As pessoas que querem o referendo
5- As pessoas que acham que o país tem mais com que se preocupar

E agora há uma sexta categoria que é a categoria de pessoas que faz ver que actualmente há cinco tipos de pessoas em Portugal. Que sou eu.

Uma Cozinha no Douro

Os meus companheiros(as) do Aventar já sabem da minha paixão pelo Douro. Eu, um menino da cidade, nado e criado no Porto (Areosa) casei com uma duriense e mal pus a vista em cima do Douro Vinhateiro fiquei como aqueles senhores da UESCO: perdidamente apaixonado.

Uma das minhas perdições no Douro é o famoso D.O.C. e o seu genial Rui Paula. Não tenho por hábito, fruto de um certo pudor adquirido em casa, falar sobre este ou aquele restaurante, hotel ou outra qualquer extravagância pessoal. É reserva mínima de intimidade e um certo horror a uma qualquer cedência ao novo-riquismo tão típico dos dias de hoje. Dou um exemplo: muitos amigos tecem loas ao bife do cafeína (restaurante ainda da moda no Porto) e eu, típico labrego da Areosa, lá fui qual carneirinho experimentar o naco. Absolutamente banal, excepto no preço. O Aleixo (Campanhã-Porto) ou o Rodrigo (Maia) por metade do preço fazem a festa, deitam os foguetes e apanham as canas. Enfim, modas. E foi com esta ideia pré concebida que entrei, pela primeira vez e de pé atrás, no D.O.C.

O espanto que se apoderou de mim ao longo da refeição (provavelmente deglutida sempre de boca aberta para horror dos restantes comensais) transformou-se em êxtase absoluto no término da mesma. E sempre que regresso já não fico espantado, podendo assim comer de boca educadamente fechada, mas permanece o arrebatamento. O D.O.C. é, tal qual os patamares de vinha que nos fazem companhia ao longo da refeição, um verdadeiro Património da Humanidade e o melhor restaurante de todo o Douro e Duero, de Soria à Foz. O Rui Paula é um génio e aos génios tudo se perdoa, até os devaneios mais recentes: vai abrir um novo poiso gastronómico no Porto, no velho burgo. Um desvario. O D.O.C. não é só a comida, a excelência da dita, nem o primor do serviço ou a revolução que desencadeou, gastronomicamente falando, na região ou a partilha da carta com o próprio Rui Paula e a sua maravilhosa companhia. O D.O.C. é tudo isto por junto mas misturado com a paisagem em seu redor. Depois, depois é o Douro, provavelmente o único lugar do mundo capaz de transformar a minha Areosa, o meu Porto, a minha Maia em mero local de fugaz poiso de fim-de-semana ou de uma ou outra escapadela de férias ou de peregrinação ao Dragão – a melhor sala de espectáculos do país. Sim, sim que o Ano é novo e o final de 2010 será, espero, o princípio dessa mudança. Daí não aceitar que o Rui Paula me troque as voltas à “cantina duriense”.

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Lusitana gente

 

Este texto não é meu, é de um grande amigo meu, Dr. José Maria Soares, oftalmologista, que gentilmente mo enviou. Espero que não levem a mal o facto de eu aqui o colocar, mas achei que tinha piada e oportunidade.

Lusitana gente

 Deu-me hoje para pensar no título camoniano deste artigo, e também no porquê de através dos séculos nos considerarmos descendentes destes aguerridos habitantes da península ibérica. Quanto a mim, nada de mais falso impregna esta descendência.

No tempo da moca e do silex passaram por cá os iberos seguidos pelos os celtas, já mais civilizados, que os venceram, e aos quais se associaram sob o nome de celtiberos.

 Dado estarem no fim do continente europeu, os vencidos não poderiam deslocar-se mais para ocidente. Ou eram exterminados ou se juntavam aos vencedores, debaixo das condições por estes impostas. Seguiram-se os lusitanos que ocuparam uma faixa de território que ia um pouco acima do Douro, se prolongava até Évora (?), abaixo do Tejo e se continuava pelo que é hoje território espanhol: Andaluzia e Castela. [Read more…]

O acordo pode ser mais ou menos?

Esta questão coloca-se muitas vezes na nossa vida corrente. Mantenho a minha vida confortável, o cantinho, os livros, os filmes, as viagens, enfim, o que conheço, ou largo tudo e vou atrás de uma paixão ?

No acordo, deixo-me estar a fazer o que conheço, mal ou bem, assim-assim, escrevo como sempre escrevi ou largo essa segurança e lanço-me na aventura de conhecer, analisar, escolher, descobrir?

Peço desculpa por não estar no tom solene que o assunto exige, mas a verdade é que cá para mim, este acordo serve, mais ou menos, para pôr algum padrão, alguma ordem, nas muitas e diversas formas que a vida, a real das pessoas, foi introduzindo na escrita e na fala e que vai continuar a pôr, quer os senhores doutores queiram ou não.

Mas se há palavras que apetece mesmo mudar, torná-las mais simples, há outras que não dá jeito nenhum andar a mudá-las. Por exemplo, Baptista! Dá mesmo vontade fazer desaparecer de vez com o “p” e tornar a coisa num Batista, bem mais legível. Mas, ao contrário, o que se fará com “facto” ? Passa a “fato” ? Eu apontei esse “fato” como importante para a discussão ! Qual, o azul?

Pelas razões apontadas ando muito desorientado e ansioso à espera dos conselhos ( o concelho também muda? estão a ver a confusão) dos “experts” (pecado! ) “connaisseurs ” (pior), académicos para me dizerem o que o povo deverá falar e escrever.

E voltando à imagem inicial, não é possível manter os cantinhos todos e arranjar uma namorada ?

Isto é, um acordo mais ou menos?

Poesia & etc. – Gira, gira…

Às vezes não vejo os vídeos que acompanham os textos e, portanto, compreendo que, relativamente aos vídeos que coloco, haja leitores que façam o mesmo. No caso de hoje, peço o favor de escutarem esta interpretação do tango «Yira, Yira» por Carlos Gardel, pois é importante ouvi-lo para compreender o que quero dizer:

Num texto de uma outra série, contei-vos os trabalhos que passei para traduzir um livro do grande escritor argentino Ernesto Sábato, («Heróis e Túmulos»). Estudara língua e literatura castelhana, mas a cada passo surgiam vocábulos que desconhecia e que os dicionários, incluindo o da Real Academia, não registavam. Escrevi então ao Sábato dando-lhe conta da minha dificuldade e ele, muito amavelmente, enviou-me um extenso glossário com termos argentinos e, inclusivamente com modismos «porteños», ou seja, bueno-airenses.

Na letra do tango cantado pelo Gardel, existem casos desses. A começar pelo título, Yira, Yira (pronunciado de forma semelhante á do português) – em castelhano dir-se-ia «Gira, gira», pronunciando-se como fonema fricativo velar surdo – velar, por ser articulado junto do véu palatino (os portugueses quando querem falar portunhol, resolvem o problema, transformando o «g» ou o «j» em «r» – exemplo – rúlio iglésias). [Read more…]

A língua portuguesa e os acordos ortográficos

1 de Janeiro deste ano de 2010 era a data prevista para a entrada em vigor do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. No entanto, nada de concreto foi ainda avançado. Isabel Alçada, ministra da Educação, limitou-se a dizer que, no sistema de Ensino, o Acordo vigoraria no «início de um ano lectivo». Em que ano? Adiantou também que há adaptações a fazer, no plano técnico e no humano. Que adaptações? Reina, pois a indecisão. Enquanto esperamos, falemos um pouco sobre a fixação do idioma e na história dos Acordos Ortográficos.

O único documento que nos ficou do português proto-histórico, no que se refere à linguagem não literária, é um texto notarial, a «notícia de torto». Mais ou menos pela mesma época, em 1214, foi redigido o testamento de D. Afonso II que utilizou pela primeira vez o português em detrimento do habitual latim. No que respeita à linguagem literária, existem mais pistas. Carolina de Michaëlis datou de 1199 a cantiga «Ay eu, coitada, como vivo» que a investigadora atribuiu a D. Sancho I (1185.1211). No entanto, não existe consenso quanto a esta atribuição, há quem indique como autor Afonso IX de Leão (1188-1230) ou mesmo Afonso X, o Sábio, de Leão e Castela (1252-1284). Como se sabe, a língua literária, por excelência, da corte leonesa era o galego-português. [Read more…]

Para o que dá uma reforma de 35 000

em moeda europeia, fora os 10 milhões que recebeu à cabeça? para demonstrar o espírito muito católico do esbanjamento, neste caso provando por arrasto que o acesso à Justiça além de ser um privilégio ainda pode ser um entretenimento supérfluo e aristocrático:

Paulo Teixeira Pinto apresentou uma queixa-crime contra o coordenador do Bloco de Esquerda por este ter comentado, no dia 5 de Outubro de 2009, que uma iniciativa da Causa Real – o desembarque no Terreiro do Paço e um cortejo nocturno aos gritos de “Viva a Monarquia” – era uma acção “patusca” promovida por “um banqueiro milionário” associado ao período do colapso da liderança do BCP

Nem discuto o conteúdo da queixa, basta ser óbvio que está perdida e ainda beneficia a imagem de Francisco Louçã.

Há quem tenha dinheiro para não ter mesmo mais nada que fazer.

Se lhe picou a mosca que transmite a processomania e se mete a processar críticos de arte ou de poesia, tomando o gosto ao processozinho que se mandou fazer ao adversário político, está o caldo entornado. É que a processomania quando dá nos pobres é doença, mas nos ricos, nos ricos não sei se tá a ver mas é um tiquezinho sem importância. Então processar comunas tá muito na moda, não sabia?

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Apontamentos de Inverno (9)

Ponte da Barca

(Rio Lima, Ponte da Barca)