A doença maldita

Por Noémia Pinto

Há doenças que são uma merda, perdoa-me a expressão. E tu és das piorzinhas que por aí andam. Atacas pela calada, matas lenta e silenciosamente. Apoderas-te de quem é forte e a tua cobardia leva-te a desferir sempre os golpes mais baixos, minando primeiro todas as formas de defesa dos teus inimigos e só depois dando a cara. És repulsivo. De repente, pessoas que tinham saúde transformam-se em marionetas, bonecos nas tuas mãos experientes na arte de matar. Pessoas que, na maior parte das vezes, nada fizeram para que as maltratasses tanto.
Revolta-me que tanto seja feito pela investigação e desenvolvimento de armas e tão pouco se faça para uma luta massiva e incessante cujo objectivo único seria o de te abater, reduzir-te ao lixo que és. Revolta-me que continues a atacar qualquer ser humano, aparentemente de forma indiscriminada.
Sabes, eu tenho muitas pessoas e tu, maldito, já me roubaste algumas.
Gosto de pessoas. Gosto de as conhecer, de as sentir entranhar-se em mim, de tal modo que acredito mesmo que o sofrimento e morte de qualquer ser humano, excepto muito raras excepções, constitui uma perda para a humanidade. Acredito que as pessoas que passam por nós, pelas nossas vidas, deixam a sua marca na nossa epiderme. Penetram-nos a pele de forma tão intensa que nunca mais deixam de lá estar. Todos temos um bocadinho de todos os outros.
Quando os sinos dobram, eles dobram mesmo por cada um de nós, pela perda de mais um «dos nossos», mesmo que seja um desconhecido.
Deixa-me falar da última «minha» pessoa a quem declaraste uma guerra impossível de vencer. A mãe do meu amigo P, avó de três meninos lindos, foi sempre uma pessoa saudável, forte, trabalhadora, um porto de abrigo para a família. Mulher de um génio forte e indomável, foi sempre uma lutadora.

Nem sempre concordei com as lutas dela. No início detestava-a porque fazia sofrer os meus amigos. Em conversa com outras pessoas, não éramos muito elogiosos para com a senhora. E no começo do nosso relacionamento mais próximo, engoli muitos sapos, pelos filhos e pela nora, para não a maltratar e fingir alguma simpatia.

Mas, como acontece com todos os seres, ela entranhou-se-me. Marcou-me. Passou a fazer parte da minha vida, ainda que em escassos momentos. Passei a gostar dela.
Por isso, quando tu te anunciaste, escondido num cantinho inacessível do seu cérebro, foi um choque. Custou-me e ainda me custa a aceitar aquela morte anunciada. Aquela mulher, garante de segurança para marido, filhos, netos, tornou-se uma sombra do que era. Já não tem forças para lutar pela sua vida. Já não consegue dizer os nomes dos que mais ama… A sua essência desapareceu. Ficarão para sempre os momentos bons e maus que com ela vivemos. «Pois é…» era a forma como ela muitas vezes terminava as frases ou as conversas.
Por isso te digo, maldito, desaparece! Xô, andor, põe-te na alheta! Deixa as pessoas em paz!

Comments

  1. palavrossavrvs says:

    Ainda hoje, à mesa, perante as narrativas deliciosas-repetidas do meu querido Paisinho, disse para que todos ouvissem ser nossa responsabilidade evitar falecer. E é isso. Por quem amamos. Por quem nos ama. Não nos deixemos falecer.

    Beijo, Noémia.


  2. Xô doenças!

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