São apenas pretos

No episódio 5 do documentário A Guerra de Joaquim Furtado (aquele onde se clarifica a natureza racista e esclavagista do colonialismo português) um enfermeiro moçambicano narra o seu diálogo com um superior hierárquico, a quem questionava por uma sua colega com muito menos habilitações do que ele ganhar o dobro:

– Tens dúvida de que és preto?

– Isso não tenho dúvida

– É isso, ela é branca, ganha mais do que tu, que és preto.

Há por lá mais exemplos do mesmo. Enquanto por estes dias editava o documentário de forma a poder utilizá-lo nas minhas aulas de História, apareciam-me mentalmente no monitor as imagens dos que atravessam o deserto e o Mediterrâneo, e por ali morrem. Vítimas das guerras que homens brancos foram inventar a Sul, vítimas de nem parte da globalização os deixarem ser, vítimas da natureza humana, que tem aquela pretensão, os do costume dirão estúpida, de quererem alimentar-se, vestir-se, habitar, viver. Os do costume explicam: têm dúvidas de que são pretos? E para que não as haja em sacos negros os embalarão.

Comments


  1. Não vou pôr em causa a natureza racista do nosso colonialismo dos últimos tempos, mas olhe que o discurso “O fardo do homem branco” está um pouco fora de moda e a questão do Mediterrâneo está longe de ser um problema de homem branco, homem preto. Muitos Mediterrâneos encontrará por aí, até nas nossas beiras e Trás-os-Montes, do tempo do colonialismo. O colonialismo não levou o racismo, a escravatura ou a cupidez a África. Os potentados africanos conheciam de ginjeira o assunto.
    Na moda está agora a “boa vontade” dos reis bantus, com o discurso sobre formigas e pulgas, que arruma de vez com a lengalenga dos coitadinhos dos pretos que a culpa é toda dos brancos.


    • Não carrego nenhum fardo, sempre combati o racismo e o colonialismo.
      E agora combato o revisionismo que quer comparar a escravatura à escala local com o grande tráfico internacional ou esquece a herança das fronteiras artificiais desenhadas em Berlim, que obviamente conduzem hoje a guerras civis.
      E que também não se recorda, embora bem mais recente. de como o fundamentalismo wahabita é natural da Arábia Saudita e se desenvolveu com coisas como a invasão do Iraque, ou o armamento de grupos que combatiam quem lhes andava a estragar o negócio.
      A não interferência nos assuntos internos dos outros sempre foi boa conselheira, já bastam os problemas que obviamente têm.


      • Não faço revisionismo nenhum. O tráfico de escravos era, mesmo na altura em que foi feito, intolerável para a consciência dos europeus. Mas se lucraram com esse tráfico também é certo que foram eles que acabaram com ele. Agora o que não engulo é a história de os brancos serem maus e os pretos bons. Estou plenamente de acordo consigo sobre a asneira tremenda que foi a invasão do Iraque e as intervenções à sombra de primaveras tropicais (simplesmente não existem… nos trópicos). Mas estamos sempre numa ratoeira: Será que o caso do Mediterrâneo não justificaria uma intervenção armada?
        Quando me explicar como devemos agir, por exemplo, em relação à excisão do clitoris, talvez me consiga explicar como se podia furtar o mundo Europeu ao pulsão colonialista do século XIX e ao caso do “fardo do homem branco”. A esquerda sempre esteve muito engajada na educação dos povos. Não é muito diferente de alguns pressupostos do colonialismo e da acção “civilizadora” (entre aspas, para não haver dúvidas sobre o que falo). Nem me parece que o colonialismo se possa pôr, ideologicamente, à direita ou à esquerda, ou entre capitalismo e socialismo. A propósito de ingerências… Che Guevara diz alguma coisa?


        • Intolerável? O que mais temos é declarações canónicas que justificam a escravatura.

        • João says:

          Parece-me que ninguém falou de brancos maus e pretos bons. Parece-me que você foi o único nestes comentários a associar cores de pele e valores. Essa confusão é que é reveladora da má consciência (directa ou indirecta) que talvez transporte consigo e também de uma certa visão racista. A escravatura foi um fenómeno complexo e que teve a ver com uma cadeia capitalista de comércio entre três continentes. Obviamente que houve brancos que lutaram para que a escravatura acabasse e negros que lucraram com a sua existência. No caso deste video, nem se pode dizer que se esteja a falar de escravatura. Sobretudo aquilo que é evidente é o racismo, que fazia com que um negro, mesmo sendo mais qualificado que um branco recebesse um salário menor. Foi esse o sistema (muito próximo ao apartheid) que se manteve nas ex-colónias portuguesas até 1975. O Islão, o suposto “fardo do homem branco” e o Che não têm nada a ver com o assunto. E, só como aparte, não sei como se pode chegar a comparar o Che com o rei Leopoldo II. O primeiro esteve em África (nomeadamente no Congo) a lutar ao lado daqueles que libertaram o país do jugo colonial; o rei Leopoldo II era um colonialista que provocou a morte de milhões de pessoas frequentemente de forma absolutamente desumana, na ânsia/ ganância de ter uns lucros astronómicos que lhe permitiram ter, no seu país natal, o cognome de “o construtor”. Vá lá a Bruxelas e repare em quanto da cidade que é agora considerada a capital europeia foi construída com o sangue dos congoleses.


          • Quem se referiu a brancos e pretos em primeiro lugar, não fui eu. Quanto ao resto do que diz, estamos de acordo. Onde leu que tenha dito o contrário? O que disse é que ou ignoramos ou tentamos intervir. O resultado é sempre uma ratoeira, como o colonialismo foi uma ratoeira. Para os colonizados e para a consciência dos colonizadores. Quanto ao Che, não fiz comparações com os colonizadores, mas garanto-lhe que faz companhia ao Leopoldo onde quer que se encontrem neste momento. Não fui, nem tenciono ir, a Bruxelas… não gosto de chocolate belga nem de mijões, e para me enfadar chega-me a pasmaceira do lugar onde vivo.


          • Comparar um dos maiores criminosos do séc. XX com quem o combateu, é obra. Tipo o Salgueiro Maia faz companhia ao Marcelo, padrinho do Marcelo. Brilhante.


          • Essa agora de colocar o Leopoldo e o Che a viverem no mesmo espaço temporal é que é obra! E claro que não faço, nem fiz, comparações entre um e outro. Mas como o Inferno está cheio de criminosos e de boas intenções, olhe, tire as conclusões que quiser.


          • É uma monarquia. Avôe, filhos e netos, vai tudo dar ao mesmo. De resto nem sei se aquando da luta pela independência o Congo era propriedade da Bélgica, ou se ainda seria da família.


          • Quando o Che foi para o Congo, este país já era independente e vivia uma guerra civil. Não critiquei a acção de Che em África ou na América. Limitei-me a observar a questão se devemos ou não interferir, como o JJC referiu. O que critico em Che são outras coisas que não a acção armada e que para aqui não interessam nada. De resto Che ficou muito desiludido com os revolucionários africanos que foi ajudar e que viviam como nababos.

          • João says:

            É, os netos ainda devem ter muito dinheiro “descendente” do Congo. No entanto, na altura da independência já era uma colónia da Bélgica e não apenas propriedade “pessoal” do tal Leopoldo.

          • João says:

            Era uma guerra civil que transcendia o âmbito nacional congolês. Os EUA, a França e a Bélgica tinham decidido intervir para afastar do poder e assassinar aquele que tinha sido eleito 1º ministro pelo povo do país. O Che não estava do lado dos assassinos. Ou seja, a intervenção já tinha sido iniciada há muito por potências ocidentais (defensoras da democracia e dos direitos humanos) que não tiveram nenhum pudor em assassinar Lumumba. Patrice Lumumba não vivia como um nababo, isso era mais o estilo de Mobutu, aquele que os EUA, a França e a Bélgica alimentaram durante décadas. Até Kabila, um daqueles ao lado de quem o Che lutou, o ter derrubado. Por isso o melhor que as potências ocidentais poderiam fazer era deixar de intervir de maneira criminosa nos países dos outros.


          • Da vida do Che, nunca liguei ao chamado episódio do Congo. O que fez em Cuba, e o que o governo cubano mais o PC Boliviano, a mando do PCUS lhe fizeram, disso já sei.


          • Sim, os países ocidentais numa lógica de guerra fria tiveram intervenção no Congo. Mas “Che” não foi a África exportar democracia ou lutar por direitos humanos. Aliás, a sua tolerância democrática para com diferentes opiniões políticas já tinha ficado bem expressa na cadeia de Havana, ordenando inúmeras execuções sem julgamento aos “inimigos da revolução, espiões imperialistas e agentes da CIA”. Em 1964 discursando na ONU, admitiu sob aplausos de representantes do mundo socialista, que executavam. Na Bolívia viria a provar do próprio remédio, encostado à parede e executado sem julgamento. Mas África não precisava de déspotas a soldo do Ocidente ou do comunismo soviético. Neste campo ideológico Mengistu (Etiópia) talvez tenha sido o pior. Mas facínoras não alinhados como Idi Amin ou tolerados pelo Ocidente mas agindo por conta própria como Bokassa, ultrapassaram tudo o que conhecemos ou imaginamos, criando verdadeiros reinos de terror, que hoje parecem esquecidos…

          • João says:

            Nas suas palavras constata-se a sobranceria do discurso ocidental produzido pelos ex-impérios coloniais e pós-coloniais. Os supostos erros dos outros são crimes, os nossos são lógicas de guerra fria.

            “…ultrapassaram tudo o que conhecemos ou imaginamos, …”

            Você nunca ouviu falar de câmaras de gás, pois não? É que esses horrores, sucedidos em pleno coração da Europa, aconteceram bem antes e foram muito maiores em dimensão do que qualquer dos que tenham sido cometidos em África depois da 2ª GM. Só o genocídio do Ruanda se lhe aproxima e mesmo assim fica muito aquém em número de vítimas e de logística. Aparte o genocídio do Ruanda, na história africana existem três genocídios que se assemelham ao holocausto e até há um que é o seu precursor e outro que, em determinados aspectos, o ultrapassa. Todos eles foram originalmente provocados por impérios europeus. Ora vejamos, o primeiro é o comércio negreiro, no qual pereceram milhões de pessoas e outras tantas foram tratadas como animais. Os percursores foram os portugueses. A seguir, vem o genocídio dos povos congoleses pelo já citado Leopoldo II. Aquele senhor aristocrata que introduziu o costume de decepar partes do corpo no Congo e que como castigo matava os familiares (crianças incluídas) do trabalhador que no final do dia não trouxesse a quantidade de borracha exigida pelo monarca. Por último, vem o ensaio do holocausto que foi feito pelo império alemão na Namíbia com os povos Herero. Foi aí que inteligentsia germânica começou a experimentar qual seria o melhor método de eliminar o maior número possível de pessoas pelo menor custo. Tudo lições que a Europa deu ao mundo.

    • Nightwish says:

      Sim, o ocidente sempre foi bom a desresponsabilizar-se pela merda que faz no mundo, agora já não teve nada a ver com o estado da americana latina, da europa no norte ou do médio oriente.


  2. Os problemas do mediterrâneo pouco ou nada têm a ver com a maioria do continente berço da humanidade. A religião tem aí um papel preponderante, somado aos conflitos. Uns mais recentes, derivados da chamada Primavera árabe, outros mais antigos, como Somália ou Sudão.
    África tem outros conflitos que aí não falam, como as questões religiosas no Quénia que ameaçam desestabilizar a região. Que dizer da Nigéria? E dos grandes lagos já ouviram falar? Da república centro-africana ao Congo? Dos massacres na África do Sul às retaliações em Moçambique? É tudo culpa do homem branco? Ainda se lembram do Ruanda?
    Fala-se muito de África na Europa, mas poucos a conhecem. E menos ainda a respeitam. Mesmo os mais bem intencionados acabam sempre a fazer julgamento, porque não compreendem a forma de pensar, agir, ser ou estar dos povos africanos. Bem diversos diga-se de passagem. Não existe uma identidade africana. Mesmo a identidade nacional em países de dimensão tenho dúvidas que exista. Porque as tribos continuam a ter um papel de relevo na vida social e económica das pessoas. Na política nem tanto assim. Depois a religião. Cada bairro tem várias igrejas, com pastores nem sempre bem intencionados. É um quadro complexo, um barril de pólvora que pode explodir se manipulado com más intenções. Às vezes também por Europeus, concordo, mas não têm o exclusivo. Americanos, russos, chineses, indianos, latino-americanos e claro, os próprios africanos, não são de todo inocentes…


    • Está aí em cima: Conferência de Berlim. O caso do Ruanda, e da responsabilidade belga na guerra entre dois povos é talvez o exemplo mais claro da responsabilidade histórica do colonialismo no que temos.
      O problema religioso é simples: quem tem a Arábia Saudita e os Emiratos como aliado, e não os declara países terroristas como efectivamente o são? Pode não ser a causa dos conflitos, mas que os alimentaram e armaram, não tenho dúvidas.


      • Não existirá um problema religioso em África, mas vários. Cada um à sua maneira. Vamos por partes. Os islâmicos têm várias correntes, vão emigrando e expandindo a sua fé. Onde são minoritários não praticam actos violentos. Por exemplo no Sul do continente, a partir do Congo. Às vezes são vítimas e até clamam por tolerância religiosa para com eles. Porque as populações os olham com desconfiança. A maioria são africanos como os demais, fecham-se em comunidade e vivem sobretudo do comércio. Da pequena cantina de bairro à grande distribuição. Também estão muitos de origem indiana. Sobretudo em países como Quénia, Tanzânia ou Moçambique e claro, África do Sul. Mas até mesmo na costa Oeste existem em número relevante.
        Os orientais praticam na sua maioria o budismo. Vivem em comunidades fechadas, um pouco à semelhança do que fazem na Europa e fora do trabalho praticamente não se deixam ver. A esmagadora maioria está em África trabalhando na construção civil. A nível comercial controlam o comércio de alcóol que os muçulmanos desprezam.
        A maioria da população na África a sul do Sahara é cristã. A influência da igreja católica e dos missionários evangélicos tradicionais foi sendo gradualmente substituida por seitas como IURD e similares, que buscam o dízimo a quem ganha quase nada. E pagam com gosto e fé. Terreno fértil por isso para esta “indústria” em franca expansão económica. Na sua esmagadora maioria os líderes “religiosos” buscam apenas dinheiro e não provocam tumultos, pois tal seria o fim do negócio. Mas às vezes a coisa descamba…

    • Nightwish says:

      Dito por um verdadeiro homem de direita para quem a história é um desperdício de dinheiro do estado.

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