Todos de acordo com Cavaco!

Os partidos estão todos de acordo com o que o Presidente disse na sua declaração de Ano Novo.

E o que é que ele disse?

-Economia baseada na produção de bens transaccionáveis e competitivos com os produtos estrangeiros.

-Finanças Públicas equilibradas, especialmente a dívida externa e o déficite

-Apoios sociais numa situação de tão alto desemprego

E então?

O “cassete” Assis jurou a pés juntos que os investimentos no TGV não prejudicam em nada a dívida, e tornam altamente competitivos os bens transaccionáveis que não temos.

O “eterno” Guedes diz que é exactamente o que o PSD anda a dizer desde que se conhece e, é por isso, que não cumpriram o acordo sobre a Justiça (sem o que não há desenvolvimento)

O “medicinal” Semedo observa e bem, que é por estarem atentos que dão prioridade ao casamento gay.

O “obscuro” Macedo diz que o Dr. Portas depois fala sobre o assunto

O deputado ? do PCP que eu nunca vi antes, diz que sim mas só se for como eles querem.

Claro que o Presidente, aproveitou a oportunidade para colocar o comboio nos carris, é preciso chamar para o centro do debate os verdadeiros problemas, que são muito dificeis e, é por isso, que nós assistimos a manobras de diversão todos os dias.

O Orçamento, peça essencial da política a implementar, está no segredo dos deuses, vem aí borrasca e da grande, é preciso garantir que nos próximos anos os grandes negócios não tenham margem para voltar para trás, mesmo com alteração da cor política do governo.

Cavaco tem agora uma tarefa fácil, já marcou o terreno, na verdade, o caminho é muito estreito e não há margem para invenções.

E as instituições internacionais tambem já começaram a empurrar na mesma direcção.

A real orquestra Sinfónica de Viena

Todos os anos, o mais belo espectáculo televiso, é transmitido no dia 1 !

É só despachar o almoço ( ainda cheios da noite anterior não custa nada ) procurar um lugar sossegado e deixar-se ir nas asas geniais da música de Mozart, Strauss, Malher, Haendel…

Num ambiente de uma beleza indescritivel, com gente bonita e culta que esgota a Ópera de Viena seis meses antes (belíssimo edificio, só para o visitar é preciso pagar, e nas suas cercanias actores vestidos a preceito, vendem e dão a conhecer tudo sobre a história daquele edificio) e executada por músicos exímios, a música de sempre tem um efeito de “levitação” que muito poucas vezes alcançamos.

A Companhia de bailado, com os artistas a dançarem nos largos e belos salões , a participação do público (profundamente conhecedor) em sintonia com a orquestra e o maestro (o maestro de hoje tem 83 anos), as vozes belíssimas dos jovens do “Coro de Viena ” todos com menos de catorze anos, constituem um espectáculo admirável que nunca perco.

E não acreditem que seja preciso saber música ou a história da música ou o ano de nascimento de Mozart…

Ajudar a manter a miséria?

Os sinais são já nitidos e nos próximos dez anos vão tornar-se ainda mais claros. O eixo do mundo económico e financeiro está a rodar, deixando a UE e os US e movendo-se na direcção dos BRIC ( Brasil, Rússia, Índia, China ).

Este movimento faz-se à custa de fronteiras sem barreiras e tambem da miséria da população trabalhadora daqueles países emergentes.

Os BRIC são já quem tem grande parte da dívida externa dos US, são quem compra e são proprietários de grandes empresas internacionais autênticos “icones” do capitalismo Ocidental.

Não podemos aceitar que estes movimentos globais  se façam à custa de preços muito mais baixos que os conseguidos no Ocidente, porque resultam de políticas de repartição muito desiguais, o que leva a que os US e a UE estejam, literalmente, a alimentar sistemas instalados nos BRIC que se baseiam numa enorme miséria da classe trabalhadora.

A continuar assim, será o Estado Previdência que pode estar em causa, a maior vitória social dos povos , desde sempre. Tem sido a partir da luta dos trabalhadores que os maiores avanços sociais têm sido conseguidos, no quadro mais amplo do Estado Social .Ora, sem os mesmos  apoios sociais do Ocidente ,esta luta global trava-se em condições muito injustas para os trabalhadores explorados até à miséria naqueles países emergentes.

Hoje, tambem é evidente que o desenvolvimento apoiado no petróleo, tem os dias contados, o preço/barril vai chegar aos 200 dólares, o que coloca em cima da mesa a questão de saber se os países emergentes estão dispostos a travar o seu desenvolvimento a curto prazo, para dar ínicio a uma nova era de desenvolvimento sustentado.

Para os países Ocidentais essa substituíção é muito mais dificil, porque toda a economia está apoiada em estruturas e logística que derivam do petróleo e seus derivados. Copenhaga já mostrou as profundas divergências e não se chegou a acordo.

A muito curto prazo a globalização será posta em causa, os países emergentes não estão dispostos a prejudicar o seu desenvolvimento, melhorando drasticamente o nível de vida das suas populações, o que vai levar os países ocidentais a fazerem movimentos de anti-globalização , no sentido de nivelar os custos e a qualidade dos produtos e bens!

Qual será a opção? É justo que a globalização se faça apenas ao nível do comércio livre, ou tambem é exigível que os trabalhadores daqueles países alcancem um nível de vida decente?

É que não há “jeanes” a dois euros…

Memória descritiva: Aquarela do Brasil – a mentira getulista

Memória descritiva, foi o título que dei a um poema incluído no meu livro «O Cárcere e o Prado Luminoso» (1990). Publiquei-o aqui, semanas atrás. Como se sabe, esta é a designação dada aos estudos preliminares de arquitectura, onde se define basicamente a tipologia do projecto, materiais a utilizar, tipo de acabamentos, etc.. O sentido aqui é diferente, mas também muito literal – a memória, a minha e a dos autores que leio, vai passando para pequenos textos – «memórias descritivas». Hoje, escolhi como tema a «Aquarela do Brasil», a canção de Ary Barroso. Já verão porquê. Primeiro, ouçamos a bela interpretação de Gal Costa.

No ano que acaba de terminar passam 70 anos sobre a composição por Ary Barroso de «Aquarela do Brasil». O hino nacional brasileiro foi criado por Francisco Manuel da Silva (1795 – 1865). Pois, para muitos «Aquarela do Brasil» é o como que um outro hino do país. Numa sondagem organizada pela Academia Brasileira de Letras, a «Aquarela» ficou em primeiro lugar. Continuar a ler “Memória descritiva: Aquarela do Brasil – a mentira getulista”

A EDP não tem culpa…

Não tem culpa do temporal diz um senhor com um ar muito sério, os postes foram feitos para aguentarem ventos  até100 kms/h, se houver ventos acima dessa velocidade a culpa é dos prejudicados que levam com os postes em cima.

Isto é, a EDP coloca os postes por cima dos bens do pobre cidadão, que não é tido nem achado e depois ele que aguente com os postes e com os prejuízos.

Esta é a forma como estas empresas monopolistas, que ganham milhões no mercado interno sem concorrência, que absorvem as mais valias de quem trabalha, olham para o cidadão/contribuinte.

A falta de respeito pelas pessoas está aqui bem retratada por este senhor que não tem vergonha de apresentar uma justificação destas. É a irresponsabilidade, a prepotência, isto é uma forma rasteira de alijar responsabilidades, por uma empresa gigante que pratica os preços que quer a ponto de andar a investir em energia verde nos US, enquanto em Portugal constrói barragens e compra carvão ao estrangeiro.

É como andar de carro à chuva, bater num carro estacionado e depois apresentar a factura ao temporal. O prejudicado esse, vai ao totta…

A máquina do tempo: em demanda de Eça* (5)

Eça está visivelmente cansado. Sem embargo da lucidez com que continua a responder, interrompe-se frequentemente para respirar, para tossir. À porta surge a D. Emília fazendo-me sinais para que termine.

– Uma última pergunta. Ao cabo destes anos de luta pela língua e pela literatura portuguesas, sente-se devidamente recompensado?

– Sabe, se eu tivesse nascido em França e dado romances ao Petit Journal, possuiria talvez 60 000 francos de renda.

– Sente-se então arrependido.

– De certo modo… a guerra da literatura é uma luta bem vã quando se empreende com uma pena na mão, em língua portuguesa. Todo o meu erro foi, quando era moço e forte como você, não estabelecer uma mercearia para o que aliás tenho jeito e gosto. Estava agora gordo e sossegado, com o toucinho que cobriria o meu balcão e, se você por lá aparecesse, eu diria com delicada superioridade: «Ó Sr. jornalista, temos aqui um queijinho que é de se lhe arrebitar a orelha. E seria o céu aberto! Mas enfim, agora é tarde para chorarmos sobre carreiras erradas…

– Arrependido?

– Não, meu amigo. Chalaceava apenas. E quando, há dois anos, cheguei à minha janela do Rossio para ver o cortejo cívico do centenário de Camões e a multidão me aplaudiu, senti que, afinal, nem tudo tem sido em vão.

Da porta, D. Emília com sinais mais incisivos, exige-nos que terminemos. Muita coisa falta ainda perguntar a Eça. Porém, o seu ar fatigado, a tosse, a voz que enfraquece, não aconselham a que continuemos. Agradeço a afabilidade com que nos recebera e se prestara a responder ás nossas perguntas. Confessa-nos que sempre teve paixão pelos jornais e que, na realidade, me considera um camarada de profissão, pois também ele na juventude fez jornalismo. Agradecemos, despedimo-nos, desejamos melhoras. Julgo ter conseguido disfarçar a enorme tristeza que a visão da ruína física de um espírito tão brilhante em mim provoca.
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De regresso ao centro de Paris, o Sousa lá me convence a sacudir a angústia que a visão de um Eça moribundo me causara e a dar uma volta pela Exposição. Uma vasta área, entre a Concórdia e o Campo de Marte, com pavilhões e palácios fantásticos. Uma viagem reproduzindo o caminho-de-ferro Transiberiano, entre Moscovo e Pequim, um cruzeiro pelo Mediterrâneo, a projecção num ecrã com quase trinta metros de largura dos filmes de Louis Lumiére, etc.. etc. Subo ao cimo da Torre Eiffel. À noite, a «fada Electricidade» que preside à Exposição, surge sob a forma de dezenas de milhares de lâmpadas num espectáculo feérico, inesquecível . Continuar a ler “A máquina do tempo: em demanda de Eça* (5)”

Este é que vai ser. Se não for, fica para o ano

2010cartoon

É desta que é. A partir de hoje tudo (vá lá, quase tudo muda). Ano novo, vida nova. Estou e sou diferente, graças às minhas resoluções de ano novo. É tempo de deixar velhos vícios e más atitudes no passado e apresentar o meu novo ‘eu’.

A partir de hoje vou passar a ter mais tempo livre, para a família e amigos, ler mais livros, dedicar mais atenção aos jornais, aos blogues, ver ainda mais cinema e séries de televisão de qualidade. Vou passar a comer menos mas muito melhor, a fazer mais exercício. Vou viajar mais. Vou, claro, aprender coisas novas. Talvez fazer algum voluntariado e organizar o meu tempo de forma mais eficaz.

É garantida uma vitória no Euromilhões. Vou finalmente cumprir os meus sonhos, pelo menos aqueles que se compram com dinheiro. Este ano é que vai ser.

Ou então, não. Mas se não cumprir todas estas resoluções de ano novo, neste ano novo, é certinho que vão ficar para o próximo. Sim, daqui a um ano é que vai ser.

Ah, que saudades tenho do futuro.

Cartoon de Petar Pismestrovic, Kleine Zeitung, Austria

Uma foto com história: o Gigante de Manjacaze

Gigante Manjacase

Não se pode viver apenas do comentário da política e das vicissitudes de uma penúria que todos bem conhecemos e à qual tacitamente há muito nos resignámos. Assim, para começar o ano, aqui deixo este pequeno apontamento de um passado que conservo na memória
1968, arredores de Lourenço Marques. Era habitual a organização de convívios “à portuguesa”, onde não podiam faltar as sardinhas, a broa, os grelhados – onde pontificava o frango à cafreal – e o vinho da Metrópole, conhecido como “água de Lisboa”. Já Charles Boxer, na sua obra dedicada ao “Império Marítimo Português“, realçava a particularidade da colonização lusa, de recriar noutras paragens, aquilo que para trás deixara na Europa. Cidade cosmopolita, de arquitectura arrojada e avenidas grandiosas, a capital de Moçambique destacava-se na África Austral. Local aprazível para viver e trabalhar, era também, o local ideal para as crianças, onde a praia, os jardins, cinemas e campos de jogos, preenchiam as férias grandes de todos nós.

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