A legitimidade de tomar o país de assalto

Se te manifestas contra o Governo em Caracas ou Kiev (neste caso contra o de Moscovo), estarás a lutar pela liberdade e contra o absolutismo. Se te manifestas em Lisboa ou Atenas és um irresponsável incapaz de perceber que as tuas atitudes provocam consequências desastrosas junto dos mercados e dos investidores. Pouco importa se te sentes injustiçado, roubado ou enganado porque a legitimidade da tua revolta, ao contrário da dos nossos pares venezuelanos ou ucranianos, depende muito menos desses factores do que do apetite voraz de Wall Street ou da City londrina. O teu país está tão ocupado e vergado a oligarcas como a Crimeia. A única diferença é que em Portugal e na Grécia o poder político já assinou o pacto de vassalagem com o regime certo. Aqui o trabalho está feito.

Parece ser irrelevante se os protestos na Venezuela são instrumentalizados pela velha elite capitalista que se está completamente nas tintas para as aspirações dos venezuelanos que hoje arriscam o pescoço nas ruas. Essa elite não pretende mais do que recuperar o domínio absoluto sobre a economia que a “heresia” de Chavéz lhes retirou através daquele que, segundo o antigo presidente norte-americano e perigoso comunista Jimmy Carter, é o melhor processo eleitoral do mundo. A mesma elite que dirigiu, em 2002, a tentativa de golpe de estado patrocinado pelos EUA e cujas televisões manipularam imagens onde os apoiantes dos “rebeldes” disparavam sobre uma multidão de apoiantes de Chavéz passando estes por ser os próprios apoiantes de Chavéz. Desfez-se a mentira e o Ocidente assobiou para o lado como é seu hábito em situações semelhantes. Importante relembrar que, entre aqueles que tentaram sabotar o governo Chávez e orquestraram este teatro, se encontrava o puro e imaculado Henrique Caprilles. Se hoje Maduro age como um lunático, é bem ter em conta que outros lunáticos lhe oferecem todos os argumentos que um bom ditador precisa para oprimir o seu povo. Mas a solução, com toda a certeza, não passará por substituir um regime populista por um regime de oligarcas.

Em Kiev vive-se uma situação ainda mais caricata. O povo saiu à rua porque estava farto de ser governado por um ditador fantoche vassalo de Moscovo. A solução foi substituí-lo por um grupo de fantoches vassalos de Washington cuja única diferença para com os seus antecessores reside no facto de ninguém os ter eleito. Entre estes vassalos contam-se alguns membros do Svoboda, um partido neo-nazi assumidamente anti-semita e xenófobo, que recentemente mostrou ao mundo o tipo de procedimentos democráticos que o caracterizam. Sim, é este tipo de escumalha que agora negoceia com os tecnocratas europeus que supostamente nos representam. A Aurora Dourada aplaude, Geert Wilders e Marine Le Pen esfregam as mãos em êxtase pelos amigos que emergem triunfantes e sem sufrágio. O IV Reich está já ali ao virar da esquina!

É aquele nível de contradição a que os líderes europeus que supostamente defendem uma União Europeia criada para, entre outras coisas, combater o legado nazi, nos habituaram. Fazem discursos pomposos sobre liberdade de expressão e autodeterminação dos povos ao mesmo tempo que selam a sua nova “amizade” com a extrema-direita ucraniana. Censuram manifestações e manifestos dos protectorados da dívida enquanto acenam com mercados livres e financiamentos aos novos oligarcas ucranianos. Quem ingenuamente acha que isto tem alguma coisa a ver com solidariedade para com o povo ucraniano que se desengane: é imperialismo em estado puro e o único objectivo é abrir as portas da economia ucraniana aos grandes grupos económicos para onde irão um dia trabalhar. Isso e apertar o cerco geográfico a Putin. A única função do povo é pagar impostos e estar calado. Liberdade e autodeterminação são, para estes senhores, conceitos sem qualquer valor. Excepto quando de alguma forma contribuem para a conservação do seu status quo.

Posto isto, o que nos impede de seguir as pisadas dos freedom fighters da Venezuela e da Ucrânia? Tal como eles, somos governados por gente corrupta e desonesta, gente que endivida o país para oferecer rendas multimilionárias às elites que depois os chamam para os seus conselhos de administração. Tal como nos dois países, a justiça praticamente não existe e apenas serve para proteger a elite que a desenha. Tal como eles, somos reprimidos quando nos manifestamos. Tal como eles somos permanentemente roubados, enganados e submetidos aos caprichos da elite dirigente. Tal como eles, querem-nos remeter ao empobrecimento, vedar-nos o acesso a uma educação digna e privar-nos de cuidados de saúde básicos. Precisamos de mais argumentos para tomar o país de assalto? Afinal de contas, se estes argumentos são legítimos para venezuelanos e ucranianos, com certeza também o serão para nós. Será que o senhor Rompuy nos recebe em Bruxelas? Ou precisaremos de nos munir de suásticas para que nos abram as portas?

Comments

  1. JgMenos says:

    Há variada medicação disponível para reduzir os efeitos da azia.
    Não parece caber a análises grosseiras e comparações estravagantes cumprir essa função.

    • Nightwish says:

      Como é normal, os extremistas respondem com 0 argumentos. O habitual.

    • José Peralta says:

      Olá, JgMenos !

      Então vem aqui, destilar análise grosseira e extravagante?

      Escreveu algo no blasfémias, e foi censurado pelo “se não gosto, apago”, o ignóbil censor-mór e canina, untuosa e graxa voz dos “donos”, vitinho cunha, que lhe provocou essa azia ?

      Admiro-me muito que assim tenha acontecido ! Lá no blasfémias, tudo o que seja escrito por um bem comportado direitalho, o vitinho engole tudo…

      (Conselho útil : Kompensan – Carbonato de di-hidróxido de alumínio e sódio – 1 ou 2 comprimidos após actos censórios – à venda nas Farmácias. )

      Falo por experiência própria, depois de várias vezes censurado por esse fantoche ! Adivinha porquê ?

      Adivinhou :- Fui mal-comportado, “aquilo” a que você chama “extremista”, e chamei os boys pelos nomes…

      Resultado : Lápis azul e “azia”…


    • A que azia se refere JgMenos?

      Já agora agradecia que desenvolvesse a sua ideia sobre “análises grosseiras e comparações estravagantes” caso contrário não vou acrescentar mais nada aquilo que foi já dito pelo Nightwish.

      Obrigado


  2. Bom post.
    É obrigatório ver(roubado Novaziodaonda) http://www.youtube.com/watch?v=jzKbo_troww


    • Muito obrigado Adelino.

      O vídeo sobre o Equador já conhecia mas hey, só mesmo a ovelhada lacaia do corte financeira é que ainda não percebeu o jogo da dívida…

  3. Joam Roiz says:

    Excelente, João Mendes. Mas é preciso acentuar que a luta anti-capitalista tem como objectivo fundamental a criação de uma sociedade nova, onde o poder seja exercido e controlado directamente pelos trabalhadores, sem o recurso a mecanismos electivos manipuladores das consciências (como são as eleições burguesas), mas antes através de comités de base sujeitos a um constante escrutínio político e ideológico.

    • Abel says:

      Não percebo a insistência na ideia do poder ser “controlado directamente pelos trabalhadores”. Sou um ignorante mas creio não estar totalmente errado quanto ao facto de, independentemente do tipo de organização social e das bases em que assenta, mais cedo ou mais tarde criar-se-ão clivagens das quais decorrerão lutas pelo poder.
      Enquanto o individualismo se sobrepuser ao sentido de cidadania haverá sempre grupos e indivíduos que dominarão ou procuração dominar os restantes.
      Não quero com isto dizer que concordo com o estado de coisas actual, concordando em absoluto com o que é escrito no post. A esmagadora maioria está a ser explorada e manipulada para benefício de uns quantos.


    • Muito obrigado Joam Roiz!
      Não sei o que será o futuro mas com certeza que este modelo eleitoral manipulado não será a melhor opção. Não sei até que ponto poderia funcionar da forma que refere mas estou certo que é possível criar leis claras e objectivas para que o processo eleitoral seja menos manipulado e verdadeiramente representativo da vontade da maioria.

  4. Fernanda says:

    Aqui chegados, lê-se e ouve-se por aí a defesa de voto branco, abstenção e voto nulo, baseada na convicção (e quero levar isto a sério) do “são todos iguais”, não vale a pena, é uma forma de protesto.

    Ao olhar para as recentes previsões para estas eleições, fica-se pasmado com os resultados. Brancos, abstenções e nulos acabam por pôr PS e PSD na continuação desta dizem que é uma democracia de pobreza, falta de dignidade e falta de qualquer futuro diferente para nós, os nossos filhos e netos.

    O desemprego que grassa nas famílias, a desistência de estudos dos seus filhos, a emigração de tantos já formados, o corte na alimentação, na cultura, os velhos e pensionistas demonizados, a saúde e a prevenção da doença a serem assumidas como direitos dispensáveis porque dispendiosos. Enfim, gente que se habituou mal e que tem de se conformar ao empobrecimento, são realidades demasiadamente sérias para nos darmos ao luxo da “pureza” de votos em branco, nulos ou abstenções.

    Um grande badamerda para votos brancos, nulos e abstenções.

    • Fernanda says:

      Desculpem as falhas linguísticas do comentário anterior, mas já não há paciência para o corrigir.

      • José Peralta says:

        Fernanda

        A apologia do voto em branco, acho que não é por acaso !

        “Eles” sabem que o voto em branco , nulo e a abstenção só os favorecem !


    • Não podia estar mais de acordo Fernanda!!! a abstenção em si seria suficiente para gerar uma revolução eleitoral, levando qualquer partido, independentemente da sua dimensão, à vitória!

  5. Joam Roiz says:

    Meu caro Abel, não o julgo nada ignorante. A consideração que faz a respeito do meu comentário é, em absoluto, pertinente. O controlo do poder exercido directamente pelos trabalhadores exige uma cidadania responsável, a troca do individualismo por uma solidariedade activa. Sei bem que tal só poderá ser alcançado através de uma educação virada para valores identitários de base comunitária e levará algumas gerações a ser alcançado. A construção de uma sociedade nova pressupõe um homem novo, capaz de se entregar ao serviço do seu semelhante. É, sei-o, uma Utopia, no sentido de uma busca permanente. No caso, como antes disse, a necessidade de um constante controlo político e ideológico. Por outras palavras, uma sociedade nova consubstancia-se em revolução permanente. O comunismo não é o fim da História, pelo contrário, é sempre um processo nunca acabado de revolução em curso.

  6. Fernanda says:

    Enquanto a “utopia” não acontece, o que está em jogo é a capacidade de, através do voto, poder ser criado um “sobressalto” na vida política portuguesa e europeia.

    Pois que se “assustem” muitos e mais os mercados e mais os credores e mais o PR e mais uns quantos, e mais a chanceler porque quem tem andado assustado e espantado somos nós, e isto já é demais e não há cú que aguente.

  7. Joam Roiz says:

    Absolutamente de acordo, Fernanda. Neste momento, a luta anti-capitalista em Portugal e na Europa passa também pelo voto. Mas o voto não pode ser desperdiçado. Só vale a pena votar se não for no “centrão”. É preciso dizer, claramente, que o PS não é um partido da esquerda anti-sistema, mas um partido burguês onde tudo cabe: professores e funcionários públicos desiludidos, mas sem consciência idiológica de classe, pequenos e médios empresários iludidos, engenheiros e advogados sem clientes, economistas oportunistas à espera de uma qualquer sinecura, administradores e gestores avençados pelo capital e mesmo banqueiros e outros afins ligados à alta finança. Todos, por isso, temos de ter a consciência que o voto, só por si, não vai colocar o poder nas mãos de povo. Às vezes pode ser mesmo uma arma contra o povo. Como disse o Zeca, “é preciso vir p’rá rua gritar”, ou seja, criar as condições objectivas e subjectivas que abram caminho à revolução popular. Metaforicamente, recuperar a “alma” do 25 de Abril que a contra-revolução eanista do 25 de Novembro sufocou.

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