Compreendem agora os resultados das europeias?

1. Pouca vergonha. Sim, é o termo correcto. Uma pouca vergonha. Quem? Os partidos do centro. Desde a luta fracticida (literalmente pelo poder) de Costa e Seguro no Partido Socialista Português, passando pelos sucessivos escândalos que tem sido revelados publicamente nas últimas semanas no seio do UMP francês, pelo Hollandismo bacoco, degradante e tremendamente impopular, ou pelo tugúrio vazio de ideias que os Partidos de centro-esquerda europeu estão neste momento a passar. Salve-se Rubalcaba em Espanha e Matteo Renzi em Itália. Reconhecendo o total falhanço da sua liderança, decidiu demitir após mais uma derrota eleitoral do PSOE Espanhol nas europeias.

2. De Costa e Seguro. Não demorou quem, na imprensa, tratasse de publicar peças jornalísticas sobre as várias lutas travadas entre Seguro e Costa durante 30 anos na Juventude Socialista e no Partido Socialista. O que está a acontecer neste momento no Partido Socialista (hipótese de bicefalia; eleições primárias; luta intensa pelo poder entre as várias facções internas do partido; arregimentação rápida para que ninguém perca a sua oportunidade de entrar em São Bento caso a coisa se proporcione nas próximas legislativas) é o mais puro exemplo de descrédito que um político poderá dar aos cidadãos. Não tenho qualquer pejo em escrever que tanto Costa e os seus apoiantes como Seguro e os seus apoiantes, com tamanho rol de acontecimentos, não estão a por os seus eleitores em primeiro lugar (o povo português em primeiro lugar) mas sim os seus interesses pessoais, a sua vontade de chegar ao poder e a vontade que tem de dominar o seu partido. Aliando ao vazio de ideias demonstrado tanto por um como pelo outro (as melhores ideias que Costa lançou até ao momento foram a necessidade do PS virar-se para o valioso PCP; sem uma aliança com o PCP, o PS jamais terá maioria absoluta na próxima legislatura; e a necessidade de dotar o país de mais desburocratização administrativa; o dito simplex de Sócrates; nada de novo; de forma a atrair mais investimento externo para Portugal e consolidar\expandir o actualmente existente). De Seguro pouco ou nada sabemos. Sabemos que defende a criação de emprego mas ainda não deu qualquer proposta válida para que essa meta possa ser trabalhada pelo actual governo. Falou da renegociação da dívida mas, na facção segurista, o tema foi praticamente abandonado quando o líder uma vez afirmou que a renegociação da dívida poderia implicar a saída de Portugal do euro. Falam-se nas eurobonds, mas as eurobonds já foram irremediavelmente descartadas pela dupla Draghi\Merkel.

3. O misterioso todo-poderoso Jorge Coelho. O todo poderoso. O autêntico king maker. Dele dizem-se maravilhas. Segundo vários testemunhos citados por “camaradas” de partido (e camaradas que aproveitaram os conhecimentos obtidos nas suas funções ministeriais para mais tarde ter contactos que pudessem desbloquear certos negócios para a sua entidade patronal, neste caso a Mota-Engil; empresa que só por sinal foi a empresa que mais lucrou na construção da infra-estrutura criada e adjudicada por Jorge Coelho enquanto Ministro do Equipamento Social) no livro “Jorge Coelho o-todo-poderoso” do jornalista Fernando Esteves, Jorge Coelho é um dos únicos elementos de topo do Partido Socialista capaz de agremiar todas as facções existentes no partido (Guterristas, Soaristas, Alegristas, Sampaianos, Socratinianos, Seguristas, Costianos) em prol da causa comum, assim como, excluir facções de modo a conseguir fazer uma festa ao rei (ao estilo do jogo de cartas King) que mais pretende ver no trono da sede do largo do Rato.

Não é apenas Costa que se tem c0locado várias vezes como obstáculo de Seguro no seu percurso dentro do PS. O todo-o-poderoso Jorge Coelho também tem sido uma autêntica dor de cabeça para Tozé de Penamacor. Basta recordar, por exemplo, a título de curiosidade, que, após a demissão de Ferro Rodrigues, abalado pelo seu envolvimento no escândalo Casa Pia, e quando José Sócrates saía do tomatinhos de Guterres para tomar conta do partido, Tozé achava-se na altura com capacidades para ser o rosto renovador que o partido precisava. O falecido Fausto Correia e Jorge Coelho trocaram as voltas, marcando uma reunião informal nas termas da Curia, reunião na qual o primeiro não apareceu e o segundo fez questão de dizer a Seguro para desistir porque não tinha hipótese contra Sócrates. Curioso é, que anos mais tarde, Coelho o-todo-poderoso voltaria activamente ao PS (depois de vários anos de travessia do deserto, ou como quem diz, de enchimento de bolsos na Mota Engil) pela mão do reconciliador Seguro. Como uma facada política nunca vem só, Coelho apoiará o seu antigo colega ministerial no Governo de António Guterres e amigo António Costa.

4. Uma nota final para o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi. O antigo presidente da comuna de Firenze, actual primeiro-ministro italiano não-eleito democráticamente (novo governo de iniciativa presidencial; facto normalíssimo no complexo sistema político italiano) foi o único líder de partidário de centro-esquerda na Europa que teve uma noite eleitoral 100% vitoriosa. O Partido Democrata Italiano cresceu e na hora do triunfo, Renzi, um dos mais responsáveis políticos de centro da europa, com provas dadas na Câmara de Firenze (com uma popularidade altíssima junto do povo italiano) foi o único político de centro capaz de alterar a bitola discursiva trilhada por meia europa, afirmando que a Europa necessita finalmente de se dar genuinamente a conhecer de forma a efectuar reformas credíveis que assegurem o seu futuro.

Renzi afirmou: Se queremos salvar a Europa, temos de a mudar. Mesmo se o PD foi de todos os partidos europeus o que obteve o melhor sufrágio, mesmo se tivemos uma abstenção fraca, isso não significa que os eleitores estejam a favor do statuos quo. Esta mobilização não é uma aspiração ao imobilismo. Não tenho receitas para os outros. É preciso que a europa seja capaz de mostrar os aspectos mais sedutores da Europa do serviço cívico, do Erasmus e Estados Unidos da Europa (…) é preciso que as pessoas voltem a interessar-se pela coisa pública e que consigamos acordar objectivos comuns – um desses objectivos enunciados tacitamente por Renzi é a política energética europeia. Outro é a necessidade de reforma total dos tratados de forma a que os líderes das instituições europeias sejam pela primeira vez eleitos sufragicamente pelos cidadãos europeus.

Em relação a um dos principais flagelos do seu país, a recepção na sua costa de precários imigrantes africanos que tentam passar o mar mediterrâneo em frageis botes de borracha, Renzi teve, na entrevista concedida a uma rede de jornalistas do Suddeutsche Zeitung, The Guardian, Le Monde, Stampa e El Pais) uma resposta muito interessante quando foi convidado a abordar o fenómeno: “Se a Europa me explica em detalhe como é que eu devo pescar um peixe-espada e não me diz nada sobre a forma de salvar um imigrante que se afoga, isto quer dizer que há qualquer coisa que não está bem”

Com esta afirmação Renzi tocou no assunto. As instituições europeias não só não são capazes de agir sobre o assunto em causa como a própria temática é, indiscutivelmente, o ponto forte no qual assentou o crescimento dos partidos fascistas (contínuo a crer que o termo eurocépticos não é propriamente o melhor para descrever o pilar xenófobo do UKIP, do Fidesz, da Frente Nacional Francesa ou da Liga do Norte de Umberto Bossi e Matteo Salvini) em conjunto com o descrédito popular sentido em relação à tecnocracia de centro. Há umas semanas atrás, testei eu próprio um barómetro, perguntando a familiares e conhecidos aquilo que achavam sobre a imigração em Portugal. As respostas foram claras: roubam-nos os empregos, doenças, prostituição, droga e sobretudo crime. Todas estas falácias batem certo com a retórica de Marine Le Pen ou Nigel Farage. O resto tem-se construído com a ineficácia que os vários governantes europeus (incluíndo os de Bruxelas) tem demonstrado na resolução das questões basilares dos seus estados bem como do cenário europeu.

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