Zeus

Às vezes encontrava-o no restaurante, ele vendia a «Cais» e quase ninguém a comprava, mas o pior nem era isso, era o ar de nojo com que lhe diziam que não, não fosse a sua presença ao lado da mesa contaminar a batata assada e a costela mendinha, diziam-lhe que não com um gesto enfastiado da mão mas não olhavam para ele, e ele agradecia e afastava-se devagar, com aquele corpo lento e cerimonioso, mas havia uma tensão nos seus lábios, rápida, logo afastada, que denunciava uma violência que ele tinha de conter a cada instante, uma luta nunca vencida.

Depois deixou de ter a «Cais», não sei que aconteceu, porque apareceu com uma revista gratuita, uma publicação dos lojistas de uma rua qualquer, e eu disse que não precisava da revista, que o ajudava na mesma, mas foi um gesto indigno, o meu, e arrependi-me logo porque ele insistiu em dar-me a revista. Aceitei-a, ele agradeceu de novo com aquela vénia solene que eu já lhe conhecia, mas desta vez demorou mais tempo a erguer a cabeça, vi-o sonolento, pesado, ferido e percebi que o grande deus caído em desgraça estava cansado da sua penitência. [Read more…]

Câmara do Porto usa “sem abrigo” para promover o turismo

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A Câmara do Porto vai distribuir máquinas fotográficas descartáveis aos “sem abrigo” da cidade. O objectivo declarado pela autarquia é estimulá-los a participar numa espécie de concurso fotográfico, com fins turísticos, presumindo-se que o original hábito que estas pessoas têm de dormir ao relento seja garantia de excelentes instantâneos sobre a “pele” da cidade, para inglês ver e agente turístico lucrar.
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Mário

© Patrick Breen

Adélia Pires

O Mário é o que muitos considerariam uma personagem.
Surge de manhã muito cedo a deambular pela rua num passo bêbado a que os tiques da medicação combinada com o álcool o condenaram. Senta-se na esplanada do café em frente ao meu trabalho, bebe um café e interpela os que vão entrando para despacharem o vício da cafeína. Geralmente pede-lhes tabaco, ou uma moeda.
Conheço o Mário há muitos anos. Se o encontro de manhã ofereço-lhe um café por conta da moeda que me pede e graças a isso fui brindada com muitas conversas de cariz dadaísta nas madrugadas pré-laborais. Por vezes pergunto-lhe se quer comer alguma coisa, mas a resposta é sempre a mesma. Que não, que já comeu, que a mãe cozinha, mal, mas cozinha e que faz comidas pesadas que lhe atrapalham os vôos funambulares matinais.  [Read more…]

A ordem obtusa das coisas

Foto: Rui Manuel Fonseca

Foto: Rui Manuel Fonseca

A Infraestruturas de Portugal (IP) não dava que falar desde a sua festa de apresentação, em 2015, quando gastou 130 mil euros em leitão, espetadas de fruta e nos serviços de um humorista que os funcionários presentes classificaram como tendo “roçado o ordinário”. Cortesia do contribuinte, naturalmente.

Volta a dar que falar este mês ao tornar pública a intenção de despejar o sem-abrigo que vive debaixo de uma ponte, na freguesia de Geraz do Lima, em Viana do Castelo. João Dias, 47 anos, operário da construção civil desempregado, viúvo, construiu uma barraca com estacas de madeira cobertas com plásticos pretos. É lá que dorme, guardado pelos cães, Nico e Pintinhas. A casa afunda-se no lamaçal e a água já lhe teria entrado na cama improvisada se não fosse o auxílio de Luís Lima, de 75 anos, habitante de Geraz, que foi ajudá-lo a levantar a cama. Esta semana apareceu a GNR para identificar João Dias e notificá-lo da ordem de despejo. A IP quer que o sem-abrigo saia. Para onde, não é um problema seu, claro. [Read more…]

Afonso

Já me tinha cruzado com ele numa destas noites, a cidade ainda celebrava e uma figura sonâmbula deambulava pelas ruas. Tapava-se com um cobertor como se fosse um manto, caminhava com passos incertos sob o seu cobertor verde na noite fria. Vi-lhe o rosto de relance e não percebi que fosse tão novo, 17 anos de fugas e solidão.  O Jornal de Notícias conta hoje a história do Afonso, o miúdo cigano a crescer sozinho nas ruas, entregue à bondade dos estranhos, à indiferença da maioria, ao descaso das autoridades, à crueldade de quem acha graça a vê-lo alcoolizado. [Read more…]

É que está um calor que nem se pode

Câmara de Lisboa desativou plano de contingência para sem-abrigo devido a frio

O príncipe da Carpátia

Podemos ter regressado à caridadezinha, se é que alguma vez saímos dela, e exigir aos pobrezinhos que sejam humildes e agradecidos, e não aspirem ao bife mas tão só às papas de cereais marca branca do supermercado, mas ainda há, rejubilemos, gente como o príncipe da Carpátia.

Contaram-me que quando ele chegou à enfermaria, era apenas “o sem-abrigo”, sem documentos nem vontade de falar. Vinha sujo, sujíssimo, a pele já muito morena ainda mais enegrecida pela vida nas ruas. Saltavam-lhe piolhos dos cabelos e pulgas do casacão gigantesco. Assim pequenino, perdido dentro do casacão, deveria parecer alguém a quem uma poção mágica tivesse feito encolher. Mas bastou que lhe servissem a primeira refeição quente para que começasse a revelar ao pequeno mundo hospitalar o seu carácter. [Read more…]