“Os onze poderes do líder”

Quem lê muito, acaba, mais tarde ou mais cedo, por ser capaz de produzir umas frases jeitosas, daquelas que ficam no ouvido. E, se tiver ódios de estimação entre figuras mediáticas, sujeita-se a escrever livros. É uma tentação, e já Oscar Wilde explicava isso muito bem, quando assumia que a única coisa a que não resistia era à tentação. Ora, a tentações, nenhum de nós é imune!

“Os onze poderes do líder” é um livro que acaba de sair. O autor, Jorge Valdano, figura incontornável do Real Madrid como atleta, mas proscrito por Mourinho como director, aquando da sua passagem pela capital espanhola, caiu na mais primária das tentações para ficar ainda mais célebre: mostrar ao mundo que, por mais cultura que se tenha e por mais livros que se leia, hélas, somos humanos e faz parte dessa característica mostrarmos ao mundo quais são os nossos inimigos. Amesquinhando-os. A primeira falácia.

Pelos vistos, a crer na notícia, o argentino compara Guardiola a Mozart e Mourinho a Salieri, assim como quem se arroga em primus inter pares nesta coisa de um palavrão como maniqueísmo. Johann Chrysostom Wolfgang Amadeus Mozart, baptizado como Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart, em toda a sua depravação, será, então, a personificação do bem; Antonio Salieri, em todo o seu ascetismo, apesar dos oito filhos, a personificação do mal.

valdano2Pronto, ficamos a saber que Jorge Valdano viu o filme “Amadeus”, de Milos Forman, com argumento de Peter Shaffer, e que foi um estrondoso êxito de bilheteira, sendo ainda considerado o 53.º melhor filme americano de sempre. E não estranho que tenha lido o drama de Aleksandr Pushkin, “Mozart e Salieri”. Como aceito pacificamente que, cultor de música clássica como é, tenha lido o libretto da ópera “Mozart e Salieri”, de Rimskji-Korsakov. Exactamente os porta-bandeiras da lenda de que Salieri pode ter envenenado Mozart.

Claro que todos os filmes, peças de teatro e óperas têm um argumento, com muito de ficção, mas há muito boa gente, mesmo entre pessoas que lêem e ouvem muito do bom, que considera que todos os filmes, peças de teatro e óperas são reais. Limitações. Porque, de facto, a história é exemplarmente diferente da que o filme, o drama, a ópera e as lendas contam.

Mas, voltando ao livro, Valdano proclama, algures, que “Nunca ouvi uma frase sua digna de ser recordada”. Opiniões. Leitor compulsivo, só pode ter-se dramaticamente esquecido de ler algumas frases lapidares do special one, bastava ir ao Google. Mas não fica por aqui: o autor refere que nunca se entendeu com Mourinho porque “inteligência e ego são inimigos”. “E quando se chocam, ganha o ego”.

Repesquemos que Jorge Valdano sucumbiu exactamente porque não seguiu alguns conselhos basilares. Se tivesse seguido o que diz agora, saberia que, quando não podemos vencer os nossos inimigos, só nos resta aliarmo-nos a eles. Diz o povo em sua imensa sabedoria. E foi exactamente o seu ego que o alcandorou à suprema cruzada de tentar vencer o seu inimigo (um super-ego, só que menos polido, daqueles que diz na cara exactamente o que quer, sem eufemismos, uma cultura – a das figuras de estilo – que Jorge Valdano gosta de exibir).

jose-mourinho

De facto, a luta não foi entre o ego e a inteligência, foi entre dois egos superlativos. Um, como se previa, caiu. Nessa luta de galos, não foi o macho alfa. E Mourinho continuará a não precisar de escrever ainda um livro, porque está bem ao activo, onde sempre quis estar, cultivando novos inimigos de estimação, porque é isso que lhe traz a emulação. É esse o seu combustível. Mourinho, efectivamente, talhou-se para vencer. O espectáculo dá-o ele, para que os seus atletas fiquem resguardados: enquanto se fala dele, enquanto os seus inimigos o escolhem para se comprazerem na mesquinhez medíocre de o apoucar, não se fala dos pecados dos seus jogadores. Porque o importante é que os seus jogadores vençam. De preferência, sempre. E comos inimigos distraídos.

Se bem se lembram do filme, em plenos créditos, ouve-se a célebre gargalha de Mozart, acabava Salieri de absolver todos os que, como ele, “mataram” Mozart, e o próprio padre que o ouvira em confissão. Só que, depois de ler o livro, a gargalhada vai ser de José Salieri Mourinho. Porque, tal como na história, o vencedor é Salieri. Porque atingiu o ápex que Mozart desprezou e desvenerou. Porque sobreviveu, na sua vida regrada, à licenciosa participação de Mozart nessa vida, que para Wolfgang foi demasiado curta.

Na ficção do filme, a estória esquece a verdadeira história: não foi Salieri quem escreveu na partitura o que Mozart, febril e agonizante, ditava do seu Requiem incompleto, mas, sim, Joseph Eybler e Franz Sussmayr, pupilos de Wolfgang Amadeus Mozart. E, na realidade, se fosse verdade o momento do filme em que Mozart parodia com a marcha de boas-vindas escrita para si por Salieri, e a transforma, de improviso, na ária “Non più andrai” de “As bodas de Fígaro, Salieri teria mais do que motivos para se sentir agradecido a Mozart: ele aproveitou o mote e tornou uma qualquer marcha retórica numa obra-prima. Quiçá, ficar em dívida com ele, porque, com a sua irreverência descontrolada, terá aberto a porta a todos os privilégios de que Salieri gozou, ele que foi, justamente ou não, uma figura ímpar no ensino musical. Senão, vejamos: foi professor de Haydn, Beethoven, Liszt, Schubert, Hummel, entre tantos outros como, por exemplo, Czerny, e, até, do filho mais novo de Mozart, Franz Xaver Wolfgang Mozart, nascido poucos meses antes da morte de Amadeus. Foi, durante 36 anos, compositor oficial da Corte, presidiu à sociedade de artistas musicais “Tonkünstler-Societät”, que lhe importaria que Hieronimus von Colloredo, arcebispo de Salzburgo, apadrinhasse o jovem truculento Amadeus? Ele, António de Veneza, era o todo-poderoso da corte do Imperador austríaco. O topo do mundo artístico na época.

Claro que até foram amigos. Por pouco tempo, no entanto. Como qualquer um de nós que se apercebe de que é amigo de um génio, mas que esse génio menospreza ser sublime, afronta o transcendente, parodia o grandioso, dedicando-se a espectáculos de feira, circo, e lugares menores para tão imenso investimento divino. E perdemos, não raro, a paciência.

O jornal “O Jogo” dedica ao assunto, a uma coluna, 16 linhas na sua última página. Eu, que tenho a mania de que sou um gajo do caraças, pus-me para aqui a dissertar, como se tivesse aprendido sociologia literária com Pierre Bayard, (“Como falar dos livros que não lemos?”), quando defende que “tanto as não-leituras como as quase-leituras são tão válidas quanto a leitura integral”.

Valdano escolheu, na escola do eterno rival da Catalunha, a chibata para vergastar Mourinho. Ou me engano muito ou Mourinho apenas comprará o livro daqui por meio ano, quando o vir com um autocolante de venda de ocasião, a um terço do preço facial, se não for menos. É que já não há pachorra para ódios, quanto mais de estimação. Isso são coisas de gente famosa, que não sabe o que mais há-de fazer às emanações dos egos. Então, porque pode, escreve umas coisas jeitosas, afronta alguns inimigos com quem tem, alegadamente, contas a ajustar e publica-as, nem que seja só para chatear. Coisinhas de gente miúda, mas com dinheiro.

 

Comments

  1. João Soares says:

    Depois de ler esta lamúria do sr. Vasconcelos,lembro-lhe que os únicos valores reconhecidos pelo Doutor Mourinho se chamam “Euros” , “Libras ” e “Dólares”.

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