Não consigo perceber porque é que os políticos têm a convicção generalizada de que o povo é burro

José-Manuel Diogo

Mas deve ser por isso que pensam que um voto é uma emoção e não uma convicção. Que um discurso é uma forma e não um conteúdo. Que uma mentira é apenas outra versão possível da verdade. Que a traição é só uma questão de datas e que a comunicação social tem a obrigação de relatar acriticamente as insanidades irresponsáveis com que a classe politica nos brinda todos os dias.

Porque é que nenhum tem coragem para dizer às pessoas que é preciso empobrecer? Que vivemos os últimos trinta anos numa ilusão de riqueza impossível num país tão pequeno e tão pouco produtivo como o nosso? Que daqui para o futuro, é preciso ganhar menos e trabalhar mais, ir menos de férias e ajudar mais os outros. Ser menos egoísta e mais solidário. E principalmente ser feliz assim.

Porque é que então se insiste num discurso paliativo sobre o futuro quando o presente demonstra que esse mesmo futuro vai ser difícil e em muitos casos dramático? Por uma razão simples: a maior parte dos políticos acha que o povo é um meio e não um fim.

Esta ideia está fundada numa razão geracional: os filhos da revolução dos cravos, essa geração de “facilidades” que presentemente preenche a classe média, preferiu até agora ser liderada por políticos redondos e estéreis. Fê-lo prazenteiramente ao melhor estilo de avestruz, recusando reconhecer quaisquer responsabilidades. Fazendo de conta que vivia no melhor dos mundos. Sem assumir que trabalha pouco, sabe pouco, que é desorganizada e preguiçosa.

Mas há uma novidade! Esta geração parva, como tão bem a batizou os Deolinda, também sabe que “isto” não pode continuar. Pode pela primeira vez perceber – porque a necessidade aguça o engenho – que enfrenta não um fim de ciclo, mas sim um fim de regime. A geração parva sabe que tem de mudar de vida.

O momento atual encerra pois uma oportunidade de ouro. Quem quiser ganhar o poder tem de utilizar um discurso que vá de encontro à mais profunda crença das pessoas. Um discurso que lhes diga, não o que elas querem ouvir, mas aquilo que elas sabem que têm de ouvir. Pela primeira vez em muito tempo as pessoas estão preparadas. Precisam de um pai. Diferente da mãe que Manuela Ferreira Leite já não podia ser.

São raros os momentos em política onde a propaganda é menos eficaz que a verdade. Este é um deles.

Mas temo que tal não aconteça, pois é sempre mais confortável encontrar alguém a quem atirar a culpa da nossa incompetência.

Comments

  1. eyelash says:

    José-Manuel, estive para colocar no seu texto, “não gosto”! de facto, não gosto, mas como existem nele algumas boas intenções, qualquer “não gosto” que lá apareça, não será o meu.


  2. O “discurso” do texto parte de pressupostos que são a “cassete” do actual poder. Nem mais nem menos! Daí que não traga qualquer novidade… Pelos vistos o autor deixou-se convencer. “Vivemos acima das nossas possibilidades”… “Gastámos demais”… “Agora temos de pagar” e de nos mortificar…. Expulsar o “pecado” do corpo…
    Nada mais errado ou mais estúpido! Será que Portugal é o único “entalado”? Não parece… O que parece é que o mundo, e “as democracias” se deixaram “comer” pela sofreguidão especulativa de uns quantos. E esses, com os mesmos “cordelinhos” que fizeram a “asneira” vem agora “pintar” a realidade obscura que criaram com as tintas dum “pecado colectivo” (que muitos já engoliram…).
    A civilização tem um rumo. Para cima! No sentido da melhoria tecnológica e das condições de vida das pessoas. Como dizia o Agostinho da Silva, no futuro o homem gozará da liberdade de ter tudo ao seu dispor por efeito da sua própria criatividade. Quando este ciclo se interrompe a humanidade entra em decadência. Todos conhecem aquela imagem engraçado da progressão do macaco para o “homo sapiens”. Regredir seria ver nessa imagem andar para trás.
    Depois há também que considerar uma outra coisa muito simples que parece sempre esquecida… Quem “gastou demais” não foram os cidadãos ou as famílias (na generalidade). Esses continuariam a pagar as suas contas se o “regime” não lhes tivesse trocado as voltas com desemprego e austeridade. Quem gastou acima das suas posses foi este Estado que ainda não conseguiu convencer-se que já não é império, e que se resume hoje a 10 milhões de pessoas e ainda menor quantidade de contribuintes… Um país assim não pode manter a estrutura que teve no passado. Quantas cidades existem com 10 milhões de habitantes? Há alguma que tenha uma esquadra de F16, submarinos, “Leopards”, governos centrais, regionais, etecetra-e-tais? E toda a confusão de estruturas e sub-estruturas, e “Mercedes”, e chaufeurs, e secretárias e comissões e sub-comissões… E cineastas a pedir dinheiro para fazer filmes de merda que ninguém quer ver. E cidadãos a pedir à Câmara Municipal para lhes varrer a porta quando o poderiam fazer eles mesmos, etc, etc, etc.

  3. Filipe DPR says:

    Concordo mas há um “mas”. Não temos empresas para ,no curto prazo, absorver toda a gente que trabalha neste Estado de império que acabaste de referir. Aí é onde está o desafio dos nossos dias,

  4. MAGRIÇO says:

    Também me senti um pouco frustrado porque o texto não correspondeu às expectativas prometidas pelo título. Pelo seu conteúdo parece – perdoe-me o autor se estou a ser injusto – uma extensão do discurso oficial, sobretudo pelo equívoco parágrafo “O momento atual encerra pois uma oportunidade de ouro”. Onde é que eu já ouvi isto?


  5. @ Filipe DPR – Pois, o teu “mas” é mesmo o que complica a coisa!… Mas é preciso primeiro saber o que se quer…. – Será que os governantes sabem? (deste governo de mentirosos ou do “outro” governo de mentirosos, dado que governam à vez…). E depois de identificado o objectivo é preciso andar com “calminha” para não partir a loiça toda… Estou convencido que uma parte da nossa “crise” foi causada diretamente pela “boca larga” do Passos Coelho ao “amedrontar” as pessoas nos limites da paranóia com a comunicação social logo atrás a esticar a corda ainda mais…. Com isso deu-se um forte safanão no mercado interno… O em que operam a generalidade das empresas….
    Pessoalmente acho que deviam ser todos presos – PS e PDS – … mas só até se entenderem sobre questões de fundo em vez de andaram para aí a armar-se em “primas donas” dum país à beira de um ataque de nervos!… 😉
    Por último, é uma tristeza um país não conseguir gerir outras opções de governação credíveis e lúcidas. Gente que consiga abandonar a retórica política do lugar comum e virar-se para a realidade das pessoas…


  6. ERRATA: … no anterior onde se lê “gerir” deve ler-se “gerar”. Gestores já temos até de mais… Gerar alguma cosia de novo é que parece difícil…

  7. maria celeste ramos says:

    Perdão – não – não é preciso ganhar menos e trabalhar mais – mas é preciso ROUBAR menos – os que roubam – meia dúzia apenas roubam o que pertende a mais de 100 – é fazer contas – ouvir políticos e comentadores politólgos é mesmo e tão intoxicante que nem se quer pensar – é cassette e ei nem do PC quero cassettes – e o hofe não aocnteceu hoje -é preciso ir mais atr´s e não precisa de ir a Afonso Henriques para perceber –

  8. Fernando says:

    Texto revela um pensamento mesquinho que é, infelizmente, demasiado vulgar! É um discurso quase religioso…

    Se o autor presta-se um pouco mais de atenção à realidade de outros países, constatava que esse discurso do “vivemos acima das nossas possibilidades”, e “temos que aprender a viver com menos e ser felizes assim” não é um exclusivo nacional, e não estou a falar da Grécia, falo de economias muito maiores.
    Será que o autor ainda não percebeu que “austeridade” é um vírus que se espalhou um pouco por todo o ocidente, e continua a alastrar?
    Será que o autor não está ele próprio a viver numa realidade fabricada? A viver uma fantasia à qual se acomodou?

    Não leve a mal mas, acho que está a ser muito pouco exigente, da mesma forma que outros aceitam o despesismo sem limites, o autor aceita a austeridade sem limites e injustificada. Ambas são formas de radicalismos assentes em fantasias…

  9. metalurge says:

    Depois de 38 de democracia… ficámos espertos…?

  10. nightwishpt says:

    Ainda pensava no seu argumento senão houvesse gente a receber brutais aumentos de salário.

  11. patriotaeliberal says:

    “E principalmente ser feliz assim”

    Pobre?
    A trabalhar mais e a ganhar menos?
    A nivelar tudo por baixo para não se ser egoista?
    A mandar os filhos emigrar?
    A não poder ter os filhos a estudar?

    Mas que estranho conceito de felicidade.

    Fique o senhor com esta felicidade para si e para os seus e não me venha impingir estes paternalismos.

    Leia o que diz este senhor que enfia esta retórica dos pobrezinhos para onde ela deve ficar – na indigência dos palermas:

    “(…) Mete-me uma raiva especial quando vejo o governo a justificar as suas políticas e as suas preocupações de manter e conservar e valorizar o estado social do país. Pois se há alguém que esteja a destruir o estado social do país, é o governo, com o que se passa a nível da saúde, a nível da educação, a nível da vida das famílias, dos impostos, dos remédios, mas que tem só atingido as pessoas menos capazes, enfim as pessoas que andam no chão, as pessoas que estão cada vez com mais dificuldades em viverem o dia-a-dia, precisamente por causa destas medidas do governo.(…)”

    D. Manuel Martins, Bispo Emérito de Setúbal

  12. patriotaeliberal says:

    O governo tem dito que temos de empobrecer e de mudar de vida, caso alguém não tenha ainda entendido. E é todos os dias. E temos de deixar de ser piegas e encarar o desemprego como uma ressurreição, como uma janela de oportunidades.

    Ai, os pobrezinhos, tão engraçados……ai como é bom ser pobrezinho, mas bonzinho. Quando crescermos queremos ser todos pobrezinhos e muito felizes e blá blá, rebéubéu pardais ao ninho.

    Ai!

  13. patriotaeliberal says:

    Os pobrezinhos…..

    Os pobrezinhos.

  14. Dora says:

    Ai!

    Os Ais de tanta felicidade!

  15. Dora says:

    A Felicidade do pobre

  16. patriotaeliberal says:

  17. patriotaeliberal says:

    “Porque é que nenhum tem coragem para dizer às pessoas que é preciso empobrecer? ”

    Temos um político corajoso. Ora veja lá:

    “O primeiro-ministro defendeu hoje que Portugal só conseguirá sair da actual crise «empobrecendo» e desafiou quem conheça forma de diminuir a dívida e o défice «enriquecendo e gastando mais» a dizer como isso se faz.”

    «Não vale a pena fazer demagogia sobre isto, nós sabemos que só vamos sair desta situação empobrecendo – em termos relativos, em termos absolutos ”

    http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=32031

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