Cavaco e a comida

Soube-se ontem que Belmiro de Azevedo votará em Cavaco Silva na eleição presidencial. Perante a tentativa do jornalista para obter uma reacção, Cavaco Silva agradeceu o apoio dizendo “Vou jantar. Estou mesmo com muito apetite.” Uma tirada à altura da outra, mais antiga, do bolo-rei.

Cavaco já ganhou umas presidenciais sem abrir a boca e aposto que vai procurar repetir a façanha. Mas em vez de tentativas de encher a boca com bolo-rei para não responder ao jornalista ou de desculpar-se com o tirano apetite, sempre podia ter dito algo com uma réstia de maturidade. Como o clássico “não tenho comentários a fazer neste momento”.

Mais um episódio do político português (vivo) com o maior número de anos no activo mas que afirma não ser político.

Fica aqui o texto de opinião de Belmiro de Azevedo, saído hoje no Público (sem link, edição impressa).

«Indiciei há algumas semanas que só me pronunciaria sobre as eleições presidenciais depois da discussão e votação do Orçamento do Estado e da apresentação de candidaturas à Presidência da República.

Deste modo, torna-se clara a razão pela qual não podia satisfazer dezenas de pedidos de entrevistas acumulados ao longo do ano. O texto de opinião infra esclarece as razões que me levaram a só agora clarificar a minha posição sobre as eleições para a Presidência da República e a manifestar a minha segunda (e imagino última) declaração de voto face a um acto eleitoral.

Numa outra possível intervenção, a divulgar mais tarde, poderei emitir a minha opinião sobre questões de natureza conjuntural, na linha do discurso que proferi recentemente, na Universidade Católica, a propósito da pergunta “Ainda vale a pena investir em Portugal?”.

A actual crise económica, financeira, de liquidez e de sustentabilidade é tão ou mais grave do que a crise política de 1975, a qual levou à minha decisão de, em 1985, manifestar publicamente, e pela primeira vez, a intenção de voto nas eleições presidenciais desse ano. Nessa altura afirmei que as eleições “… só serão importantes se forem feitas em volta de projectos concretos para a solução de alguns problemas. Se continuarem a ser amorfas, abstractas, em volta de “chapas” (como dizem os brasileiros) e não de pessoas, e da seriedade dessas pessoas e dos seus projectos, continuaremos a perder tempo…”.

As eleições presidenciais, marcadas para 23 de Janeiro de 2011, assumem uma importância que não tinham há muito. Chegámos, e não por falta de avisos, a um ponto em que qualquer passo em falso nos fará cair no abismo. Considero por isso ser minha obrigação, enquanto cidadão empenhado, contribuir publicamente para a discussão sobre o nosso futuro.

Está em jogo a sustentabilidade do país – simplificadamente é disto que se trata. A mera sobrevivência não nos chega: temos que mudar radicalmente a forma como tem sido gerido e gasto o nosso dinheiro; temos que pensar seriamente o modelo de Estado e alterar o paradigma da educação.

A aposta na “Educação para a liderança”, em especial, deve ser feita tanto nas universidades como nas empresas, mas sobretudo na política, onde a formação de líderes assume particular relevância e urgência. Se não tivermos a coragem de mudar, não demorará muito tempo até que chegue a próxima crise. E com ela mais um esforço pedido às empresas e aos portugueses. Mas a nossa capacidade tem limites.

O nosso défice é estrutural. Gastamos o que não temos. Nunca houve tantos desempregados, nunca a dívida pública e o endividamento externo foram tão elevados. As medidas de austeridade, apesar do optimismo das previsões do Governo, vão trazer-nos uma mais do que provável recessão.

A classe política, na sua generalidade, vive mais do ruído inconsequente do que da reflexão e do silêncio. Abundam vendedores de ilusões que defendem soluções que seriam absolutamente trágicas para aqueles que afirmam defender. A luta por “títulos” na comunicação social que nada têm a ver com os problemas reais dos portugueses é ensurdecedora. E muitos protagonistas não têm suficiente preparação, dependem pessoalmente dos respectivos partidos e perderam a noção da realidade. Para piorar um cenário já pouco recomendável, não existe actualmente uma maioria no Parlamento – e, à excepção do orçamento, acordos políticos que garantam estabilidade governativa afiguram-se como praticamente impossíveis. A resolução da crise económica profunda que vivemos é incompatível com o longo calvário de instabilidade política (nove meses, no mínimo) a que a actual Constituição nos obriga.

Os mercados olham cuidadosamente para os detalhes. Cada hesitação sobre o futuro, cada tropeção político é pago com um fortíssimo aumento da pressão de agências e investidores internacionais, uma pressão que nos começa a asfixiar. Há quem preveja a inevitabilidade de mais medidas de austeridade para os próximos meses, e quem acredite ser indispensável a intervenção internacional, designadamente do FMI.

Não existe futuro sem empresários confiantes e bem sucedidos. Só isso fará crescer o emprego e a produção. Mas também não existe caminho sem trabalhadores motivados e empenhados. E as duas coisas não são possíveis se escolhermos um Presidente que aumente ainda mais o ruído e as quezílias. Poderá parecer uma banalidade, mas a verdade é que cada vez mais se sente que o país precisa desesperadamente de mais actos, e não de mais palavras.

Sinto que o povo português está cada vez mais culto e, sobretudo em questões fundamentais, tem sido, é e será sábio a votar. Por isso, ao indicar em quem vou votar, cumpro apenas o que julgo ser o dever de divulgar a minha preocupação, a minha ponderação e a minha escolha. Faço-o, perante este momento que Portugal vive, como excepção à minha reserva sobre matérias eleitorais, pela segunda vez e espero que pela última.

Respeito todos os candidatos, o exercício da liberdade de expressão, da liberdade de candidatura e a vontade de ser útil. Nutro, até, uma simpatia particular para com o candidato Manuel Alegre, pelas suas qualidades humanistas e pelo seu longo e empenhado percurso de defensor das liberdades.

Estou seguro, no entanto, que só o prof. Cavaco Silva, neste momento, dispõe das competências certas – adquiridas quer como governante, quer enquanto Presidente -, para, com vontade e determinação, garantir um segundo mandato sereno e construtivo.

Na verdade, o que está em equação nas próximas eleições presidenciais é escolher o candidato que mais garantias pode oferecer aos portugueses. Um Presidente à altura das nossas dramáticas circunstâncias. Se, noutros sufrágios, existia a possibilidade de podermos usar o voto por simpatia ou experimentalismo, neste momento o sentido do voto é decisivo.

Com o país à deriva e uma classe política desmembrada, precisamos de um Presidente da República que possa ser um ponto de coesão e de equilíbrio. Com as pressões que se exercem sobre a nossa asfixiada economia, precisamos de um Presidente da República que ofereça segurança aos mercados.

Na actual conjuntura, o país não pode ter um Presidente que minimize a importância e o contributo decisivo das empresas (grandes e PME) para o desenvolvimento de Portugal.

Com a possibilidade de o Governo poder cair a qualquer momento, e com uma Constituição que infelizmente não assegura soluções expeditas, precisamos de um Presidente da República com a experiência suficiente para nos assegurar condições de governabilidade. Precisamos até, em suma, de um Presidente da República que possa, se tal for necessário, utilizar os conhecimentos da sua acção executiva para aconselhar os dec
isores e influenciar o curso das coisas.

São conhecidos os grandes desencontros que houve, no passado, entre o político Cavaco Silva e o gestor Belmiro de Azevedo. E, de qualquer modo, quem me conhece sabe que jamais escolheria esta circunstância do país para ajustar contas ou sequer lembrar agravos. O tamanho do problema exige clareza e elevação do espírito – vou, por isso, decididamente votar Cavaco Silva. Empresário, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Sonae»

Belmiro de Azevedo – 27-11-2010

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