Passe de letra


passe de letra

Ando a treinar para fazer um passe de letra. Nunca tive jeito para jogar com os pés, mas enamorei-me da ideia de fazer um passe assim, todo ele artifício. Acertar na bola é o menos, difícil é dar-lhe com a força certa e fazê-la tomar a direcção que queremos. O normal é que o passe saia frouxo e sem rumo. Um passe de letra perfeito pode exigir uma vida inteira de treino. Bem, exagero, é certo, mas pode ser projecto a longo prazo. Porque um passe de letra – inesperado, harmonioso, cheio de graça – só se fará com uma inspiração divina (e provavelmente irrepetível) ou com horas de trabalho, passes toscos, joelhos doridos, um mau jeito no calcanhar. Até ao momento em que enfim se fundem talento e prática e o passe sai exemplar, tão falsamente espontâneo que qualquer um poderá achar-se capaz de repeti-lo. É nisso que acredito. Ainda não cheguei lá, mas vou treinando.

Foi ao meu pai que ouvi pela primeira vez chamar “de letra” ao passe que ambos víamos. E “de letra” pareceu-me perfeito. Porque era cheio de ilusão, de farsa, um trompe l’oeil. Cheio de letra, bazofeiro,  enganador mas apenas pelo gosto da surpresa.

Chuto, a bola sai disparada para a esquerda, não era o que eu queria. Embora esteja sempre a passar gente no jardim, ninguém se aproxima. Ao contrário dos miúdos, que começam sozinhos, com uma bola e podem acabar a jogar num grupo de 9 ou 10, sem sequer saber os nomes uns dos outros, os adultos não conseguem meter conversa para jogar. Por exemplo, aquele homem ali, fato azul-marinho, engravatado, sentado à sombra, sozinho. Vi-o sair da agência da Caixa Geral e encaminhar-se para aqui. Há qualquer coisa que lhe pesa muito e por isso não partilha a sua hora de almoço com os colegas. Carrega uma carga que lhe pende nos ombros e o faz vir sentar no jardim, sempre a repetir as mesmas imagens, uma e outra vez, o que disse e não devia ter dito, o que devia ter dito e não disse. Se eu fosse miúda ia lá ter com ele e lançava-lhe, a uns cinco metros do banco:

– Queres jogar?

E ele levantava-se e vinha, eu explicava-lhe as regras.

– Vamos fazer um passe de letra. Pões a bola à beira do pé esquerdo. Mas depois chutas com o direito, assim, por detrás do joelho. Viste? E sais a correr com a bola.

Ele atirava a gravata para trás das costas e disponha-se a tentar. Falhávamos os passes todos mas tentávamos sempre. E quando chegasse a hora de ele voltar para o balcão do banco, eu dizia-lhe:

– Para primeira vez, correu bem. Amanhã, à mesma hora?

Ele acenava com a cabeça e ia-se embora, com os ombros um nadita mais leves. Cada passe de letra acertado é um chuto nas imagens que se repetem na memória. Ou não, cada um tem os seus alvos.

Chuto, a bola sai frouxa. Roda sobre si mesma e desvia-se para o lado, como se eu lhe tivesse acertado mortalmente. Passa, sem me ver, o jovem poeta. Já não é tão jovem. Passeia-se agora com cabelo comprido e uma lustrosa calva. Traz a mala a tiracolo e ainda o cigarro, que já tentou deixar mil vezes. Vai sozinho, já não com ela. Atravessa o jardim com os olhos postos na lonjura, para disfarçar que já não vê bem ao perto. Não gosta de bola, eu sei, mas suspeito que até teria jeito. Sorri-me cheio de paciência. Passe de letra, que absurdo. Não acredita em terapias com bolas.

Depois passa a salvadora do mundo. Chamo-lhe assim, não sei o nome dela. É a mulher jovem e bonita, com boné branco e calções, que, mais uma vez, se detém no jardim para ajudar o homem que sai à rua todos os dias, com a sua cadeira de rodas e uma paralisia que só lhe permite empurrar com a ponta dos pés a cadeira, às arrecuas, e mover a cabeça com dificuldade. Atravessa o jardim dessa forma, olhando-nos de lado, uma marcha lentíssima e que nos envergonha, sem que saibamos bem porquê. Porque a vida lhe é tão espantosamente árdua, porque não sabemos se devemos ajudá-lo ou não, porque ser ele é uma penitência que nem conseguimos imaginar. A salvadora do mundo vai sempre ter com ele. Chamo-lhe assim porque não se detém frente a ele com cara de comiseração e gestos de freira. Antes, dá-lhe dois beijos nas faces, sorridente, cúmplice, conversa com ele e disfarça o gesto de ter de abaixar-se para perceber bem as palavras que a ele lhe custa articular. É tão alegre, cativante e gentil quanto o seria com qualquer outro homem. Sabe a distância a manter e não deixa que ele se confunda. Trata-o como a todos os outros homens a quem não quer seduzir mas de quem gosta. E ele ri com gosto quando fala com ela e vê-lo rir, a ele, logo a ele, parece-nos um milagre. Ela salva o mundo todas as manhãs, e a seguir atravessa o jardim como se não tivesse feito nada.

Não a convidaria a treinar passes de letra porque ela não precisa. É a nossa garota de Ipanema, mais cheia de graça.

Chuto, a bola sai sem força mas com a direcção precisa. Morre logo. Isto ainda demora, mas algo me diz que estou no bom caminho.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / aportaestreita.com

Comments

  1. João Paz says:

    Muito bom Carla! Continue que o “passe de letra” é já ali, ao virar da esquina.

  2. António Fernando Nabais says:

    Só o Quaresma consegue passes de letra como os teus. E trivelas, como explica o Nuno Lopes: https://youtu.be/pjb0w2eWO-A

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