Bárbaros à civil

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Quando pedimos a alguém um bom exemplo de um Estado organizado, justo e solidário nunca ouvimos como resposta um país africano ou um país subdesenvolvido. No entanto, é aqui que encontramos as maiores percentagens de “empreendedorismo” (por todos os santinhos, leiam e memorizem este artigo). Ou seja, quando um governo assume como política o “cada um por si” (ou na novilíngua, “empreendedorismo), sabemos que vivemos na selva. Sabemos que o Estado foi destruído, foi desmantelado.

Como estamos a uns dias de 2014, recupero este texto que escrevi em Janeiro de 2012.

Contaram-me que este episódio se passou durante o período da recruta com alguém que cumpria o Serviço Militar Obrigatório. Decorria a tradicional semana de campo, actividade habitual neste tipo de obrigatoriedades. Farto de obedecer às constantes ordens do instrutor e dos exercícios propostos – o mais famoso era o “queda na máscara” que consistia em atirar-se rapidamente para o chão à dita ordem -, um recruta, num momento de pura inspiração, levanta-se após o tal repentino mergulho para o matagal, atira a arma violentamente para o chão e diz: “Foda-se, não brinco mais. Vou-me embora.” Virou costas e caminhou calmamente em sentido contrário.

Regularmente convém lembrar às mentes mais torpes de como tudo isto começou. A traço grosso e saltando etapas. Os povos após terem vivido durante milhares de anos em grupos mais ou menos reduzidos e depois de abandonarem uma vida de nomadismo misto de transumância, fixaram-se numa determinada área. Contudo, continuaram a viver em pequenos grupos bastante separados uns dos outros, consumindo apenas o que produziam: agricultura e pecuária rudimentar. Sempre que alguns dos grupos vizinhos passava um período de fome atacava o outro. O mais forte e astuto (e muitas vezes desonesto) vencia. Era a barbárie. Cada um pensava apenas em si e na sua sobrevivência. No entanto, grupos houve que se concentraram num único local, viviam muito mais próximos uns dos outros, aumentando assim a sua capacidade de defesa. Como não podiam produzir todos os mesmos produtos, as profissões foram-se diversificando e especializando, a economia deixou de ser troca por troca, criou-se uma moeda para esse efeito, apareceram os impostos que seriam aplicados no melhoramento desse espaço e na defesa dos seus habitantes, ou seja, surgiram as cidades. Deu-se assim início à civilização. Por esta altura, decidiu-se também que seria necessário eleger os representantes dessa população e que estes ficariam encarregues de gerir, administrar, aplicar a justiça, organizar a defesa desse espaço e de todas as outras questões que fossem surgindo diariamente. A Pólis muito basicamente surgiu assim: da necessidade de governar o espaço público, a cidade, isto é, a civilização. Ora, quando esses representantes/governantes não aplicavam os impostos ao serviço da comunidade, mas pelo contrário, era utilizado em causa própria, era o caminho para a barbárie. A cidade ficava mais sujeita a ataques exteriores, a própria população ia deixando de se identificar com os seus representantes. Era mais fácil para os seus inimigos invadir e ocupar esse território. As consequências mais nefastas dessa invasão sobravam sempre para os mais desprotegidos.

O que se está a passar em Portugal não é assim muito diferente. Vivêssemos nós uns séculos atrás e seria muito fácil a um qualquer país ocupar este rectângulo. A população não reconhece qualquer legitimidade aos seus representantes. Deixaram de governar para o seu povo (que o elegeu) e passaram a governar para uns quantos poucos. Ora, quando nos tentam incutir a competitividade como modelo, por outras palavras, vence o mais astuto, o mais forte e, o mais das vezes, o mais desonesto, caminhamos a passos largos para a barbárie referida anteriormente. A civilização floresceu, porque todos cuidavam de todos, mas quando apenas se cuida dos mais fortes, regredimos historicamente para o período selvagem. O mesmo acontecerá à Europa como espaço organizado numa União. Desta forma, quebrar-se-ão os elos que unem os povos que a compõem. Vencerá o mais forte. Mas como vivemos numa economia global, o mais forte na Europa não sairá vencedor. Neste planeta global existem outros mais fortes. De momento, os ventos sopram de Oriente que não tem histórica, nem culturalmente, qualquer afinidade com os povos europeus. Quando defenderem a competitividade como modelo, não se esqueçam que o mercado é global, já deixou de ser local ou regional. A escolha é simples: a civilização ou a barbárie. E muito cuidado com os bárbaros que trajam à civil.

Comments


  1. È uma analise correta da catual situação que vivemos a nivel Global parabéns pelo artigo.


    • Obrigado.
      (o seu comentário foi parar à pasta de spam. As máquinas, às vezes, também são bárbaras 🙂 Mas agora está aqui.

  2. portela says:

    Empreendedorismo, mas isto é revolucionário, então já não somos os bons alunos? Querem lá ver que que ainda vai um chlick ao sujeito que está palácio.
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    Para o nosso sistema o normal é, vai um exemplo; nós, mediterrânicos, produzirmos figos, alfarroba, chicória, bolota e amêndoa. Vendemos por tuta e meia e depois compramos por bom preço, o extrato solúvel daqueles produtos, aos nórdicos alemães da Bioforce AG. Isto é que é empreendedorismo….alemão.
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    A má moeda expulsa a boa moeda. Por isso é que ele lá continua.
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    • Não é empreendedorismo alemão, é estratégia alemã. De Estado. Coisa que este “governo” não quer praticar.


  3. Bom post. Boneco com imaginação, que pena a arma ter só 5 tiros.


  4. Os bonecos são do tipo Space Invaders.

    Bem pensado!

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Space_Invaders

  5. portela says:

    Antigamente era normal dar corda aos sapatos, pois bem, não tarda, serão os sapatos a dar corrente eléctrica. Para breve o suficiente para fazer funcionar o telemóvel.
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    Mas o bom empreendedor vê mais longe, por exemplo no mesmo sapato uma aplicação eléctrica na biqueira, será o bastante para entar no âmbito da defesa pessoal: o pontapé eléctrico.
    Além disso, polos de sinal contrário atraem-se, logo, outra área com grande potencial de crescimento, se eu encontrar alguém interessante, activo o meu polo, se não for repelido, avanço.
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    • Se for ali para os lados de S. Bento ou Belém vai encontrar muita “gente interessante” para dar uso a esses sapatos eléctricos 🙂

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