Valsa lenta

Felizes os que morrem devagar, e nesse devagar vão revendo tudo quanto foi, e quanto é, e o que ficará. Morrem como quem chega à estação de destino, o comboio abranda e nesse abrandamento vêem com detalhe a paisagem que até aí era mero esboço fugidio, recolhem a bagagem, lançam um último olhar ao lugar que ocuparam, e saem, devem sair.

Se te dizem que é melhor morrer de repente, que a morte te apanhe desprevenido, não acredites. É melhor morrer devagar, com tempo para saborear os pêssegos deste Verão, sabendo que não haverá outro Verão, e deixar que o mundo inteiro se concentre por instantes no prazer deste pêssego maduro, e que ele valha por si mesmo, sem pressas, não porque é o último mas porque é perfeito.

Não te falo, claro, dos sofrimentos do corpo, que tu conheces e eu não, são o miserável preço de estar vivo, e não deveriam manchar os teus dias. Morrer devagar, sem esse preço, que bom seria.

E nessa morte lenta, nessa valsa, fazer tudo o que se deseja e está ao seu alcance, não adiar nada para esse futuro de névoa, fruir de igual maneira o passeio breve, o almoço em família, o vento à janela, uma visita inesperada, uma anedota. Do que ficou pendente e já não pode ser feito, desprender-se. De tudo o que é ainda possível, libertar-se do medo de fazê-lo. E acostumar-se à ideia da morte até poder acariciar-lhe o dorso como a um gato esquivo.

Mostrar a quem te vê todos os dias que é feliz quem morre devagar porque devagar pode viver-se melhor, gota a gota, sem o galope do tempo infinito, e que na sua infinitude escraviza. Construir, do que está por vir, a imagem desejada, porque dessa grande viagem nunca ninguém pôde contar uma verdade absoluta, e haverá sempre lugar a imaginar quanto se quer. Pó de estrelas, pétala de jacarandá, folha tenra de erva, quantas coisas poderás vir a ser. Ou imortal, quem sabe?

E assim nos sentamos, com o tempo a nosso lado mas sem olharmos para ele, enquanto escorre por uma ampulheta imaginária, e não o apressamos nem permitimos que se desperdice, e podemos rir-nos, que é como gostamos mais de estar vivos. Felizes os que morrem devagar, felizes os que aprendemos a viver com eles, a morrer com eles, devagar.

 

Foto: Chema Madoz. E o título, claro está, de José Cardoso Pires

 

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