O Diário do Professor Arnaldo – Começam as avaliações

Começaram hoje as avaliações do 2.º Período. Em grande.
Logo na primeira reunião, um aluno teve 6 negativas. Tinha apenas uma negativa no 1.º Período e ninguém percebe as razões de tal descida, porque os pais não aparecem na escola.
O problema é que, como tinha apenas uma negativa, o Conselho de Turma não elaborou Plano de Acompanhamento para o aluno. Este faz-se apenas quando há risco de retenção no final do ano lectivo.
E segundo a lei, quando não se faz Plano de Recuperação, o aluno já não pode reprovar. Ou seja, o miúdo já passou, nem que tenha 10 negativas no final do ano lectivo. Felizmente, não sabe…

O Diário do Professor Arnaldo – O fim das Visitas de Estudo

Hoje, o meu Coordenador de Departamento avisou-me que todas as visitas de estudo previstas para o que resta do ano lectivo foram canceladas. Não há dinheiro no Agrupamento, logo não pode haver Visitas de Estudo que, pelo menos para os alunos mais necessitados, costumam ser pagas pela tesouraria da Escola.
No fundo, é uma medida que se compreende, embora não se goste dela. Não há dinheiro, não se pode fazer nada. Há que cortar em algum lado.
Só é pena que os ditos governantes de sucesso, aqueles que destruíram o país, estejam aí todos contentes e se preparem para um novo mandato na cadeira de Belém. Para que não haja dúvidas, era a esses que me referia no meu penúltimo post.

O Diário do Professor Arnaldo – Ainda o drama da fome nas escolas

No dia 19 de Novembro, escrevi o post A fome nas escolas, relativo a uma situação concreta de que tive conhecimento na minha escola e que envolvia alunos meus.
Nos últimos dias, o texto começou a espalhar-se por mail e por diversos blogues de grandes audiências, trazendo para primeiro plano um assunto que, no fundo, não tem nada de novo. Infelizmente, a fome das crianças portuguesas tem vindo a aumentar constantemente nos últimos anos, na mesma medida em que os lucros das grandes empresas tendem a aumentar.
E há em tudo isto uma questão que é decisiva: como seria se não fossem as escolas? Se não fossem as refeições providenciadas pelas escolas, muito para além daquela que é a sua obrigação legal, e muitas vezes envolvendo dinheiro dos professores, já teria havido crianças a morrer à fome.
Quanto ao caso que denunciei, só espero não ter perdido o rumo daquelas crianças. Nos Conselhos de Turma de Dezembro, ouvi uns zunzuns acerca da emigração da família para o estrangeiro. Não sei se é verdade, mas o certo é que o aluno faltou à única aula que tive com ele neste Período que está agora a começar. Também não seria novidade os pais partirem e deixarem os filhos ao cuidado de familiares. Sinceramente, não sei.
Seja como for, agradeço a todos os leitores e comentadores que manifestaram a sua preocupação e posso garantir que farei tudo o que está ao meu alcance para a preocupação de todos não tenha sido em vão. Quanto à identidade da família, como é óbvio, nunca poderá ser revelada publicamente sem autorização.

O Diário do Professor Arnaldo – A fome nas escolas

Ontem, uma mãe lavada em lágrimas veio ter comigo à porta da escola. Que não tinha um tostão em casa, ela e o marido estão desempregados e, até ao fim do mês, tem 2 litros de leite e meia dúzia de batatas para dar aos dois filhos.
Acontece que o mais velho é meu aluno. Anda no 7.º ano, tem 12 anos mas, pela estrutura física, dir-se-ia que não tem mais de 10. Como é óbvio, fiquei chocado. Ainda lhe disse que não sou o Director de Turma do miúdo e que não podia fazer nada, a não ser alertar quem de direito, mas ela também não queria nada a não ser desabafar.
De vez em quando, dão-lhe dois ou três pães na padaria lá da beira, que ela distribui conforme pode para que os miúdos não vão de estômago vazio para a escola. Quando está completamente desesperada, como nos últimos dias, ganha coragem e recorre à instituição daqui da vila – oferecem refeições quentes aos mais necessitados. De resto, não conta a ninguém a situação em que vive, nem mesmo aos vizinhos, porque tem vergonha. Se existe pobreza envergonhada, aqui está ela em toda a sua plenitude. [Read more…]

Diário do Professor Arnaldo – O aluno com mão pesada

Dizia-me ontem um colega na sala de professores sobre um aluno muito indisciplinado:
– Sabes, o problema é que a mãe não tem mão nele.
E respondi-lhe eu:
– Pois, mas pelo que vi um dia destes, já o filho tem mão na mãe. E não é nada leve. Até me doeu!
E logo me lembrei deste episódio, que li aqui há meses, muito antes de sonhar em ser convidado para escrever no Aventar.

O Professor Arnaldo vai leccionar Educação Sexual

Lamentavelmente, no último Conselho de Turma fui o escolhido para leccionar as 12 horas de Educação Sexual a que todas as turmas têm direito em cada ano lectivo. Quase sempre, o Director de Turma é o escolhido, porque tem uma relação mais próxima com os alunos, mas neste caso fui eu. A velhota fugia do assunto como o Diabo da Cruz e os outros elementos do Conselho de Turma também.
Para além de ficar sem 12 horas para a minha disciplina, o que é trágico no 7.º ano, verdadeiramente dramático é mesmo o facto de eu ter de falar de Educação Sexual com crianças de 12 anos. Meu Deus, eu não estou preparado para aquilo! Eu não tenho à vontade com eles para falar dessas coisas. Eu nunca falei de Educação Sexual com ninguém ao longo da minha vida. Eu não sou casado nem tenho filhos. Nem sequer tenho qualquer actividade sexual, a não ser aquela que mantenho diariamente comigo próprio e com os meus 5 amigos.
Eu não percebo nada de Educação Sexual. Só de hardcore 1.º Escalão. As pessoas normais pensam em Júlio Machado Vaz quando pensam em Educação Sexual, eu penso em Rocco Siffredi. As pessoas normais pensam em Marta Crawford quando pensam em Educação Sexual, eu penso em Linda Lovelace e, mais recentemente, em Gina Lynn.
A culpa é do meu pai. A única vez de que me falou em sexo, na vida, foi para me dizer que a masturbação provocava cancro e que eu não devia fazê-lo.
O problema é que agora vou ter de falar do assunto como professor, como um adulto fala com uma criança e como se percebesse muito do assunto. E tem a grande lata, o Secretário de Estado, de dizer que todos os professores foram formados e estão preparados para leccionar Educação Sexual. Formado, eu? Só se for em acariciar o golfinho.

O Diário do Professor Arnaldo: 9 de Novembro

Aluno 1:
– Setor, a composição tem de ter mesmo 10 linhas?

Professor:
– É o que diz aí, não é? Mínimo 10 linhas.

Aluno 2:
– Ó setor, eu fiz 11 linhas. Pode ser, não pode?

Será de mim ou este tipo de perguntas, que os putos fazem constantemente, é completamente insuportável? Tenho cada vez menos paciência para esse tipo de perguntas, cada vez menos. Apetece-me insultá-los.

O Diário do Professor Arnaldo: 4 de Novembro – Os cromos

Não, não vou chamar cromos aos alunos. Apesar de o serem.
Vou apenas referir-me ao principal divertimento dos putos por estes dias. Pegam em cromos virados ao contrário e batem-lhes com uma palmada, tentando fazer com que fique visível a parte da frente. Depois, parece que os colam em cadernetas, não sabendo poruqe razão têm de lhes dar uma palmada primeiro. No meu tempo, era mais simples. Colávamos na caderneta e pronto, estava despachado.
É algo de profundamente irritante. Entro na escola, estão eles espalhados pela entrada a dar palmadas nos cromos. Vou a passar pela sala de convívio, só ouço «pum», «pum», que é o barulho deles a baterem-lhes. Vou a entrar na sala de aula, lá estão eles sentados no chão a fazer o mesmo. Até dentro da aula, se os deixassem, eles jogavam com os cromos. Aliás, chegaram a fazê-lo numa aula de substituição. Claro, tive de os apreender.
Pelos vistos, é este o principal divertimento das crianças de hoje em dia. Isto e a fornicação, claro.

O Diário do Professor Arnaldo: 3 de Novembro – Os Conselhos de Turma

Felizmente, acabam hoje os Conselhos de Turma intercalares. 8 turmas, 8 Conselhos de Turma, todos com a presença dos professores, dos dois representantes dos alunos e dos dois representantes dos Encarregados de Educação, 8 saídas da Escola às 9 horas da noite.
São divididos em duas partes. Na primeira, analisa-se a turma em geral – comportamento e aproveitamento – sem referir nomes. Na segunda parte, já sem a presença dos Encarregados de Educação e dos alunos, desancamos sem dó nem piedade naqueles que saíram. Nos próprios, se for o caso, ou então nos que eles representam.
Na primeira parte destes Conselhos de Turma, o mais usual é os representantes dos Encarregados de Educação estarem calados e dizerem banalidades. Há uns que quando abrem a boca é para falar dos seus próprios filhos, como se eles estivessem ali como Encarregados de Educação dos seus filhos. É das coisas que mais me irrita. Pior, só mesmo quando começam a dizer mal de determinados alunos, que criam mau ambiente na turma, que prejudicam os melhores alunos, ou seja, que prejudicam os seus filhos. Todos percebemos.
Na segunda parte, começa a algazarra. E os assuntos que duram, duram, duram. Ontem percebi por que razão duram tanto. As colegas não se calavam com conversas paralelas (eu era o único homem naquele Conselho de Turma) e a Directora de Turma teve de intervir:
– Ó colegas, desculpem lá, têm de fazer algum silêncio. Não querem ir para casa?
E respondeu uma a rir-se:
– Não. Se eu chegar antes das 8 e meia, tenho de fazer o jantar.
E só porque Suas Excelências não querem fazer o jantar, temos todos de levar, minutos a fio, com o que não interessa.

O Diário do Professor Arnaldo (2 de Novembro)


Hoje fiquei boquiaberto. Numa turma de 7.º ano, uma aluna estava a enviar bilhetinhos, através de uma colega, para um rapaz. Não é uma aluna brilhante, mas geralmente porta-se bem e é muito educada.
Como é óbvio, interceptei o bilhetinho e fiquei com ele. Por mera curiosidade, abri para ver o que estava escrito. Fiquei tão espantado, tão sem palavras, que rapidamente o meti ao bolso. Devo ter corado, porque um dos putos da frente perguntou logo:
– O que diz, setor?
Mudei de assunto e tentei fingir que nada tinha acontecido. Reparem: era uma turma de 7.º ano e uma miúda de 12 anos, educada e bem comportada. E sai-me aquilo que nunca esperei ler. Antes de o entregar à Directora de Turma, tirei uma fotocópia.
Sinceramente, estou escandalizado. Nunca pensei que as coisas tivessem chegado a este ponto. Com crianças de 12 anos e numa terra de província. Felizmente, não tenho filhas…

O Diário do Professor Arnaldo (8 de Outubro)

Disseram-nos logo no início do ano que tínhamos de cumprir o programa em todas as turmas e que iam estar atentos.
Pois bem. Que estejam.
Reparei hoje que, numa das turmas em que o programa é mais extenso (7.º ano), vou estar 3 semanas seguidas sem aulas. Senão reparem: 24 de Novembro – Greve Geral; 1 de Dezembro – Feriado; 8 de Dezembro – Feriado; 15 de Dezembro – Último dia de aulas.
No fundo, para essa turma, as aulas do 1.º Período vão acabar no dia 17 de Novembro. Porque só os tenho uma vez por semana. Quando noutras escolas a mesma disciplina e o mesmo ano de escolaridade contempla 90 + 45 minutos por semana.
E depois querem que eu cumpra o programa…

O Diário do Professor Arnaldo (7 de Outubro)

Esta semana tem sido muito desgastante. Feriado municipal cá da terra na segunda-feira, feriado nacional na terça-feira, consulta médica com o meu pai na quarta-feira. O raio do velho está agora com as almorródias, como ele lhe chama, e ainda por cima só confia no médico de família. Que não percebe, claro, nada do assunto.
Para compensar, a semana acaba mal. Hoje senti-me verdadeiramente humilhado por causa das aulas de substituição. É que muitos professores, no momento em que eram chamados, nunca estavam. Ou tinham ido à casa de banho, ou estavam «convenientemente» noutra sala que não a dos Professores, ou diziam que estavam em serviço. Cheguei a ver um – que por acaso é um dos muitos padres que dão aulas nesta escola – escondido atrás de um daqueles placards com informação sindical. Ninguém o viu, a não ser eu, que já estava de olho, mas pôde dizer que estava na Sala de Professores. No ensino, a padralhada é do pior que existe.
Daí a fazerem o que nos fizeram é uma humilhação. A partir de hoje, logo que toca todos os professores em horário de substituição devem dirigir-se a uma sala própria em pleno pavilhão das aulas, ficando sentados num banquinho que aí puseram para esse efeito. Se forem necessários, dirigem-se à sala respectiva por ordem da funcionária – desculpem, assistente operacional. Se não forem, ficam ali sentados durante 45 minutos. De castigo, parece! A justificação é a de que um aluno pode ir para a rua com falta disciplinar e é preciso que o professor em substituição o acompanhe.
Vi hoje uma grande revolta de colegas que habitualmente são muito calmos. Sentados num banco, durante 45 minutos, num sítio onde todos os alunos nos podem ver? Não se faz, isto não se faz.

O Diário do Professor Arnaldo (29 de Setembro)

Hoje de manhã cheguei à sala e não havia giz para escrever no quadro. Dizem-me por aqui que estão a racionar porque há ordens do Ministério para cortar nesse tipo de despesas.
Olha que palhaçada! Se não há giz, como é que querem que eu escreva? Com a pila?

O Diário do Professor Arnaldo (27 de Setembro)

Hoje, uma aluna virou-se para mim e disse:
« – Setor, setor, tenho de ir já à casa de banho senão faço chichi pelas pernas abaixo. Deixe-me ir já.»
Como vinha de um intervalo de 20 minutos, não deixei.
« – Ó setor, vou mijar-me toda, ó, ó, vou fazer pelas pernas abaixo».
Toda a turma se riu. Eu fiquei a olhar para ela.
Outra aluna, depois de eu dizer uma piada relacionada com a matéria, disse:
« – LOL.»
LOL? Aquilo que significa «laughing out loud» em linguagem escrita? Agora LOL diz-se? Fiquei a olhar para ela.
Já na sexta-feira, foi uma turma inteira de 9.º ano que ficou a olhar para mim quando perguntei o que eram sindicatos e para que serviam.
« – Ah?»

O Diário do Professor Arnaldo (23 de Setembro)

Foi jeitosa, a aula que dei ontem. Numa turma de 25 alunos, só 2 é que tinham manual. Os outros ainda estão à espera que o SASE os entregue, porque quase todos têm subsídio. Para piorar a situação, o computador daquela sala não funcionava (não havia outra sala livre). 90 minutos a falar! Foi um espectáculo para mim e para eles.
As aulas de substituição já começaram. Como eu previa, a palhaçada do costume. Um colega pegou na canalhada e levou-a para o Parque de Jogos. Outro deixou os alunos fazer o que quisessem na sala desde que não fizessem barulho. Pudera! Um professor de Geografia a substituir um professor de Matemática que ainda nem sequer foi colocado, que mais há-de fazer? Tem sido um fartote. Ainda há 4 professores por colocar aqui na escola. Sinceramente, não entendo.
Tenho andado pouco atento à actualidade. Mas soube ontem pelo nosso colega José Jorge Cardoso que o primeiro-ministro usou a porta dos deficientes para entrar no Metro. Realmente, ele nunca me enganou: é mesmo deficiente.
Soube também que a Federação Portuguesa de Futebol acaba de contratar mais um seleccionador que fala português com pronúncia. Já é o segundo nos últimos anos.

O Diário do Professor Arnaldo (21 de Setembro)

Estou espantado. Na reunião de Departamento de ontem, estiveram 20 minutos – vinte! – a discutir se a aula de recepção aos alunos era numerada ou não no Livro de Ponto. Que devia ser numerada, porque num dia normal iríamos ter aula àquela hora. Que não devia, porque não foi aula mesmo mas apenas recepção aos alunos. Que eu estive na escola, e se não asinar e numerar dizem que não estive. E é nisso que os professores vão ocupando o seu tempo, em vez de o ocuparem no que realmente interessa – os alunos.
Entretanto, começam hoje as aulas de substituição. Uma palhaçada que vai dar muito material, como sempre, para o meu Diário.

O Diário do Professor Arnaldo (17 de Setembro)

Fim-de-semana finalmente!
Estes dias foram desgastantes, sobretudo a nível psicológico. É todos os anos assim.
A sexta-feira é um dia estúpido. Tenho uma aula de 90 minutos logo às 8.30 e depois só volto a picar o ponto às 19 horas. Desculpem-me a expressão, mas ando o resto do dia pela escola a «coçar os tomates».
Por azar, atrasei-me 2 minutos na aula da manhã e a funcionária (agora chamam-lhes assistentes operacionais) já não me deixou entrar. Disse que eu já tinha falta e que já tinha chamado um professor de substituição, embora ele ainda não estivesse na sala. Atrasei-me porque dormi muito mal de noite, a pensar nos vândalos que ia ter de enfrentar de manhã. Um deles (dos cursos EFA) chamou-me rinoceronte na aula de apresentação. Ainda pensei em pô-lo fora da sala, mas nos EFA os alunos são super-protegidos. Se o expulsasse, passados 5 minutos estava lá o Director a mandá-lo entrar outra vez. Assim, fingi que não ouvi.
Os nojentinhos da minha Direcção de Turma (ui, a comentadora Ana vai ficar ofendida!) já começaram a chatear-me. O coiso roubou-me o caderno, a coisa disse que eu tinha a pila pequena, o setor de Ciências chamou-me preguiçoso e o meu pai diz que vai falar com ele porque não lhe admite. Que putos insuportáveis, os do 7.º ano!

O Diário do Professor Arnaldo (15 de Setembro)

Ufa! Os dois primeiros dias de aulas já lá vão e, felizmente, já conheço todas as minhas turmas.
São dias dramáticos para mim. Como ando todos os anos de escola em escola, nunca conheço os alunos no ano seguinte. Nem os colegas, nem os funcionários, nem os hábitos de trabalho, nem as instalações. Nada. Tenho de me adaptar a tudo todos os anos.
Para além disso, sou muitíssimo tímido. Quando penso que vou ter de enfrentar 25 ou 30 ranhosos que não conheço de lado nenhum, e isto em 8 turmas (o que dá quase 200 ranhosos), só me dá vontade de fugir a sete pés. Dou aulas há vinte anos e, por mais que tente, não consigo habituar-me.
Para mim, são os piores dias do ano. É por isso que não escrevi nos últimos dias. Durante o fim-de-semana, não fui à terra e aproveitei para conhecer aqui a vilória. Na segunda-feira, como Director de Turma, tive de receber os meus alunos. Infelizmente, já tive de conhecer também alguns dos Encarregados de Educação. Cá para nós, alguns deles são gente da pior espécie – daqueles que acham que os filhos são sempre os maiores, que têm um comportamento exemplar e que nós, os professores, só mentem quando dizem mal deles. Curiosamente, os mais radicais são sempre professores. Acreditem!
Ontem e hoje, fiquei a conhecer todas as turmas. Já começou o meu velho problema: não me conseguir impor como devia desde o primeiro dia. Entro na aula com um bom espírito e não quero começar logo a berrar com eles e a mostrar-me demasiado autoritário, por isso acabo por sofrer sempre um bocado. Vou ver se na próxima aula ponho um ou dois na rua com falta disciplinar, a ver se eles atinam.
Amanhã já começo com matéria em várias turmas. Muitos deles já me avisaram: ainda não têm livros porque o SASE não os entregou. Gostava de saber como é que vou dar a aula. Não posso começar já a tirar fotocópias, poque este ano estão racionadas. Se gasto muitas agora, depois não chegam para fotocopiar os testes.

O Diário do Professor Arnaldo – 10 de Setembro

Terminaram ontem os primeiros Conselhos de Turma do ano. Devo confessar que acho algo extemporâneo estar a fazer Conselhos de Turma nesta altura, quando, muitas vezes, nem os Directores de Turma conhecem os respectivos alunos.
Seja como for, fiquei muito sensibilizado com uma colega do 7.º ano que dirige a turma pelo segundo ano consecutivo. A certa altura, quando falava de um menino que em criança foi abandonado pelo pai (toxicodependente) e pela mãe (prostituta) e que acabou por ser adoptado por uma família desconhecida, emocionou-se e começou a chorar copiosamente. É que, ao que parece, o miúdo é hoje um aluno fantástico e uma criança exemplar.
Finalmente, deram-nos os horários agora de manhã. Tive algum azar. Vou ter de ficar os fins-de-semana aqui na terra, porque tenho aulas até às 21 horas de 6ª feira (os CEF’s nocturnos) e começo na 2ª feira logo às 8.30 com um 9.º ano. A carreira não funciona ao fim-de-semana e à 6ª Feira a última camioneta é às 19 horas.
Sou o único professor da escola sem dia livre. Fico contente pelos meus colegas. Alguns são daqui da terra e têm dia livre à 2ª ou à 6ª Feira. Tiveram muita sorte, mas alguns nunca estão contentes. Um deles, que já tem uma certa idade, protestava porque à 6ª Feira vai ter dia livre e era obrigado a ir à escola na 5ª à tarde.

O Diário do Professor Arnaldo – 9 de Setembro

Devo começar por apresentar-me. Sou um beirão honesto (mas daqueles honestos mesmo) a leccionar há cerca de 20 anos. Apesar de já ser antiguito na profissão, ainda estou colocado a mais de 130 quilómetros de casa – por agora, omito o nome da Escola, dizendo apenas que fica no centro do país.
É a primeira vez que estou aqui e valha a verdade que não sei muito bem o que esperar. Dizem-me que os alunos são problemáticos e que este ano vai ser pior porque agora é mega-agrupamento. Aliás, vou ter de dar aulas na Secundária e na Básica cá da terra ao mesmo tempo.
Vai ser complicado, porque não tenho carro e, apesar de serem próximas, as duas Escolas estão separadas por um pequeno monte que torna o caminho bem agreste. Resta saber quanto tempo terei para me deslocar de um sítio para outro.
É que faltam três dias para começarem as aulas e ainda não tenho o meu horário. Só alguns privilegiados, os do costume, é que já puderam espreitá-lo. Dizem-me por aqui que o colega responsável pelos horários costuma fazer uns jeitos aos mais antigos… mas não acredito nisso.