O Diário do Professor Arnaldo (2 de Novembro)


Hoje fiquei boquiaberto. Numa turma de 7.º ano, uma aluna estava a enviar bilhetinhos, através de uma colega, para um rapaz. Não é uma aluna brilhante, mas geralmente porta-se bem e é muito educada.
Como é óbvio, interceptei o bilhetinho e fiquei com ele. Por mera curiosidade, abri para ver o que estava escrito. Fiquei tão espantado, tão sem palavras, que rapidamente o meti ao bolso. Devo ter corado, porque um dos putos da frente perguntou logo:
– O que diz, setor?
Mudei de assunto e tentei fingir que nada tinha acontecido. Reparem: era uma turma de 7.º ano e uma miúda de 12 anos, educada e bem comportada. E sai-me aquilo que nunca esperei ler. Antes de o entregar à Directora de Turma, tirei uma fotocópia.
Sinceramente, estou escandalizado. Nunca pensei que as coisas tivessem chegado a este ponto. Com crianças de 12 anos e numa terra de província. Felizmente, não tenho filhas…

Comments


  1. Realmente… dar erros ortográficos com essa idade! Onde iremos nós parar, ehehehehehehe…

  2. xico says:

    Pois escandalize-se à vontade.
    Eu ouvi, há já bastante anos, que trabalhadores das obras iam à porta do liceu, numa pequena vila de província, pagar a meninas do mesmo ano que a do papel, para lhes fazerem o que a do papel dizia que fazia. Elas dispunham-se a isso porque queriam o dinheiro para comprarem o que estava na moda.
    Se davam erros ortográficos, não sei.
    Infelizmente tenho filhas, e levavam sermões quando as ia buscar à escola, depois de ver o que as colegas e os colegas faziam ali à frente da indiferença de todo o mundo à porta da escola.
    É o mal de se ter pensado que a escola tem de ser um lugar democrático.


  3. Uma coisa que aprendi no primeiro ano em que dei aulas foi nunca abrir um bilhetinho dos alunos … o colega também já aprendeu… agora a sério: os alunos, as crianças desssa idades sabem coisas que nem nos passam pela cabeça… são vidas que ninguém “domina”… mas não são todos iguais , eu quero crer que não…

  4. Sara says:

    Francamente nem sei se me choca mais o que está escrito, se os erros ortográficos. Calculo que ambos tenham o mesmo responsável: o estado a que o ensino chegou no qual se torna mais importante a educação sexual do que a educação intelectual.


  5. É sem dúvida o estado a que chegou o ensino e a sociedade em geral. O mal não está na linguagem da miúda, igual à linguagem de todos os miudos, igual à “linguagem” dos pais, igual à “linguagem” dos professores igual à “linguagem” e prática de padres e bispos, igual à “linguagem” da monumental hipocrisia social. Uma “linguagem ” que encheu de merda os neurónios do homem de hoje. O mal está em que as alternativas sérias e formadoras a toda esta decrepitude social, as escalas de outros valores humanos e educativos que a estes se sobreponham naturalmente, as peças originais da construção do nobre puzzle humano se perderam, ou andam pelas ruas da amargura.

  6. Alfredo says:

    Caro Professor Arnaldo, esclareça-me por favor a sua última frase. Não está a querer dizer que se fosse um rapaz de 12 anos a escrever o bilhetinho já não haveria problema, pois não? Quando eu tinha 12 anos (há bastante tempo) os rapazes também faziam coisas semelhantes. Se agora as raparigas também o fazem é sinal que foram dados passos no sentido da igualdade de género. Também gostei da atitude descomplexada perante o sexo. Acho mais saudável assim do que ter estudado uma versão dos Lusíadas com nove cantos e a aprendizagem sexual ter sido uma espécie de navegação de cabotagem.

    Agora há aspectos preocupantes a que não faz referência:
    – Erros ortográficos. Ao contrário do segundo, o primeiro erro denota falta de leitura. Quando alguém está a escrever uma palavra em Português com “sh” deveria soar uma campainha de alarme, que não soaria se tivesse escrito “broxe” e não soa quando se escreve “fuder”. Também pode dar-se o caso de maior exposição à língua inglesa, contudo alguém deveria reflectir sobre a eficácia do pomposo Plano Nacional de Leitura.
    – Caligrafia. Estou chocado com a caligrafia infantil de primeira classe. Denota mais trabalho em “2ABC”, “3DEF” do telemóvel, “QWERTY” do Magalhães e testes de escolha múltipla do que cópias em cadernos de duas linhas e testes de exposição. Se isso é mau não sei, mas não o vejo com bons olhos.
    – Facilitismo. Aqui corro o risco de estar a pisar os perigosos terrenos do pântano da contradição, mas o facto de ser louvável terem vindo a ser banidos os tabus relativos ao sexo não deve significar que o mesmo tenha de ser encarado com a mesma naturalidade de ter sede e beber água, sem ter em conta os efeitos secundários indesejáveis. Estamos a formar indivíduos em que “querer” é sinónimo automático de “ter” e que não estão preparados para lidar com a frustração.

    • Arnaldo Antunes says:

      Não, caro Alfredo, era mais uma brincadeira. Quanto aos erros ortográficos e à caligrafia, estamos tão habituados que já nem estranhamos. Acredite, há alunos que chegam ao 9.º ano quase sem saber ler. Mas o Ministério quase nos obriga a passar todos.

  7. Alfredo says:

    Os professores também têm a sua quota parte de responsabilidade, pois continuam a insistir na utopia de que escola inclusiva e exigência no ensino são conceitos conciliáveis.

    Eu não vejo os professores defenderem a qualidade do seu trabalho com o mesmo empenho e união com que defendem os seus interesses de classe (que considero legítimos, fique claro). É óbvio que estou a ser injusto para os poucos que o farão, mas não serão 120000, com toda a certeza.

    O Professor Arnaldo perdeu uma boa oportunidade para, no seu artigo inicial, fazer uma reflexão mais aprofundada sobre estes problemas. Limitou-se a dar a conhecer o seu escândalo com o clássico “Não tenho nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.” (para quem não sabe, vale a pena, pela surpresa, investigar a autoria desta frase), que pode ser sempre rebatida com o clássico dos Trovante “Vocês fizeram os dias assim! Não nos venham pedir contas, não venham pôr-nos regras”.

  8. Américo says:

    Concordo plenamente com aqueles que dizem que a sociedade tal como está não pode continuar. E começo por relevar a importância de começarmos pelos pais. Não só alguns, mas todos, pois se alguns dão educação, outros nem se dão ao trabalho. É mais fácil dar presentes (telemóveis entre outras coisas) que estar/tentar estar presente. E o facto de a sociedade ser como é, ou seja, hoje em dia tanto pais como mães trabalham, não pode ser desculpa para a falta de tempo. Ambos os meus pais trabalharam sempre na sua vida (e sempre trabalho bem pesado), e hoje posso agradecer-lhes o esforço que fizeram na minha educação.
    Sempre existiram estes problemas, mas hoje em dia eles têm-se intensificado e atingem uma grande quota da sociedade.

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