Pensar pouco sabe tão bem

A direita básica não quer pensar sobre o que se passou ontem no Pingo Doce. Prefere contentar-se com uma possível derrota dos sindicatos, opta por se congratular com o exercício da liberdade consumidora ou consumista numa homologia ansiada com o funcionamento dos mercados, acusa a esquerda caviar de olhar de cima para a povo que lutava, com toda a justiça dos deserdados, por poupar e antevê, gozosa, o regresso ao tempo em que os trabalhadores estavam proibidos de comemorar o Primeiro de Maio.

A sociedade faz-se, também, de simbolismos. Depois de milhares de anos em que nem os trabalhadores pensavam que tinham direitos, depois de eras sobre eras de pirâmides e conventos sofridos por muitos para glória de poucos, os proletários descobriram que tinham os mesmos braços, as mesmas pernas e o mesmo sangue dos faraós, dos reis e dos patrões. Deu-lhes para pensar que a vida não é só trabalho e que o trabalho só é produtivo se for doseado, mas levou muito tempo a obrigar a sociedade a convencer-se disso. É essa conquista que se comemora no Primeiro de Maio, independentemente de dever ser feriado, dia santo ou dia de trabalho.

O problema, ó dextros distraídos, com aquilo que se passou no Pingo Doce não está na justíssima vontade de pagar menos ou de vender mais. O problema está no desprezo progressivo pelos direitos, na absoluta falta de sensibilidade, na exploração comercial da miséria que se tem avolumado com a incompetência de governantes e opositores (como lembra, de modo lúcido e luminoso, o nosso Palavrossvrvs) e está, sobretudo, nas consequências imprevisíveis e previsivelmente explosivas. Entretanto, Assunção Cristas, pobrezita, assustada, talvez por saber que faz parte do problema, finge que o resolve, usando a lei como ilusão.

Pela parte que me toca, vou pensando e duvidando com o lado esquerdo. É o suficiente para não ficar descansado com o que se passou no dia 1 de Maio de 2012.

Comments


  1. Parece-me que o fenómeno “pingo doce” revela, por um lado, que podemos estar a caminhar para uma situação explosiva – empobrecimento generalizado, com cada vez mais gente a passar necessidades e disposta a tudo para garantir o seu sustento – sem válvula de escape suficiente – as pessoas deixaram de acreditar em partidos, manifestações ou similares como forma de expurgarem as suas angústias – para evitar que se caminhe para uma situação de revolta na sociedade portuguesa – basta pensar na irracionalidade dos confrontos que ontem se verificaram. Por outro lado, parece-me que este desprezo pelos sindicatos, manifestações e direitos do trabalhador revela uma falta de visão política a longo prazo, pois fazê-lo numa altura de crise social é alienar válvulas de escape inóquas e necessárias, correndo o risco que o feitiço se vire contra o feiticeiro…

  2. maria celeste ramos says:

    Este 1º de maio 2012 não dará para esquecer até porque houve “protagonistas” de pêso estilo PR + associação 25 abril – não foi só “o povo” -++ outras


  3. Ainda dizem que não há luta de classes….

    Os poderosos, sabiamente, usam bem os conhecimentos de Marx.

    Ainda dizem que não gostam do senhor. Olha, olha, não gostam mas ….


  4. Como dizia a madre superiora no convento em vias de ser tomado pelo exército, com aqueles homens todos: Guerra é guerra! Guerra é guerra!


  5. A Dextra Enganosa,aquela que a maioria quis a 5 de junho.Eu não tenho culpa!

  6. miucha says:

    VERGONHOSO! VERGONHOSO! VERGONHOSO!

  7. alguémquefalou says:

    se a mesma empresa fizesse o mesmo na Holanda, por exemplo, ou noutro qualquer país economicamente sustentado, não iria acontecer o mesmo? veja-se também que a jerónimo martins só teve a ganhar com isto: o que importa aparecer negativamente nas notícias se se aparece constantemente nas notícias? o que importa uma mera multa de 30mileuros ou lá o que for quando se ganham milhões todos os dias? o que importa o que pensam os sindicatos? o que importa para eles o que pensa o povo? desde que nósnãosabemosquem continuem a embolsar os trocos do povo, que importa?! façamos o que fizermos, eles ganham sempre. a máquina funciona assim. obrigada

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  1. […] Fernando Nabais, no Aventar, May 02, 2012 at […]

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