Esquerdalhada, eurocépticos, referendos e golpes de Estado

DNMRK

A Dinamarca integra o restrito grupo das nações mais desenvolvidas do planeta, goza de uma situação económica robusta e é considerada uma das melhores localizações do mundo para fazer negócios. Líder isolado da lista dos países com a distribuição mais igualitária de rendimentos, a Dinamarca conta com um Estado Social altamente funcional, que garante a todos os cidadãos educação gratuita, do pré-escolar ao ensino superior, acesso a um sistema de saúde público e gratuito, e dispõe ainda de uma rede de acção social bem montada e eficiente, motivos que levaram vários estudos científicos a considerar a Dinamarca como o país mais feliz do mundo, como este produzido em 2007 pela Universidade de Leicester. Esquerdalhada do pior portanto.

Claro que tudo isto tem um preço e esse preço chama-se carga fiscal, que na Dinamarca chega a consumir mais do que 50% dos salários dos seu habitantes. Mas quantos de nós preferiam pagar impostos elevados e usufruir de todas as vantagens garantidas pela fabulosa organização social dinamarquesa, ao invés de pagar menos impostos que acabam sendo maioritariamente canalizados para clientelas partidárias como acontece em Portugal? Já agora, e por falar em clientelas, existe outra lista liderada há vários anos pela Dinamarca: a do índice de percepção de corrupção da Transparência Internacional.

Membro da União Europeia mas fora da zona euro (a Dinamarca referendou a adesão, ao contrário da classe política inútil e servil que por cá temos e que aderiu sem consultar os portugueses, provocando o desastre que ainda hoje pagamos e que durante muitos anos continuaremos a pagar), o país leva hoje a referendo a possibilidade de permitir ao Parlamento aderir a determinadas políticas comunitárias na área da justiça e segurança, relativamente às quais dispõe de uma cláusula de isenção – sim, na União é possível negociar o estatuto de cada estado-membro e nem todos estão entregues a classes políticas inúteis e servis – e, apesar das sondagens que apontam para um equilíbrio entre os dois lados, o “não” parece levar uma curta vantagem.

Um dos partidos que se bate pela vitória do “não” neste referendo é o Partido Popular Dinamarquês (nacionalista/eurocéptico), que em conjunto com o Partido Liberal, a Aliança Liberal, o Partido Popular Conservador e os Democratas-Cristãos (sendo que os dois últimos pertencem ao PPE, a família política europeia de PSD e CDS-PP), protagonizaram aquilo a que a narrativa radical e palerma da coligação PSD/CDS-PP chama de “golpe de Estado”, ao impedirem os sociais-democratas, vencedores das ultimas legislativas dinamarquesas, de governar. Note-se que, no caso dinamarquês, os sociais-democratas são mesmo sociais-democratas, logo de centro-esquerda. Já os “usurpadores” são todos parentes da coligação PSD/CDS-PP: liberais, conservadores, democratas-cristãos, populistas e extrema-direita envergonhada. E apesar de na Dinamarca ter acontecido o contrário daquilo que aconteceu em Portugal, com a direita a unir-se para afastar um governo de esquerda, também aqui estamos perante um governo minoritário, constituído apenas e só pelo Partido Liberal, que conta com acordos parlamentares para apoiar a sua acção mas sem a integração de qualquer outro partido no governo. Curiosidade: o Partido Liberal ficou em terceiro lugar nas Legislativas. Era como se o BE fosse para o governo com o apoio do PS, PCP e PEV. Mas se calhar são os dinamarqueses que não percebem nada de democracia. É exportar o Marco António Costa para Copenhaga que ele explica-lhes como funciona a democracia representativa à moda do PàF.

Comments


  1. É exportar o Marco António Costa para Copenhaga que ele explica-lhes como funciona a democracia representativa à moda do PàF.

    Vai daí o jovem explicará como funciona (nava) a Câmara Municipal de Gaia…


    • Seria a ruína da Câmara Municipal de Copenhaga 🙂

      Já estou a imaginar as avenças dinamarquesas que o Bolota Belchior iria acumular…

  2. martinhopm says:

    Tanto faz, o Big Mac ou o Seufert ou aquele do PSD da Guarda, o da ‘peste grisalha’ ou o Montenegro, ou o empresário modelo Dias Loureiro. Ele há tanto por onde escolher…