a paixão que acaba em amor

a doçura da ternura que pode acabar em amor e paixão

…para à mulher que sabe que a amo…

Falar de amor, não é um assunto simples. Especialmente por existirem várias espécies de afectividade entre as pessoas de diversas gerações e de diversas idades. Nada simples, também pelas diversas hierarquias de sentimentos pelas que passa o verbo amar, especialmente se um casal vive junto através do tempo. Finalmente, é difícil, porque é um sentimento dentro do qual a adrenalina tem um papel importante na actividade de amar.

A palavra amar seria simples, se fosse uma análise sintáctica do conceito. No entanto, estamos a falar de sentimentos: sentir, imprimir, compelir, entregar todo o nosso ser pela pessoa que amamos. Freud definia amor, como um sentimento que existe para além do prazer de se entregar a outra pessoa, não tem dimensões, nem tempo nem cálculo, como analisa no seu livro, de 1920, a ideia de para além do princípio do prazer. Aliás, é a hipótese que intitula o livro. Normalmente, temos um ego que sai de si para se entregar a um outro ego, com a observação sistemática de um outro princípio que

observa esse ego ou eu, o de superego ou a consciência de saber que existimos não apenas para nós, mas também para os outros. Perante esses dois princípios, sendo princípios ideais e sociais que orientam o nosso comportamento, existe um terceiro, como tenho recapitulado noutros textos deste sítio de debate: o elo, que denomina Id, descoberto ao organizar uma teoria para entrar no inconsciente dos seres humanos e vigiar o que é que se pretende com o sentimento de amor. O Id, no meu ver e na minha experiência analítica, existe como um vigilante para que as diversas maneiras de amar sejam orientadas pela ética vigente no tempo da pessoa analisada, as ordens que a sociedade dá para o comportamento intra social e as proibições que Freud tinha procurado na sua análise dos nativos australianos, retirando as suas ideias dos estudos de Émile Durkheim e Marcel Mauss, sem nunca os citar. O resultado dessa análise é apresentado no livro Totem e Tabu, George Routledge, Londres. A versão original é de 1913 em língua húngara, a sua nacionalidade, sendo traduzido para inglês em 1919, sob a sua supervisão. Era já um Freud exilado quem escreve estes textos, o ditador da Alemanha, tinha já entrado na sua terra, que integrava a Hungria desde a fundação do Império Austro-húngaro governada durante séculos, pela família Hohenzollern. Por outras palavras, o que Freud pretendia era descobrir a base consciente, comandada pelo inconsciente, para existir o respeito necessário para o bom convívio entre seres humanos. Como era a moda nesses tempos, foi ao laboratório de experimentação dos cientistas europeus para estudar os neuróticos do seu tempo. Laboratório composto pelos aborígenes (sic), ou seres humanos de menos valor perante os europeus, apesar de, hoje em dia, sabermos que o seu saber, a sua ciência, o seu tratamento das pessoas era simpático e sujeito a normas que raramente eram trespassadas. O problema de Freud, para falar de amor, residia na série de restrições impostas sobre indivíduos de diferentes classes sociais. Era mais um problema económico e de mais-valia, como tenciono provar em vários textos meus, especialmente em dois deles: A economia deriva da religião, 2003, Afrontamento, Porto; e O presente, essa grande mentira social. A reciprocidade com mais-valia, 2008, Afrontamento, Porto.

Conforme Freud, a paixão é a atracção sexual governada pela libido ou o desejo de prazer do soma, que reside como norma, no super ego, aprendida a partir da infância. Descobre que existe um guardião da paixão, o amor, esse sentimento que perdura além do desejo do prazer, aprendido também desde pequenos pelos seres humanos e é consciente e reside no ego ou eu como princípio normativo de comportamento de que se entrega a outro por amor, sem nada pedir em troca. Se esse sentimento de entrega passa a ser paixão, aparece uma disfunção entre os que dizem amar-se. O caso contrário é também um labirinto: quem apenas sente amor, com a passagem do tempo esse amor passa a ser atracção libidinal. Foi Malinowski, em 1927, no seu livro Sex and Repression in Savage Societies, Routledge and Kegan Paul, Londres, versão luso brasileira de Vozes, Petrópolis, 1973, quem contradiz Freud e debate com ele por meio de publicações, sobre amor e paixão. Acrescenta à teoria de Freud que a paixão faz parte do amor, como está estatuído pelas formas de acasalar pessoas de diferentes clãs, como a lei dos Massim, por ele estudada durante vinte anos, manda. Uma lei não escrita, mas costumeira. Sustenta a hipótese provada, de não existir nem incesto nem tabu, apenas organizações de relações entre pessoas de diferentes clãs. A paixão começa desde muito cedo entre as crianças Massim, que, já púberes, começam a formar o seu grupo doméstico que tem história, que tem tradições, que está envolvido em mitos transferidos de geração em geração, por meio de histórias sempre repetidas aos mais novos, e em ritos que marcam a entrada na idade de reprodução.

Acrescenta Malinowski nos seus três livros sobre sexualidade primitiva, que o incesto atrapalha as pessoas pela sua proibição, sendo a proximidade familiar europeia a que acorda a libido entre parentes consanguíneos, donde o incesto causa a neurose estudada pelos analistas europeus que nunca tinham pisado o terreno das pessoas analisadas para entenderem as diferentes formas de amor. Não há neuroses entre os Massim, como também entre os Baruta estudadas por Maurice Godelier em 1970-81, como se pode entender através do livro editado pela Fayard, Paris, 1981: La production des Grandes hommes. Pouvoir et domination masculine chez les Baruya de Nouvelle-Guinée. Livro que, como tenho referido noutros textos, nunca li, de tanto ouvir a história e analisar com ele os hábitos e costumes Baruya: o importante são os homens e a guerra, a mulher apenas existe para ter filhos com o jovem que iniciou a vida sexual do seu irmão.

O interessante é que os que procuram rasgos neuróticos entre os europeus, procuram-nos entre pessoas que amaram e abusaram de crianças da mesma família consanguínea. O arrependimento e a dor, faz deles pessoas fora de si, que quase não conseguem pensar, apenas procurar satisfação da sua libido, acordada pela proximidade de pessoas novas e lindas dentro do seu grupo doméstico. Resultado: crime, felonia, tribuna, julgamento e um Código de Processo Penal de 1856 em Portugal, actualizado por causa de novos crimes como a pedofilia, facto existente em Portugal e em toda a Europa durante séculos, sendo punido apenas a partir de 1998, ao ser descoberto este comportamento entre docentes e discente em internatos para pessoas com menos recursos como a Casa Pia, existente desde o Século XVII, ou em internatos para ricos, regidos por sacerdotes católicos que vivem em celibato, que desrespeitam o seu Id, por causa do poder que têm. Hoje em dia, toda essa liberdade promíscua acabou.

Entre os denominados povos primitivos, o incesto não é possível, por causa do tipo de grupo doméstico que existe. Desde muita nova, uma rapariga deve casar com um homem de diferente clã, que toma conta dela e dos seus descendentes, porque são filhos da mulher (autoridade matriarcal), e do irmão da mãe, sítio a que devem aceder os rapazes treinados pelo irmão da mãe em idade púbere. Ou, como entre os Tallensi, mencionados por mim ontem neste sítio de debate, o acasalamento deve ser entre os denominados primos cruzados: o filho da irmã mais velha do seu grupo doméstico, está comprometido para se acasalar com a filha de um dos irmãos mais novos.

Os nossos hábitos são diferentes e a paixão e o amor apenas são permitidos entre pessoas não parentes entre si, ou entre pessoas de parentesco distante, ainda que consanguíneos, como tenho observado entre pessoas do clã Picunche que habitam na cordilheira dos Andes, entre a Argentina e o Chile, matrimónios de conveniência para juntar troços pequenos de terra, parte da sua herança, e formar assim propriedades de maior tamanho. Entre este grupo existe, embora seja condenado, o abuso infantil por adultos da família. Mas, como nos outros grupos referidos, não é pedofilia, apenas iniciação aos hábitos e deveres dos seres humanos masculinos.

Onde fica o amor, porém? É um sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atracçãoatração; grande afeição ou afinidade forte por outra pessoa (ex.: amor filial, amor materno), ou sentimento intenso de atracçãoatração entre duas pessoas ou paixão. São os nossos hábitos que devemos respeitar. Amor é a entrega de si a outra ou outro, hoje em dia é preciso distinguir pelas novas formas de matrimónio entre pessoas do mesmo sexo, aprovada este ano pela Assembleia da República e referendado pelo Presidente da República. Matrimónio que nem todos aprovam, mas que existe por força da atracção e da lei. Amor é uma força da natureza que mata a paixão para juntar duas pessoas no sentimento de afinidade com outra pessoa. Eis porque digo que a paixão mata o amor, enquanto o amor arrebita a paixão.

Comments


  1. Lembrei-me do Michael Meyer Y do seu livro “O Filosofo Y as Paixões” … Ou seja: o amor Y a paixão sob uma leitura filosófica, o seu percurso na História das ideia. Muito interessante … n sei se conhece. mas recomendo.

  2. Raul Iturra says:

    Muito obrigado pela a sua leitura e entusiasmo
    Abraço agradecido
    Raúl Iturra


  3. gaga

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