Saudades do império

Augusto, o menino guineense  Exposição Colonial Portuguesa 1934

Os colonialistas sem colónias querem os brasões imperiais que rondam o mamarracho de Cottinelli Telmo viçosos e tratadinhos. Indignam-se as bestas, que querem apagar a História, valha-lhes o deus em que acreditam.

Apagar a História é esconder séculos de genocídios e escravidão que não orgulham um país civilizado, são pelo contrário a sua vergonha. É esquecer que aqueles brasões insultam quem nos visita e é natural dos países que sofreram a nossa ocupação. É também a ignorância dos que metem no mesmo pacote os Jerónimos e a Torre de Belém (uma mera fortificação defensiva), que não provocam ninguém. É fingir que a memória dos impérios europeus ainda hoje mata, através das fronteiras traçadas a regra e esquadro nas conferências coloniais.

Este revisionismo cultural mostra como a arrogância dos antigos colonizadores e a sua auto-desculpabilização permanecem. É ver como em Oslo causa protestos uma bem engendrada recriação de uma daquelas expos em que os europeus visitavam os pretinhos em suas jaulas. Saudade do pretinho Augusto, que terá deliciado os portuenses, saudade da divisão dos humanos entre supostos civilizados e selvagens a quem tratavam como animais. Os canalhas restam saudosos de si mesmos, e convinha percebermos porquê.

Comments

  1. João says:

    Magnífico João, magnífico.


  2. Mas este texto significa o quê? – que és favor da ocultação das marcas físicas da História, ou pela sua preservação?


    • E a tua pergunta significa o quê? que já não sabes ler, ou que acharias muito bem que a Alemanha tivesse conservado a simbologia nazi?


      • Haverá comparação possível entre a loucura alemã – excepção à regra da guerra – aos Descobrimentos, à Inquisição na Europa, às colonizações da Europa nas áfricas e américas?
        E porque não rasurar os castelos raianos e as praças onde se atormentavam castelhanos?
        Ou demolir as igrejas? Devo estar a ficar velho.


        • Claro que há, não com os “Descobrimentos” que nunca existiram, mas com a escravatura e o colonialismo. Os brasões são símbolos claros dos genocídios, que não me orgulham de forma alguma.
          O resto é comparação parva, ao nível de não perceber que sendo muito bonita a Torre de Belém é uma mera fortificação defensiva do Tejo.


          • A escravatura que os povos praticavam entre si ou aquela que a navegação marítima globalizou? Conheces a História da Europa, não? ou a do mundo árabe, ou a da conquista da América?
            Pronto, vamos pintar tudo de branco: nunca nada existiu e a Humanidade é uma jóia de pessoa. Vou almoçar.


          • Também gosto muito do argumento de que a escravatura já existia em África. A malta só globalizou. Há aquele detalhe da escala, um nadinha maior, da mortalidade na travessia do Atlântico, e mais uns pormenores. Coisa sem importância, eram só pretos.


          • Pronto, pronto, não havia pirataria, não havia a guerra permanente em todos os territórios deste planeta…
            queres ver que a globalização das misérias e vergonhas é culpa dos marinheiros? – E se fosse… haveria que o ocultar ou conhecer? Eu sou pela clarificação.


          • Os símbolos representam a ocupação de outros povos por Portugal. Não representam marinheiros, mas a força da pólvora, que manteve o Império. Simbolizam a guerra, e isso já é insulto que chegue.

      • Maquiavel says:

        JJC, tu é que estás a ficar parvo. E mal-educado.
        O DS fez uma pergunta legítima, que também me veio à cabec,a. Tu respondeste a disparatar, e fracamente continuaste com os rebates legítimos que te foram feitos.
        Bebe lá um chazinho de camomila e depois responde…

  3. Rui Moringa says:

    Não estamos no Mundo perfeito. Há perspectivas várias para justificar, eludir o exercício do PODER.
    Pessoalmente, tanto me faz ter ou não ter os tais símbolos lá no Jardim. Mas se lá estiveram até hoje que factos relevantes justificam que se retirem? Ah, o colonialismo!! Sim, se tirarmos os símbolos ele desaparece ou nós esquecemo-nos. Não é certo. Ele voltará sempre pela janela quando o empurrarmos pela porta.
    O colonialismo é uma forma de exercício do poder, simplesmente. O poder é tramado.
    Com alguma ironia vos digo que hoje somos nós os colonizados pelo estado chinês e por alguns angolanos, brasileiros e americanos, ingleses…
    Quanto aos símbolos, não merecem esta “xispa” entre todos. Alguns ficam outros passam. A história é um registo muito peculiar…
    Estou à vontade para falar de convívio com outros de cor preta, asim como muitos de nós.
    A cor é perfeitamente irrelevante para nos relacionarmos com elevação, pelo menos é assim que pensam muitos de nós, e praticam.
    Já as relações entre estados a coisa muda de figura. Saibamos escolher os alegados nossos representantes e talvez a nossa democracia melhore.
    Nota: tenho amigos pretos no sentido mais perfeito do termo e tenho muito gosto nisso.
    Fiquem sabendo que entre eles também existem estes mecanismos de expressão do poder. Oh se existem.
    Estes aspectos dão sempre uma longo discussão, inacabada, porque o poder é fodido (fazer a minha vontade a despeito da dos outros), Hihihihi.
    Colonialismo!!!! quem são os colonizadores e quem são os colonizados. Às vezes o colonialista vira colonizado……..


  4. João Cardoso
    Para onde é que o caro vai quando os Lusitanos conseguirem a sua independência e expulsarem os ocupantes portugueses do seu território?
    http://tantramuna.home.sapo.pt/cidadania.html
    Já agora tome nota, para dizer ao Zé:
    Sinto-me ofendido com a estátua do marquês. Engulo porque é a mais bela estátua de Lisboa.
    Sinto-me ofendido com a estátua da padeira de Aljubarrota mas temo ser linchado (esta não é do Zé, concordo)
    Sinto-me ofendido com aquele pífio monumento ao 25 de Abril no topo do parque. Gostaria de ver um coiso de maiores dimensões e a espirrar alto, que raio.
    Sinto-me ofendido por ver no arco do triunfo de Paris as nossas derrotas ali escarrapachadas: Almeida, Porto, etc. Quando o meu amigo lá for em vacances dê uma pixadela naquilo que até lhe pago o jantar no Chartier (só um prato, uma sobremesa e vin rouge de Bordeaux corrente, não é para abusar)


    • Lusitânia? com capital e meio território no estado espanhol? Fantástico.

    • Rui Moringa says:

      E quem são os Lusitanos? Temos de fazer teste de ADN? Mostrar os dentes? Depois de separados os nativos e os invasores o que se faz com estes? Poem-se a trabalhar para os Lusitanos oo tira-se a tosse?
      O que se fala na Lusitânia?
      Que ideia mais estranha!

      • xico says:

        Alguém ofender-se com uns canteiros com os antigos brasões das ex-colónias é tão ridículo como alguém pensar que os habitantes das Beiras possam ter 10% que seja de etnia lusitana. Daí a minha ironia. Quanto à escravatura ofende-me que os portugueses tenham participado nela mas orgulho-me de um Vieira e de termos sido nós, os europeus colonialistas, a acabar com ela. Convinha também ler o pensamento e a vontade de Isabel, a católica, sobre a colonização americana, para desfazer alguns mitos que se contam às criancinhas para lhes obrigar a comer a sopa.

  5. Sarah Adamopoulos says:

    O Império foi um facto, não há como apagá-lo. A supressão dos seus símbolos é em vão. Não se trata de celebrar nada João, apenas de não esquecer. Não posso concordar com este tipo de apagamentos da memória, ou com quem como tu os defende.


    • Há formas de preservar a memória para estas coisas, vd a utilização actual dos campos de concentração. Por outro lado o problema nem é tratar-se de um símbolo, mas de um espaço comemorativo que pelos vistos ainda dá orgasmos a muito canalha, basta ver um vereador do CDS aos pinotes. Ou melhor, e por ali não passo há muitos anos, pelos vistos trata-se de um matagal, que de repente querem reconstruído porque têm orgulho numa página vergonhosa da nossa história, e por isso deve seguir o caminho da simbologia nazi ou da falangista.
      Acresce que se bem me recordo falamos do jardim que acompanha um mamarracho, obra de um urbanicida pelo qual nós conimbricenses temos particular adoração escultura abjecta (outros concorreram e pelo menos um dos projectos que em tempos vi bem merecia substituí-lo) e o mau gosto não tem de perdurar só porque ganhou um concurso público falsificado à partida.
      Sobra a ignorância que isto provoca, a mistificação que perdura, nem a Torre nem os Jerónimos são símbolos do império colonial português.

  6. Fernando Torres says:

    Pode nem ter nada a haver com esta entrada, mas os “MEEETS” são o lado bom do tecnologia.
    P.S, As pessoas já necessitam de falar olhos nos olhos!


  7. Conversa irrelevante – porque não escrevem a HISTÒRIA do país (ou do território/os) com a revisão que mais vos convenha agora ?? E dêem como tema de discussão nas aulas dos vossos alunos que se calhar irão adorar para variar – Pior do que ter uma história é não ter história nenhuma – sem história nada existe e se calhar é por isso que o vulgo diz que “as pessoas felizes não têm história”

  8. A. Agrafo says:

    Excelente post!

    (maldita Alemanha, que proibiu a simbologia Nazi para “não ter história”…)

  9. João Soares says:

    “…deliciavam os portuenses ” !!!!
    Os “lisbonenses” ,não sabem o que é verde tinto, ou então só
    gostavam do MATATEU !!!

  10. khoisan says:

    “Apagar a História é esconder séculos de genocídios e escravidão que não orgulham um país civilizado, são pelo contrário a sua vergonha. É esquecer que aqueles brasões insultam quem nos visita e é natural dos países que sofreram a nossa ocupação. ”

    Países que sofreram a nossa ocupação? mas a fronteiras desses paises não foram criadas por nós? antes de nós não existiam tais países. Colonização? Já ouviu falar nas migrações bantus? e dos Khoisans, já ouviu falar? os portugueses no caso da áfrica chegaram a esses territórios um pouco depois e em alguns casos ao mesmo tempo dos bantus. A diferença é que os bantus chacinaram os Khoisans os verdadeiros naturais daqueles lugares, logo colonizadores são os actuais prooprietátios, desses países.


    • Pois, os impérios criaram fronteiras artificiais, ainda hoje a principal causa de guerras no continente africano.
      Gosto muito de quem defende a colonização, mas gostava ainda mais se fosse metido num barco negreiro e lançado à água a meio do Atlântico, por não ter resistido à fome e ao chicote.
      Há canalhas que não se enxergam.

  11. Ricardo M. says:

    Então já agora vamos demolir a Torre de Belém, os Jerónimos, o Parque das Nações, que tem simbologia dos Descobrimentos, até mesmo os mastros do Estádio de Alvalade, que foram inspirados nas caravelas. Ou então todas os edifícios públicos construídos durante o Estado Novo, incluindo a Ponte 25 de Abril.
    A fonte da Praça do Império é património, e tem de ser mantido. E usando o seu argumento de que os brasões ” ofendem os povos colonizados” então também posso argumentar que as estátuas dos assassinos Agostinho Neto, Samora Machel, José Eduardo dos Santos existentes nas ex-colónias ofendem os portugueses.
    E então que me acuse de ser fascista, não o sou, nem tenho simpatias nacionalistas.


    • Nem todos os colonialistas são fascistas. Alguns são é também ignorantes, que essa da relação entre a Torre de Belém e o império é de anedota.

      • Ricardo M. says:

        Ai agora sou colonialista e ignorante? Então deixe-me dizer-lhe uma coisa: em primeiro lugar, não fiz nenhuma apologia ao colonialismo. Não está lá nada disso no meu comentário. Apenas disse que a fonte é património. Ponto.
        Portanto o senhor quer contra-argumentar sem me insultar e adulterar o que eu disse ou não consegue fazê-lo?
        P.S: Sobre a Torre de Belém, sei perfeitamente que é uma fortificação para defender o Tejo. Sei também que se tornou um símbolo dos Descobrimentos, pelas gerações seguintes. Foi por isso que a usei como exemplo.


        • Se sabia, fez de conta que não.
          Colonialista não é, nas tem pena, porque aqueles que chama de assassinos, e que para todos os efeitos valem tanto para a História dos seus povos como um Afonso Henriques ou um João I ou um Nuno Álvares Pereira valem para os portugueses, os libertaram da opressão de outro país.
          E já agora, a fonte nem é património, está é protegida por estar na zona dos Jerónimos, que também tem tanto a ver com o império como Mafra com a reprodução da espécie humana.
          Quanto a insultos, vamos a isso: quem chama assassinos a heróis de outros povos merece uma boa colecção de adjectivos, sabe quais? os mesmos que você dirigiria a quem tratasse Afonso Henriques com o mesmo epíteto.

          • Ricardo M. says:

            Desculpe lá, onde é que Eduardo dos Santos, Agostinho Neto e Machel foram heróis? Porque o que esses senhores fizeram aos seus países não foi libertá-los: foi mudar de uma ditadura para outra. Ou irá negar que Angola e Moçambique são ditaduras? Eles basicamente escravizaram/escravizam os seus povos, reprimindo toda e qualquer oposição, como um sujeito chamado Salazar fez aos portugueses. Ser-se herói é apregoar as maravilhas do socialismo quando o povo vive na miséria enquanto os líderes políticos vivem como reis e têm negócios obscuros? Heróis que lutaram pela independência e bem estar dos seus povos foram Nehru, Gandhi, Mandela e tantos outros. Não foram certamente homens sanguinários que reprimiram/reprimem toda e qualquer oposição e se agarram ao poder como lapas, fazendo uma eleição disfarçada de vez em quando para enganar os pobres povos. Portanto, meu caro, no meu livro são opressores, ao nível moral de um Bokassa ou Sebe Seko. Certamente que não são libertadores.
            Segundo ponto: não faço nenhuma alegoria ao colonialismo,ao contrário do que o senhor diz. Sei muito bem que temos uma grande fatia das culpas no actual estado dos PALOP. Sei que os europeus têm uma grande quota das culpas no actual estado de África. Mas os actuais líderes políticos africanos conseguiram piorar ainda mais a situação. É um facto.
            Cumprimentos.

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