Que é que as esposas dos juízes do STA lhes andam a dizer?*

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* Título alterado, visto que, por lapso, tinha escrito STJ em vez de STA, tendo incorrido no mesmo engano ao longo de todo o post. Peço desculpa a todos os que inadvertidamente enganei. Estava preocupada com a notícia em si e confundi os Supremos. É o que dá quando nos concentramos naquilo que é realmente importante: a falta de conhecimentos – e de pinadelas – destes profissionais.
Depois de ter conhecimento desta notícia, só posso pensar que os doutos juízes do Supremo Tribunal Administrativo*  andam a ser – e bem – enganados pelas esposas.

Ora bem, todos estão com mais de 55 anos de idade e acham que ter relações sexuais naquela idade é irrelevante. Vários estudos provam que o sexo depois dos 50 é bom e faz bem à saúde, a menos que se enverede por práticas de risco (de notar que esta é uma notícia falsa).  Portanto, temos aqui algumas questões sobre as quais convém reflectir:

1- Os digníssimos juízes do STA* (entre os quais há uma mulher) pensam que sexo depois dos 50, sobretudo para mulheres, é irrelevante, o que, por si só, leva a pensar que esses senhores não conhecem bem as suas esposas. Ou que as esposas estão tão fartinhas de os aturar que lhes dizem que já não estão em idade para essas maluquices. Agora, pergunto eu, se está provado que sexo depois dos 40 é tão melhor, o que é que aquelas marotas andam a fazer? Hmmm, cheira-me a esturro! Se calhar, os senhores juízes até preferem não saber; 

2 – Acreditando, como acredito, que os senhores juízes são animais também sexuais, onde é que eles andam a dar com os respectivos martelinhos? Se não martelam as esposas porque são velhas, provavelmente andam todos à cata de carne mais tenra… E as esposas saberão?;

3 – Sendo expectável e exigível que os juízes estejam sempre informados sobretudo no que diz respeito aos casos que são obrigados a analisar, como é possível tamanha falta de informação? Se lhes falta a informação empírica, deveriam pelo menos socorrer-se da informação científica;

4 – Uma vez que na sentença referem também que os danos não são tão graves porque a queixosa já tinha dois filhos, será que estes senhores – e a senhora no meio deles – encaram o sexo como algo que se faz apenas com o intuito de procriar? Isso explicaria muita coisa, nomeadamente o facto de considerarem que uma mulher de 50 anos não fica muito prejudicada se não puder manter relações sexuais.

Desta sentença, ridícula, a meu ver, resulta a depreciação da mulher e das suas necessidades. Incapacitada de ter relações sexuais com o marido, numa idade em que está mais que provado que o desejo e o prazer sexual existem, sofrendo um desconforto constante, com a zona vaginal dorida e deformada, tendo que usar fraldas, ficando incapacitada para trabalhar, como é que essa senhora tem vivido os últimos 19 anos da sua vida? Não há, desculpem-me, indemnização nenhuma que pague todo o drama por que ela tem passado.

Como se tudo isso não fosse já suficientemente mau, chegam estes senhores, que não devem saber o que é uma valente pinadela, e desvalorizam a perda de algo que é tão importante para o nosso amor-próprio: o sentirmo-nos, mesmo que velhos e flácidos, desejáveis aos olhos de outro.

Senhores doutores juízes do STA*, amem mais e não martelem tanto em seco!

 

 

 

Comments


  1. Grande post. Parabens.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Não foi um deputado Morgado do CDS que afirmou na Assembleia da República que o sexo só devia ser exercido com o intuito da procriação (discutia-se na altura a legalização do aborto)? E lembram-se do verso que lhe fez a seguir Natália Correia?
    Aqui fica:

    Já que o coito — diz Morgado —
    tem como fim cristalino,
    preciso e imaculado
    fazer menina ou menino;

    e cada vez que o varão
    sexual petisco manduca,
    temos na procriação
    prova de que houve truca-truca.

    Sendo pai só de um rebento,
    lógica é a conclusão
    de que o viril instrumento
    só usou — parca ração! —

    uma vez. E se a função
    faz o órgão — diz o ditado —
    consumada essa excepção,
    ficou capado o Morgado.

    Pois esta é a situação dos tristes Juízes… E as mulheres, claro, remetem-se ao silêncio…


  3. Esta questão é difícil de comentar, porque estão aqui implícitas algumas situações.

    1-Ao manter o princípio da indemnização, mas reduzindo o valor, a interpretação que faço é a mesma da Noémia e corrija-me se estou a errar, para o STJ existe uma vítima que foi lesada nos seus direitos, daí manter uma indemnização, mas considera que 55 anos não tem a mesma gravidade que teria se por exemplo a vítima tivesse 18.

    2- Se bem compreendo a posição do STJ, isto abre a porta para que as indemnizações a atribuir sejam aplicadas em função da idade das vítimas. Por exemplo, caso alguém tenha uma acção negligente que leve à morte acidental, a indemnização a atribuir também deve levar em conta a idade da vítima, correcto? E será legítimo aplicar uma escala à sanção pecuniária e ignorar a mesma à sanção penal? Ou também esta se aplicável deve ter em conta a gravidade em função da idade da vítima?

    É que as decisões do STJ são de difícil recurso e podem criar jurisprudência…


    • 1- Não é STJ, é STA.
      2- Sim, a idade da vítima é um dos factores mais importantes para calcular uma indemnização. Alguém que se torna incapaz para o trabalho a um mês da reforma e alguém que fica inválido aos 18 anos, não podem, a título de indemnização pela perda de capacidade para gerar rendimento/trabalhar por si sós, receber a mesma indemnização.
      3- Responsabilidade civil é uma coisa, responsabilidade penal é outra.

  4. João Centeno says:

    A decisão não é do STJ ( Supremo Tribunal de Justiça), mas do STA ( Supremo Tribunal Administrativo). Os tribunais administrativos , no meu entender, são uma aberração.

  5. joao lopes says:

    este post. acerta em cheio…por exemplo ,nota-se no actual governo de Portugal muita fominha(ou seja,falta de sexo) e essa é uma das razões da sua profunda estupidez…ó portas estas a ouvir?

    • José Peralta says:

      “Falta de sexo” do actual desgoverno ? Há três longuíssimos anos que “nos” andam a f ****. e você ainda diz que a razão da estupidez destes canalhas é a “falta de sexo” ?

      Não ! Nem sequer é estupidez ! É estudada maldade, é ignóbil e vingativa opressão contra os mais débeis, os mais pobres.

      Lembra-se da célebre frase que vai pôr um canalha, na “história maldita de Portugal” ?

      Não se lembra ? É esta : “Os Portugueses têm que empobrecer” !

      É a gigantesca mentira que está desde o início nos fundamentos e na prática em que assenta a corja !

      Cito Pacheco Pereira, que diz, e eu concordo, que o que o impressiona na albuquerque. é a facilidade com que mente, e a insensibilidade perante as consequências sociais das medidas que toma, porque atingem pessoas, “normalmente” as mais frágeis, idosas, crianças !

      Não admira que tenha transmitido enquanto professora, essas “qualidades” ao seu dilecto aluno e actual patrão, o super-aldrabão coelho, essa besta !

      Crianças com fome, cuja única refeição diária é a da cantina escolar ?

      Idosos solitários, desprotegidos, sem esperança ao fim de uma longa e por vezes dolorosa vida de trabalho, que têm que escolher entre uma pobre carcaça e o medicamento que os faz suportar melhor as dores ?

      Para o “bloco de de gelo” com pernas, são números, é “estatística”…

      E o exemplo mais recente, é o Orçamento do Estado a que “isto” chegou : “OS IMPOSTOS VÃO BAIXAR” !

      MAIS UMA REMATADA MENTIRA…

      …PARA NÃO VARIAR !


  6. Alguém não leu a notícia, ou pensa que STJ e STA é a mesma coisa.

  7. portela says:

    “A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica”.
    .
    Olhar, apalpar, julgar é muito pouco e esse pouco é ainda uma ilusão.
    .
    Teixeira de Pascoais em “O Homem Universal

  8. maria câmara says:

    Excelente, a nível documental e humorístico!
    Só posso acrescentar que este blog está a tornar-me cleptomaníaca pois: em 15 minutos, mais coisa menos coisa, é o segundo roubo que faço.


  9. Peço desculpa aos leitores que posso ter, inadvertidamente, induzido em erro. Eu sou muito humana e, como tal, por vezes erro. Este foi um desses casos. Embora tente ser sempre o mais correcta possível, de facto, desta vez «espalhei-me» com os juízes. Na verdade, li algumas das notícias sobre o assunto e sempre li – erradamente – STJ. Daquelas partidinhas que o nosso cérebro por vezes nos prega. Numa das notícias reparei que tinha estado sempre a ler mal qual o Supremo em causa. No entanto, o que me interessava aqui era mais a atitude e as suas consequências, daí ter acabado por me concentrar no que é efectivamente chocante, tendo sempre referido STJ em vez de STA. Os meus muito sinceros e profundos pedidos de desculpa a quem possa ter lesado com esta minha negligência. Espero que não pensem que os senhores juízes do Supremo Tribunal de Justiça não martelam entusiasticamente as suas esposas cinquentonas. Agradeço, desde já, a quem teve a amabilidade de me corrigir. Agradeço também a quem teve palavras tão simpáticas para comigo. E a quem me leu. Grata a todos, vá!

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