Falar claro

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Os moralistas não gostaram do dedo de Peer Steinbrück, apanhado em falso para uma sessão fotográfica do Süddeutsche Zeitung (SZ), enquanto respondia a uma pergunta estúpida e sem relevância política alguma. A gaffe pode custar-lhe a vitória nas eleições alemãs do próximo fim-de-semana, mesmo se, e segundo as sondagens (esse remédio santo do marketing cujas antevisões costumam fazer subir a abstenção), ganhá-las esteja longe de ser uma possibilidade. A rubrica do SZ chama-se qualquer coisa como “Não digas nada agora”, e consiste em pôr uma celebridade do momento a responder gestualmente a perguntas provocadoras.

A imagem é agressiva, facilmente prejudicará Steinbrück, mas será pena, pois o gesto, tal como vários cronistas o referiram já, humaniza-o, e afasta-o desse moralismo bacoco que imediatamente se chegou à frente para o censurar – alguma imprensa chegou mesmo a publicar a imagem desfocando o dedo considerado obsceno (!). Na verdade, o gesto não tem qualquer significado político, nada diz sobre o que o SPD defende, mas infelizmente tem gerado receitas de popularidade para o Partido de Angela Merkel.

Felizmente que nem todos se prestam a abraçar o moralismo de horizontes curtos, e houve também quem tenha considerado o gesto de Steinbrück o mais autêntico de toda a campanha alemã. Antigo Ministro das Finanças, contando 66 anos, Steinbrück não é propriamente um maçarico, e tem a seu favor uma posição perante a UE que o torna um candidato infinitamente menos perigoso do que Merkel, a chancelerina filha de um pastor protestante que, fazendo coraçõezinhos com as mãos (a imagem de marca da campanha da CDU), está a dar cabo da Europa. “Falar claro nem sempre exige palavras” disse Steinbrück. Ora aí está uma grande verdade: basta olhar para as  mãos de Merkel.

Comments

  1. Maquiavel says:

    Pelos resultados das sondagens pós zé-liso, o gesto näo aqueceu nem arrefeceu.
    Já o gesto da Merdkel näo é um coraçäo, é um triângulo… o “Triângulo do Poder”.

  2. Naquela “terra distante” e obscena qualquer gesto faz dinheiro e ainda bem que o dedo não tem artrose e devia ser imortalizado em barro de Bordalo Pinheiro que das suas malcriadices fez arte e, pelos vistos, continua a fazer dinheiro

Trackbacks

  1. […] (…) A imagem é agressiva, facilmente prejudicará Steinbrück, mas será pena, pois o gesto, tal como vários cronistas o referiram já, humaniza-o, e afasta-o desse moralismo bacoco que imediatamente se chegou à frente para o censurar – alguma imprensa chegou mesmo a publicar a imagem desfocando o dedo considerado obsceno (!). Na verdade, o gesto não tem qualquer significado político, nada diz sobre o que o SPD defende, mas infelizmente tem gerado receitas de popularidade para o Partido de Angela Merkel. / (…) O texto todo aqui. […]

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