São flores aos milhões entre ruínas

Não sei se gostei de 2013. Há anos que se fazem difíceis de gostar, é preciso peneirá-los bem para descobrir-lhes o brilho que a areia e a lama tentam encobrir. Não, não foi um ano fácil. Houve quem, de entre os meus mais próximos, tivesse a vida por um fio e eu nada podia fazer. Perdi coisas muito importantes, coisas que foram durante anos pilares na minha vida e sem as quais pensava que não podia viver. E afinal posso. Passei muitos dias de angústia, dois ou três de desespero. Também tive dias luminosos, horas felizes, por vezes arrancadas da lama. Fiz umas quantas asneiras, passos em falso, opções erradas, podia fazer um mea culpa de muitas coisas mas deixemo-lo para outro lugar. Vivi uma sucessão de acidentes, azares, moléstias, que me pareceu interminável e ainda não chegou ao fim. Quando pensei que nada poderia correr pior, correu mesmo. Aprendi que se pode viver com a tristeza, deixá-la ocupar um quarto permanentemente, mas nunca toda a casa.

Não é sempre que nos toca um ano assim. Se a minha vida fosse uma vinha, este ano daria um vintage. Reconheço, e sim, digo isto com orgulho, que tenho mais cabelos brancos, uma ruga na face direita que no ano passado ainda não se via, que me emociono muito mais do que antes, porque como diz a Mary Oliver, é bom que o coração se nos parta para que se abra e nunca mais se feche ao mundo, e o meu coração partiu-se umas quantas vezes este ano e não voltou a fechar-se.

Tudo piorou à minha e à nossa volta, senti a força a crescer-me nos dedos e a raiva nos dentes e não soube que fazer-lhes. Muita impotência, uma esperança que se faz a cada dia mais fugidia, uma revolta que não sabe que fazer de si. Chego ao fim deste ano a sentir-me derrotada. E, como eu, imagino que muitos outros sintam a mesma derrota. Nunca foi tão fácil passar o dia deprimido. Com que facilidade podemos arrastar-nos como trastes velhos pela casa, pelo trabalho, se ainda o temos, pelas nossas ruas, e ver em tudo os sinais da crise que é mais, muito mais do que económica.

E é certo que a derrota até parece inevitável. Chegados aqui, com as mãos caídas ao longo do corpo, vencidos por tudo o que pesa mais do que nós, que faremos quando tudo ainda não arde, mas envelhece e enferruja e se corrompe? Venceram-nos pela nossa inércia, pela ingenuidade, pela descrença, pelo cansaço, pela impotência, pelo isolamento. A cada dia impõe-se uma afronta nova, a um ritmo que já nem nos permite indignar-nos, uma sucessão de bofetadas a que deixámos de conseguir responder.

Assistimos ao desmoronamento do que era para sempre, incrédulos, impotentes. Já não é apenas a nossa dignidade que é ameaçada a cada dia, é a nossa sobrevivência. Triunfam a corrupção e a injustiça, já nem sequer escondidas, agora patenteadas sem pudor pelos triunfadores. O inimaginável de ontem já começou a acontecer e o futuro fez-se sombrio. Um novo ano a chegar é motivo de angústia porque dele se espera que traga pior, porque é sempre possível pior e sentimos que ainda não vimos tudo o que nos está reservado.

Mas ser derrotado é apenas uma parte de um longo caminho, um revés, nem sequer um desvio. E há sempre uma esperança que se recusa a morrer, porque já viu o suficiente para saber que outros tempos hão-de vir, e uma nova centelha há-de acender-se. O mundo não acabou, estamos vivos, e até um mau ano pode ser o princípio, o motor de uma vida nova. Mas algo teremos de fazer que não apenas esperar o que há-de vir. Se não recuperarmos a nossa vida acabaremos por perdê-la, porque a vida sem esperança não será vida mas outra coisa, existência biológica, sangue a pulsar, um coração regular ou arrítmico, mas não vida. E ocorre-me muitas vezes que entre os rostos anónimos, entre a gente com que me cruzo todos os dias, os muitos mais com quem partilhei as ruas, haverá a mesma revolta e a mesma esperança, e que somos muitos. Na curva da estrada não se vê o caminho em frente, mas nem por isso podemos dizer que o caminho não existe, que a estrada acaba ali ou que será melhor voltar para trás.

Não quero fazer votos de esperança ingénua para 2014, quero que as minhas mãos e a minha voz se juntem às de muitos outros como eu e que possamos construir os dias que queremos viver. E é possível, tem de sê-lo. Façamos um grande ano.

 

PS: O título foi roubado, já perceberam. A um  grande, claro, só a eles vale a pena roubar.

Comments

  1. portela says:

    Obrigado Carla pelo seu testemunho, sábio e sentido; eu não fiquei indiferente, bem pelo contrário!. Um Bom Ano 2014.

  2. Santiago says:

    Identifico-me completamente com o texto/sentimento e acredito, acredito que Nós vamos ganhar a Vida!


  3. Como é bom ver traduzido por palavras os meus sentimentos.
    Um óptimo ano de 2014 pra si e para todos os seus.

  4. Sarah Adamopoulos says:

    Que belo texto, que bom, de repente sinto-me menos só. Obrigada Carla.

  5. maria says:

    Obrigada Carla Romualdo pelas suas palavras e pelo seu testemunho.Bom 2014.


  6. Olá Carla – é sempre muito bom lê-la – mas eu olho como terminou o meu ano no meu país e na minha cidade e RUA – não há cantinho que não tenha SACOS de LIXO, muito, a subir em monte cada vez mais alto – como se fosse o melhor dos sinais do que temos tido – LIXO – QUE agora temos de LIMPAR o lixo – sim, limpar – Porque são os que o não fazem que não aguentando tanto LIXO e o sabem LIMPAR – limpemos o lixo – TODO – porque o lixo é REAL à nossa “porta” – os cantoneiros não são suficientes – ajudemos os cantoneiros

  7. Carlos Fonseca says:

    Antes do mais, acredita que me emocionaste. Sabes que os fortes também sofrem; tu és uma mulher forte, triunfadora. Caiam os pingos oxidados, as pedras e os pesos da crise que caírem, vencerás…
    ‘A Força Esmaga a Fraqueza’ disse Saramago e ‘…há sempre uma esperança que se recusa a morrer, porque já viu o suficiente para saber que outros tempos hão-de vir’, sentencias tu.
    Como é bom ter uma amiga com a tua inteligência, capacidade literária e a grande qualidade humana de ser mesmo amiga de quem te merece. Faço por merecê-lo. Obrigado pela emoção.


  8. Aconteceu qualquer coisa ao comentário que eu pensei que tinha deixado (terei sonhado?) mas, sendo certo que já vamos no 4º dia de 2014, ainda nos faltam muitos. Agradeço e retribuo os votos para o novo ano e deixo um abraço especial aos aventadores Sarah e Carlos, a quem já saudei por outras vias.

Trackbacks


  1. […] «são flores aos milhões entre ruínas», escreve a Carla Romualdo no Aventar. […]


  2. […] posso ou não sei como. Sinto-me sozinha no meio de tanta gente, sinto aquilo que a Carla Romualdo aqui tão bem […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.