o elefante ou o quebra-nozes para as crianças?

bailado escrito por Piotr Illich Tchaikowsky, entre Fevereiro de 1891 e Março de 1892

Tchaikovsky – Dança Russa (Ballet “Quebra-Nozes”) – Maestro Paulo de Tarso.

Para nossa neta Maira Rose, filha de Cristan van Emden e Paula (née Iturra)

Foi comentado neste sítio de debate no mês de Dezembro de 2009, que Natal era quando o marketing quiser. Comentário que me leva a pensar a relação dos adultos e das crianças. Essa relação, hoje, de distância e, antigamente, de larga intimidade, ambas com muito imaginário e certa afectividade. Imaginário, como é natural, que varia no tempo e no espaço. Como Pyotr Ilyich Thcaikosky e Gus van Sant. Como a água do óleo. Qual, a verdadeira? Qual, a conveniente? Qual, a da História? Não é o acaso que me leva a pensar no Elefante e no Quebra-nozes.

O Elefante, de Gus van Sant, é o filme que relata, em 2003, o que aconteceu na Escola Secundária de Columbine de Littleton, Colorado, USA, em 1999. Em Abril de 1999, duas crianças púberes massacraram colegas, docentes, administrativos e amigos. Uma escola assassinada por sentirem que ninguém tinha paciência, carinho ou atenção por eles, e que a sua inteligência e talento passavam despercebidos. De facto, até o Für Elise de Beethoven ou Sonata ao Luar, descrevem os sentimentos emotivos dos meninos desprezados. Por quem? Acabado o filme, ficamos a saber, ao pesquisar os factos e ao reparar no processo dentro do qual decorre a nossa vida actual: a solidão, a falta de família, mães empresárias, pais no escritório, sem beijo, abraço, carícia ou sorriso, esses pequenos nadinhas de apoio para seres que estão no inicio da vida. Não têm ainda capitalizado a faculdade de análise, entendimento, simpatia, dos seus actos e factos, como referem Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron no seu livro de 1968: La Reproduction, Minuit, Paris, quando falam que a violência simbólica está ligada ao sistema de ensino, distante da acção pedagógica disciplina com castigo corporal, sistema de ensino baseado na memorização das ideias sem debate, informes negativos aos adultos das crianças, e outras ideias desenvolvidas por eles em diferentes textos, especialmente no majestoso Le pouvoir symbolique de 1989, Minuit, Paris, ao referir Bourdieu, que la mort sasit le vif, ou a morte do outro dá-a vida como parecem ter pensado os adolescentes ao reivindicarem o seu direito à vida amável, justa e reconhecimento dos seus afazeres escolares. Proferem uma frase dura e bestial ao Director que costumava bater-lhes, no segundo prévio à balada de balas que canta a extinção de um ente ante pedagógico: nunca pensaste que eu também pensava, sua besta…Diz perdão, Diz perdão! Mas a absolvição acaba por ser o fuzilamento sobre o piso do bom feitor de crianças assassinas. No texto coordenado por ele: La misère du monde de 1993, Seuil, Paris, a temática abordada sobre famílias deslocadas do seu sítio natural, terra e lar, que sofrem da falta de amigos, familiares e entorno ecológico da sua vivencia anterior, que faz de vários, mentes criminosas pela alienação do seu convívio, habituados como estavam a ele.

Exactamente, esse Elefante das crianças que agarram a vida na medida que matam mais de duzentas pessoas para compensar a falta de sítio próprio, definido pela frase do inicio deste texto: o marketing retira seres humanos dos seus descendentes, do cuidado e atenção aos seus estudos, namoros, planos de vida, gerindo auto estima enganada, Beethovens que substituem emotividade mal nascida, abortada ou nunca desenvolvida. Esse pesado animal de trompa cumprida, acaba por ser a sociedade que cria entidades para o mercado, que saibam calcular e encurralar o inimigo. Inimigo definido, à la Freud, pelo desbravamento de seres para amar, por seres para odiar e serem mortos para esse agarrar a vida da forma e maneira que sentem. Deslocação não querida, mas entendida por causas distantes de sentimentos necessariamente entremeados com uma certa racionalidade que os adultos saberiam ensinar… se o mercado o permitisse. Elefante criado pelos invasores do Vietname, salvadores do Iraque, intervenientes em processos democratas, como os do Salvador e o do Chile.

Torna a vida, numa real toma da Bastilha que pretende a liberdade, igualdade e fraternidade, direitos definidos mas nunca atingidos. Direitos, fundamentais na idade adolescente que, ao não serem fornecidos, passam para uma sublimação ritual na Missa das balas lançadas em nome da justiça e do bem-estar dos adolescentes em questão. Fuzilar para tomar a vida do outro e assim ficar no justo peso e medida da interacção social. Interacção definida pela acumulação do lucro e procura de mais-valia na empresa da vida, como tem sido definido pela nossa História, ao longo do tempo, a partir da existência de mercadorias entre países ocidentais e orientais, mercadoria que desnorteia o comportamento.

Bem ao contrário, no Quebra-nozes de Pyotr Ilyich Tchaikovsky (Maio 7, 1840 [OS. Abril 25]  – Novembro 6, 1893 [O.S. Outubro 25) apresenta-nos uma Clara que acolhe no seu regaço o seu boneco partido na rixa de crianças na noite de Natal. Essa noite apoiada pelo avô que dança, a mãe que dita as horas de ir para cama, o pai que apoia a disciplina e assim terem uma surpresa para os pequenos no dia seguinte de manhã. Pequenos que no referido bailado, manipulam o seu ainda despovoado imaginário, dentro dos limites delineados pela família. Um Quebra-nozes que, na fantasia da pequena, dança, namora, apresenta um bosque e um castelo no qual se manifesta como o Príncipe que realmente era. Quebra-nozes, o seu irmão, na sua raiva de já não ser capaz de brincar com os presentes de Natal, parte e desfaz, como se fosse um presságio do Elefante de Columbine, Van Sant e Tchaikowsky pertencem a dois mundo diferentes: os da magia da criação musical que ilude a partir de factos que seriam banais se não fossem importantes para as crianças, o músico; ou da magia da recriação do real na base da irrealidade da imagem, o cineasta. No entanto, os dois a analisarem a importância do apoio do adulto que entende ou não, os pequenos. Os que entendem ganham uma princesa; os que não, ganham uma depressão e, muitos, um luto inesperado. Van Sant sabe qual a pedagogia necessária para termos cidadãos animados e emotivos que sabem combinar coração com razão. Pyotr, faz-nos dançar com o chá da China, o chocolate da Espanha, os doces da Rússia e a infinita Valsa das Flores, no minuto que toda a família festeja a recuperação do Quebra-nozes, a sua conversão em Príncipe e o seu amor declarado à pequena que, já mulher, o soube restaurar, em menina, no seu colo.

A História arquiva Columbine, mas aprende dos factos o que o capital nos causa; assim como, arquiva em salas de dança e em discos, o ar doce e amoroso da Valsa das Flores, Epílogo desejado por todo o educador. Uma Apoteose a milhas de distância dos educadores tantos! – que criam aborrecidos e mal estimados Columbines. A História aborrece o Elefante e sonha com o Quebra-nozes, mas vive na singular batalha do animal de trompa cumprida, já faz anos…e os que ainda faltam. Para as crianças não pode haver Quebra-nozes, excepto se queremos levantar a Apoteose de saber agarrar a vida para a continuar dentro do plano dos direitos humanos que, até onde entendo, os nossos dois artistas criam e Pierre Bourdieu analisa de forma sabida. É com eles que aprendemos a crescer e a não apenas a viver dentro do lucro e mais-valia, mas sim, dentro da sua racional fantasia. Elefantes e Quebra-nozes a par e passo, no processo da vida, para os pedagogos aprenderem com todos estes factos artísticos. Haja ouvidos para entendermos os processos educativos e vivermos calmos e serenos, no amor e delicadeza de gerações a compartilhar a mesma cronologia.

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