O príncipe da Carpátia

Podemos ter regressado à caridadezinha, se é que alguma vez saímos dela, e exigir aos pobrezinhos que sejam humildes e agradecidos, e não aspirem ao bife mas tão só às papas de cereais marca branca do supermercado, mas ainda há, rejubilemos, gente como o príncipe da Carpátia.

Contaram-me que quando ele chegou à enfermaria, era apenas “o sem-abrigo”, sem documentos nem vontade de falar. Vinha sujo, sujíssimo, a pele já muito morena ainda mais enegrecida pela vida nas ruas. Saltavam-lhe piolhos dos cabelos e pulgas do casacão gigantesco. Assim pequenino, perdido dentro do casacão, deveria parecer alguém a quem uma poção mágica tivesse feito encolher. Mas bastou que lhe servissem a primeira refeição quente para que começasse a revelar ao pequeno mundo hospitalar o seu carácter.

Comporta-se como um soberano forçado ao exílio e ao anonimato, esquecido numa modesta enfermaria de hospital público, chama os auxiliares como quem reclama a presença da criadagem, e eles acham-lhe piada, de tão descarado. Pede água do Luso e “chá medicinal”, e exige que lhe sirvam em duplicado todas as refeições. Fica sentado longas horas no cadeirão, muito direito e quieto, como quem rememora glórias perdidas. Recusa-se a tomar as refeições no refeitório comum, espaço tenebroso de convívio forçado. É uma peste para todos, vinga-se na campainha quando não o atendem com celeridade, mas não há ninguém que lhe recuse a segunda refeição ou os cobertores extra. Leva meses ali e não deseja ter alta. Não tem feitio para ser coitadinho, e também não aprendeu a ser afectuoso.

Há dias, estava eu a olhar para ele pelo canto do olho e tive de repente a certeza de que o nome que lhe dei não é descabido. Que um dia haveremos de estar lá todos, doentes e visitas, a ver o tempo escorrer das paredes, lento e pegajoso como é o tempo dos hospitais, e pela enfermaria irromperá um séquito de pajens e soldados, anunciado com um soar de trompas que há-de fazer a D. Lurdes da copa deixar cair o tabuleiro.

Virão com bandeiras de cor púrpura, com plumas e fitas de veludo, armaduras reluzentes e espadas afiadas, e deixarão os cavalos a relinchar no corredor, amarrados ao carrinho do desfibrilador. Virão para resgatar o seu soberano, príncipe desfeiteado da Carpátia, e quem encabeçar a comitiva arrojar-se-á de joelhos e dirá:

– Perdoai, Majestade, há duzentos dias que Vos buscamos sem cessar.

E o príncipe sorrirá quase imperceptivelmente, atirará para a cama o cobertor gasto com que o cobrem no cadeirão, e levantar-se-á muito mais alto do que havia entrado.

E nesse dia, tanto tempo depois, terá por fim alta, que ninguém se atreverá a recusá-la.

Ilustração: “Street Dreams”, Hugh Leeman

Comments

  1. joao lopes says:

    o “principe” é o …salgado.a “comitiva” é encabeçada pela…jonet.e quem “muda as fraldas” é o …dr.pedro/paulo.e viva a “caridade” desde que os ditos enunciados atras continuem a viver nas av.novas/quinta da marinha/comporta/cascais(em frente ao mar)…etc

  2. mpero Correia says:

    Isto é que é um texto! Sempre achei que carregar num botão a dizer “gosto” apoucava e, se não estivesse tão banalizado, ofendia. Neste momento e em relação ao “Príncipe da Carpátia” acho que dizer mais do que “gosto” seria quase ofensivo. Por isso, lá vai: GOSTO!

    • mpero Correia says:

      O nome que subscreveu o comentário anterior saiu torto. Vamos ver se agora se endireita.

  3. mpero Correia says:

    O nome que assina o comentário anterior saiu coxo. Vejamos se agora caminha com mais desembaraço…

  4. Tempero Correia says:

    correcção

  5. José almeida says:

    Excelente. Em todas as crónicas da Carla Romualdo eu vejo o geral e o concreto. Desta vez vejo o Sócrates na prisão e um ensaio sobre a sua ‘libertação’. Muito bom.


  6. Nos tempos que correm, de vez em quando, lá surgem, nas nossas unidades hospitalares, umas quantas quixotescas “majestades”, escorraçadas da família, ou de uma qualquer outra estrutura …requintadamente exigentes, que nem “o raio que os parta!”…principalmente nestas épocas festivas, como se alguma vez, diferenciássemos o CUIDAR, a quem quer que seja!
    Muito boa, a sua crónica, Carla Romualdo! 🙂

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