Estranha ordem de prioridades


Kamov

Foto@Público

Um helicóptero Kamov, um dos meios mais eficazes usado no combate aos fogos florestais, custa qualquer coisa entre os cinco e os seis milhões de euros. Como a informação que encontrei não me esclareceu, vou-lhe dar uma margem generosa e assumir um valor de mercado de 10 milhões de euros. Na sua frota de apenas 47 meios aéreos de combate aos incêndiosPortugal tem seis Kamov mas três estão avariados. Em Abril, o governo garantia serem meios suficientes. Porém, em Agosto, Portugal está a arder. Só na Quarta-feira, foram mobilizados cerca de 6000 bombeiros e mais de 1500 viaturas para fazer frente a 319 fogos florestais.

Comparativamente, e sem ter que entrar em exageros como a transferência do Pogba da Juve para o Manchester por 105 milhões de euros, apresento-vos dois exemplos. O primeiro são os estádios que foram construídos para Euro 2004. Eu sei que não se deve falar sobre os gastos públicos com o futebol, mas o exemplo é pertinente por duas razões. Porque custou uma pipa de massa ao Estado e porque, tal como os Kamov, requer manutenção. E porque agora temos 10 estádios novos, mais ou menos o mesmo número de grandes fogos activos no país, mas só temos três Kamov operacionais. Fosse construído menos um estádio, um dos “baratinhos” como o Municipal de Aveiro (64M€), e poderia o Estado português ter comprado seis Kamov. E ainda lhe sobrava uns trocos para manutenção. Prioridades.

O segundo exemplo é o negócio dos submarinos. Não faço a mínima ideia de qual o grau de importância dos submarinos para o exército e para o Estado português, mas recordo-me bem da compra daqueles dois do escândalo de corrupção que não deu em nada. Excepto na Alemanha, aqui em Portugal nem um mês de pena suspensa para inglês ver.

Os dois submarinos, “adquiridos” à Ferrostaal, custaram, segundo uma notícia de 2010 da TVI, pouco mais de 1000 milhões de euros. Abdicar da compra de um submarino, por hipótese, permitiria comprar, mais coisa, menos coisa, 50 Kamov. E a pergunta que se impõe, pelo menos aos portugueses residentes no país que todos os anos são afectados directa e indirectamente pelos fogos florestais, é esta: o que vos parece ser mais prioritário para o país? Um submarino ou de 50 helicópteros de combate aos fogos florestais?

A resposta seria esmagadora e, estou certo, também se aplicaria ao caso do Europeu. Era possível fazer igual, em termos daquilo que foi a competição, e gastar muito menos. E, no entanto, cá andamos mais um ano, impotentes enquanto a nossa floresta e as vidas de muitos são consumidas pelas chamas, com meia dúzia de aviões a combater o triplo ou o quádruplo dos incêndios e a pedir ajuda aos nossos vizinhos. Podíamos ter comprado mais meios aéreos de combate aos fogos, dos quais precisamos todos os anos, em vez de construir estádios desnecessários, hoje vazios? Podíamos, mas não era a mesma coisa.

Madeira

Via Nasa Worldview

P.S. Já que se falou aqui de submarinos, e a título de curiosidade, só o valor pago em “luvas” no negócio dos submarinos da Ferrostaal com Portugal e Grécia (62M€) dava para comprar mais três Kamov. Assumindo que metade do valor foi usado para pagar os corruptos portugueses. Ou será que os nossos são mais baratos que os gregos?

Kamov1

Gif@As minhas insónias em carvão

Comments

  1. Ana Moreno says:

    100% João Mendes! A prioridade máxima é a entrada de euros para os bolsos fundos de gente que finge andar a representar os interesses dos portugueses. Tristeza profunda.

  2. Jaime Antunes says:

    Excelente análise. No entanto, temos de reconhecer que os submarinos sempre podem adaptados…

  3. Afonso Valverde says:

    https://www.publico.pt/sociedade/noticia/a-industria-do-fogo-da-dinheiro-a-muita-gente-admite-secretario-de-estado-1741037

    Compreende-se, mas é ele que é governante. Tem pelo menos a obrigação de fazer melhor para ao futuro.
    Também fala em indústria do fogo, mas deveria apontar quem são, pelo menos alguns dos “interessados industriais”, porventura alguns ligados a equipamentos de combate a incêndios e analisar melhor o Plano Diretor Municipal de algumas das autarquias que arderam e estão a arder.
    A quantidade de medidas de preenção e combate a incêndios anunciadas no passado recente e distante são tantas que metem dó comparadas com o que está a acontecer. Onde páram os grupos de escuteiros em vigilância, os desempregados, a GNR a cavalo, os motares,etc.
    Com tanta vigilância e esta terra arde. São só o pirómanos drogados ou bêbados?

  4. Anónimo says:

    No meu tempo, em português, aos aviões em geral, chamam-se aeronaves; aos veículos que andam em rodovias, “viaturas”; aos “soldados” que lutam e apagam os fogos, bombeiros e sapadores; dos fogos dizia-se que eram ateados e se propagavam.
    Agora, em brasileiro, chamam-lhes, “meios aéreos”, “meios terrestres”, “meios humanos”, e do fogo diz-se que “lavra”.
    Dizem que é “linguagem técnica”.
    Deixa arder, que a língua já ardeu.

    A ordem de prioridades, está de pernas para o ar, a começar na RTP1.
    Em vez de colocar a RTP ao serviço dos soldados que combatem o fogo, e ao serviço do país, andam os jornalixeiros à procura da vertigem, da emoção, do medo, do sofrimento dos portugueses, para abonecar os noticiários, e alimentar, pensam os idiotas, as audiências. A canalha da RTP1 (e dos outros canais) é toda da escola do Aldraban.

    Na verdade a tendência já vem de longe.
    Começou com a decoração dos cenários, foleiradas incríveis, para fazer alarde do novo riquismo, das jóias, das mamas e dos dentes dos figurantes. Por isso a forma e a superfície das coisas passaram a ser mais importantes do que a substância do serviço publico, que é, prestar a informação, com verdade, com objectividade, e com justeza.
    Veja-se a “pobreza” dos cenários da BBC ou da SKY, por exemplo. Como eles adaptam a “forma do noticiário” à “substância da notícia” e ao serviço que prestam. Para esses, o serviço publico é o mais importante e não precisa de fazer alarde do novo riquismo e terrorismo, que em Portugal se pratica, sustentado pelos cidadãos, sem resquício de vergonha.
    Não se percebe quem manda naquela casa, e ao serviço de quem.
    O que se percebe é que a televisão publica não está ao serviço do país.
    E não há governo que faça o saneamento da empresa, que é publica.

    • Nascimento says:

      Não gosto de “anônimos”😒!
      Mas aquilo que postou está pleno de razão.Certeiro.

    • Jorge says:

      Caro anónimo, você por lapso não mencionou os salários que os apresentadores usufruem, na ordem superior a €25.000 por mês. Será que se justifica salários tão altos para pessoas que nem português sabem. Reparem como eles usam o “ham” umas dez vezes em cada frase. Alguém pode-me explicar o que significa estes “hames”, porque na gramática Portuguesa não existe. Ainda não consultei a Brasileira porque estou em Portugal (julgo eu!). Esses salários deveriam de ser revistos, pois é um insulto à dignidade dos portugueses. Desde quando um/a apresentador/a de uma caixinha estúpida ganha cinco vezes mais que o Presidente da República? Não esquecer que um aumento de 5% ao ano dá para 3 salários mínimos nacionais!

  5. Ana A. says:

    Vejamos: estamos sempre a ser bombardeados com notícias, de gastos indevidos e altamente suspeitos, feitos pelos governantes.
    Como estas decisões são tomadas no seios dos governos, sem que pelos vistos, as oposições e o povo possam interferir, em tempo útil, e, como estaremos sempre sujeitos a que gente sem escrúpulos e sem ética, nos engane e seja eleita, acho que só há uma coisa a fazer: Democracia Participativa nas grandes tomadas de decisão!
    Pois, por enquanto, temos sido, apenas, chamados a participar nos pagamentos dos desaires da banca, das corrupções dos políticos, da má aplicação da Justiça…
    Que lições de vida estamos a transmitir aos mais jovens, que sem horizontes vão ter que sobreviver nesta selva?!

  6. Destruição da fauna e flora da floresta portuguesa através de fogo posto ou aparentemente acidental, com a conivência activa/passiva de cidadãos que alimentam o esquema financeiro dos incêndios que gera grandes quantias de dinheiro a indivíduos e empresas.

    Falta de regulamentação e imposição de leis que obriguem os proprietários a limpar os terrenos que possuem.

    Meios de prevenção e combate a incêndios ineficazes com corporações de bombeiros sem meios humanos e equipamento adequado; ausência de campanhas de esclarecimento nas populações, que alerte para a responsabilidade da prevenção e os perigos inerentes aos incêndios durante a época de Verão.

    Os meios aéreos, aviões Canadair e os helicópteros de combate às chamas pertencem a empresas privadas sobre influência do Partido Social Democrata, sendo o seu uso e actuação praticamente tardio e por vezes não utilizado, ineficaz, e incorrecto, na extinção dos fogos; pelo meio e sendo empresas privadas de combate aos fogos o custo das operações poderá ser incomportável para o Estado daí ser uma opção descartada por parte do mesmo.

    A solução para fazer fase a esta calamidade que costuma afectar o país na altura do Verão, passa por:

    1- Combate há corrupção e aos negócios de interesses referente aos incêndios; investigar quem está por de trás dos indivíduos que provocam os fogos.

    2- Legislar um conjunto de normas e leis de conduta que investigue, fiscalize, e puna quem não cumprir com a limpeza dos terrenos.

    3- Dotar as corporações de bombeiros dos meios humanos e técnicos necessários para que possam de forma eficiente prevenir e combater os fogos, bem como o apoiar as populações.

    4- Nacionalizar as empresas que prestam o serviço de meios aéreos de combate aos incêndios com helicópteros e aviões Canadair, colocando-os ao serviço da República e dos cidadãos, ou em alternativa o Estado criar e desenvolver o seu próprio sistema de meios aéreos de combate a incêndios, tendo em conta as necessidades e características do país.

    5- Os danos causados às populações devem ser pagos pelos proprietários das habitações e terrenos abandonados, que são uma das causas da forte propagação das chamas, e por aqueles que estão envolvidos no esquema financeiro dos incêndios e fomentam a destruição, miséria, e sentimento de impotência, nos cidadãos beneficiando assim da situação de caos criada.

    6- Pedido de auxílio (sempre que se justifique) e colaboração total em âmbito internacional com a Federação da Rússia e o Mecanismo de Protecção Civil da União Europeia, no combate aos fogos de dimensões incontroláveis.

    Deixe-se também aqui uma palavra de apreço pela coragem e resistência das Corporações de Bombeiros, Protecção Civil, e Forças Armadas, no apoio e esforço que estão a fazer no combate aos fogos e auxílio aos cidadãos, obrigado pelo vosso esforço.

  7. anónimo says:

    Democracia participativa é outra falácia, para enganar os tolos. e continuar tudo na mesma.
    Quando há eleições os partidos e os candidatos apresentam um programa do que prometem fazer, se forem eleitos.
    Em função desses programas os eleitores escolhem qual o que lhe interessa.
    Isso é que é a “democracia participativa”.
    De resto, não há democracia que não seja participativa.

    Quando os gatunos, que integram os partidos, não cumprirem as promessas que fizeram nos programas eleitorais, com dolo ou por incompetência, têm que ser acusados, julgados e condenados.
    Tanto os gatunos como a respectiva associação criminosa que os apoiou e levou ao poder.
    Dizer que só têm responsabilidade “política” é outro embuste que os gatunos cultivam e proclamam.

    Nas autarquias locais, é mais fácil ao cidadão e aos grupos de cidadãos, participarem e discutirem as decisões do executivo e da assembleia. E pedir audiência ao executivo municipal. Depende do executivo, ouvir ou não ouvir a voz dos cidadãos.

    • Afonso Valverde says:

      Reveja, por favor, o seu texto. Onde está a falácia da democracia participativa quando acabou de admitir que ela tinha cabimento nos Municípios e Juntas de Freguesia.
      Do meu ponto de vista a questão das petições (Parlamento) passaria por torna-las num dispositivo vinculativo na criação de Leis. Os deputados tinham de a discutir e o resultado seria sempre a criação de legislação de eficácia comprovada para as relações sociais e para o Estado.
      Quais são as mudanças que entende que deveriam ser feitas no regime para melhorá-lo? É disso que se trata.

      • anónimo says:

        O que designa como “democracia participativa” pode dar lugar à manipulação dos cidadãos, pela gajada do dinheiro, da especulação e dos media seus lacaios. Pode dar para desviar dinheiro publico para o bolso da gatunagem e dos lobbies que vivem à custa de roubar o estado. Pode dar em construir estádios e centros comerciais, em vez de hospitais e escolas.
        Fundamental é os políticos e os partidos cumprirem a palavra dada nas eleições. Fundamental é a honestidade e a competência dos eleitos.
        Fundamental é não serem corruptos, porque senão a “democracia participativa” só serve para os corruptores participarem.
        Fundamental é acabar com a impunidade da gestão danosa.
        A participação dos cidadãos vem por inerência, quando os políticos chamarem os cidadãos a participar.
        Hoje, isso já é possível e acontece em algumas autarquias (CDU), demasiado poucas. Não é preciso inventar outras formas de democracia.
        Na AR também é possível, mas tal como nas autarquias, é preciso os políticos quererem ouvir os cidadãos. É preciso os políticos não andarem às ordens da gatunagem

  8. Anti-pafioso says:

    O quer tem a dizer a LE Pen Cristas e o Carunchoso do Mascarenhas?

  9. Rosa Afomso says:

    Gostei muito do artigo, mormente daquela parte em que o articulista reconhece com toda a humildade (que se lhe reconhece): “Não faço a mínima ideia de qual o grau de importância dos submarinos para o exército …”. Gostei desde logo porque valida um principio que me é muito caro e que defende a ideia que as pessoas não devem opinar sobre assuntos á cerca dos quais não fazem a mínima ou, pelo menos, não entendem puto.

    PS. já agora cabe-me informar o digníssimo articulista que o Exército português não tem submarinos a operar, isso é mais a Marinha de guerra, vulgo Armada.

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