Francisco e a funcionária que recusava casamentos gay

Os fundamentalistas atribuem-se a si próprios uma liberdade de juízo e de acção que negam aos outros.
Antes do mais, um pouco da história, para quem a desconhece, embora não tenha encontrado uma versão que me fornecesse todos os dados a que gostaria de ter acedido.
Kim Davis, funcionária-chefe de uma repartição de registos numa cidade do Kentucky, opositora do casamento entre pessoas do mesmo sexo, direito reconhecido em Junho passado pelo Supremo Tribunal dos EUA, recusava-se a cumprir a Lei (os pormenores variam consoante a fonte), invocando motivos religiosos (Kim pertence à Igreja Episcopal, mas antes da “conversão” divorciara-se três vezes). Defendia para si o direito à objecção de consciência, mas os Tribunais não lhe deram razão. O Supremo terá alegadamente dito que um funcionário não pode “declinar agir em conformidade com a Constituição dos Estados Unidos”.

Nos começos de Setembro, Kim reiterou a sua posição perante casos concretos, ao mesmo tempo que impunha o seu próprio posicionamento aos colegas que lhe estavam subordinados, impedindo-os de a substituírem.
Em virtude desta atitude foi presa durante cinco dias, até a repartição poder funcionar no cumprimento da Lei.
Onde a questão começou a levantar grande polémica foi quando se soube que ela estivera num encontro com o Papa Francisco na sua recente visita aos EUA. Mais: alguns diziam que se tratara de um encontro secreto para lhe dar ânimo e, portanto, fortalecer a sua posição. No entanto, quem foi mais longe no apuramento da verdade, diz o seguinte: no dia em que  Francisco discursou no Congresso e almoçou com alguns sem-abrigo, à tarde, antes de viajar para Nova Iorque, recebeu na Embaixada do Vaticano em Washington, para um breve encontro de cumprimentos, uma série de pessoas que a Nunciatura escolhera, entre as quais se encontrava Kim Davis. Que influência teve Francisco nesta escolha, desconheço. O advogado de Kim e o lobby anti-gay que está por trás dela, diz maravilhas deste encontro, como se Francisco apoiasse inteiramente o seu procedimento.
Em virtude das proporções que o tema adquiriu nos EUA, o próprio Vaticano ficou sobressaltado e teve de emitir, em 2 de Outubro, uma nota de imprensa, desmentindo qualquer encontro secreto com a senhora. Alegadamente, o Papa ter-lhe-á dado uma atenção semelhante à que concedera às outras pessoas presentes. Mais, a nota do Vaticano afirma que “A única verdadeira audiência que o Papa deu na Nunciatura foi a um dos seus antigos alunos e à sua família”. Afirma-se também que Francisco não entrou em pormenores quanto à situação da funcionária e que o seu “encontro com ela não deve ser considerado uma forma de apoio à sua posição, no que toca a todos os aspectos particulares e complexos”. Resta saber: não a apoiou em todos os aspectos complexos… mas apoiou-a nalguns?
Na viagem de regresso a Itália, já no avião, um jornalista pergunta-lhe pelo caso de Kim. Francisco, com ar sério, começa por dizer que não pode estar a par de todos os processos de objecção de consciência e desenvolve apenas a ideia de que os Estados devem reconhecer o direito de objecção como um direito fundamental, sem mencionar qualquer caso em concreto.
Para mim, a questão coloca-se deste modo: mesmo que Kim tivesse direito à  objecção de consciência, não tinha o direito de impedir outros, ainda por cima subordinados, de actuarem de forma diferente, para mais em conformidade com  a Lei de um país democrático que já muito trabalhara esta questão. O paradoxo que se verifica aqui é – e sem poder entrar em mais considerações – o que se verifica nas posições fundamentalistas: atribuir-se a si próprio uma liberdade de juízo e de acção que se nega aos outros.
Professora Aposentada da UMinho (laura.laura@mail.telepac.pt)
in Público, 26-11-2015

 

Comments


  1. Casamento gay? Isso não existe. Casamento é um acto em que intervêm um homem e uma mulher. É como o parafuso. Tem o macho e fêmea. Tudo o resto são devaneios, delírios, e comportamentos ou ideias anti naturais. Que se juntem, pois que se juntem. Isso é com eles. Agora chamar de casamento a essa coisa é de varar… Aqui não há esquerda nem direita. Há a mãe natureza.

    • ferpin says:

      Casamento é uma palavra.
      Assim como nunca achei assim tão importante para os gays que a sua junção se chamasse casamento (há montes de casais jovens heterossexuais que optam por não casar), acho ridículo a maneira como os heterossexuais se preocupam com essa palavra.
      É como se tivessem medo que o seu próprio casamento ficasse conspurcado por os gays também o terem.
      Enfim…

  2. ferpin says:

    Eu até percebo a objeção de consciência da dita senhora (apesar de se todos fossem como ela, ela não se tinha conseguido divorciar 3 vezes). Acho que em coisas que representam uma nova fronteira dos costumes pode acontecer isso e não há necessidade de violentar as convicções mais profundas duma pessoa.
    O que já acho militância abusadora é usar a sua posição para impedir os subordinados de cumprirem a lei.
    Não percebo que não seja despedida.