Postcards from Canada #3


Black squirrels, Real Utopias, the Best Country in the World and… Little Portugal

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Também hoje o dia começa cedo. Acho que me habituei bem à diferença horária, devido ao facto de ser noctívaga. Finalmente encontrei uma parte do mundo onde poderia aparentemente ter horários como os das outras pessoas.
Assim, são 8 da manhã quando salto da cama. Depois do pequeno almoço rumo ao G for Gelato, um sítio aqui mesmo à beira do hotel, no cruzamento da Jarvis st com a Adelaide st East que descobri ontem à noite depois de me ter enganado na rua para onde queria ir. Há acasos felizes. Este foi definitivamente um deles. Um café expresso excelente em vez dos baldes de água suja que te servem noutros sítios, incluíndo no próprio hotel. Ontem maravilhei-me diante do anúncio do café e perguntei ao empregado: ‘is that real expresso?’. Ele tirou-me um e disse: ‘depois diga-me o que achou’. Bebi um gole e exclamei: ‘just perfect’. De facto. Tão perfeito que hoje lá voltei a saboreá-lo e palpita-me que nos próximos dias assim será. Saí do café, fumei um cigarro no banco que têm à porta e segui pela Jarvis st abaixo até reencontrar o St. Lawrence Market para voltar a apanhar o autocarro turístico (já que o bilhete era de 48 horas). Saio duas paragens depois no Distillery Historic District que me tinha ficado debaixo de olho no passeio de ontem.

Saio do autocarro e já está um calor diabólico. Mas o sítio tem muitas sombras dos velhos edifícios da antiga destilaria Gooderham and Worts. Parece a Lx factory, é verdade, ainda que muitíssimo melhor conservada. Ando por ali a fotografar as casas, as portas, as janelas e as flores e a transpirar imenso. Sento-me num banco e as pessoas sorriem-me e acenam-me em cumprimentos quando passam por mim. São simpáticos os canadianos. Em toda a parte sempre um sorriso, um aceno, uma simpatia genuína.
Depois do Distillery District volto a apanhar o autocarro. Reparei ontem que há pelo menos duas paragens perto da Ryerson University onde começa o Congresso Mundial de Sociologia Rural hoje mesmo e já que paguei o bilhete, mais vale aproveitar. Passamos a Dundas Square e os seus anúncios gigantes e saio na paragem seguinte, na Carlton St. Ando um bocado para trás ao longo da (de uma pequeníssima parte, dado que esta rua é gigantesca) Yonge st e encontro a universidade cujo campus é enorme. Faço o registo no congresso e vou á procura do auditório para as sessoes plenárias da tarde. É quase meio-dia. Sento-me num banco de jardim no bonito parque da universidade, vejo um ou outro esquilo por ali, fumo um cigarro, bebo imensa água. Acabo por comer ali mesmo.
O congresso não parece ter muita gente, para um congresso mundial quero dizer. Assim mesmo encontro apenas, durante a hora do almoço uma colega hungara que conheço há imensos anos. A seguir à primeira sessão plenária da tarde encontro o Eladio e o Manuel.
Antes disso tinha estado a fumar um cigarro com uma rapariga inglesa que faz doutoramento na Grécia. Estava eu de pé a fumar quando ela se aproxima e apontando para um esquilo preto que eu tinha acabado de fotografar, me diz que são raros, pelo menos não tão frequentes como os esquilos cinzentos. O esquilo preto não se importa nada com a explicação dela e continua a passear-se por ali, enquanto eu e a rapariga conversamos do que estudamos, o que fazemos, essas coisas que se conversam em congressos nas pausas para café e cigarros. Neste não existe ‘coffee break’, mas sim ‘ice cream break’ o que, diante deste calor aterrador e da fraquíssima qualidade geral do café canadiano, me parece muito bem.
A segunda sessão da tarde é uma palestra do Eric Olin Wright. Se estudaram sociologia decerto saberão quem é. Marxista e estudioso das classes sociais. Mais recentemente teórico das alternativas ao capitalismo, que ele designa por ‘utopias reais’. É disso mesmo que fala hoje. Aplica as suas teorias pouco aos estudos rurais, no entanto. Apesar disso ouço-o com gosto e, claro, concordo basicamente com ele. Como não concordar que o discurso do ‘there is no alternative’ deve ser combatido? Que o capitalismo deve ser, pelo menos, controlado? Que podemos (e devemos) provocar a erosão do capitalismo através da organização coletiva e dos movimentos sociais?
A seguir encontro finalmente o Luís, com quem vou caminhando até à Welcome Reception na Carlton St num estádio de Hoquei sobre o gelo. Está fresquíssimo dentro do edifício, claro. A comida é boa. Bebo uma Molson Canadian que não é nenhuma maravilha, mas está relativamente fria. Encontro mais colegas daqui e dali. Depois saio. Continua demasiado calor e o hotel fica a mais ou menos 20 minutos a pé. Apanho um táxi que me leva menos de 7 dólares (4,7 euros) e chego à porta do hotel, pensando que amanhã às 9h tenho de estar na sessão que co-organizei com o Pavel e que tomarei outro táxi para não chegar à universidade completamente transpirada. Pago mais em Aveiro quando venho carregada demais para percorrer a pé os 700 metros que separam a estação da CP da minha casa.
Durante o percurso, curto, o taxista pergunta-me de onde sou. Quer saber como é a situação económica de Portugal. A pior possível, digo-lhe e explico porquê, ou tento. Ele diz que há muitos portugueses no Canadá. Digo-lhe que é verdade e que há até uma zona em Toronto (reparei ontem de manhã no mapa que me deram no hotel) chamada ‘Little Portugal’. Diz que sim, como ‘Little Italy’, ‘Little Korea’ ou ‘Chinatow’. Pergunto-lhe se nasceu no Canadá. Diz que é do Bangladesh mas vive em Toronto há 29 anos. Acrescenta, orgulhoso, ‘it is the best country in the world, we do not pay for healthcare is the best country in the world’. Gosto deste taxista e do seu orgulho patriótico. Da sua certeza que o Canadá é o melhor país do mundo. Gosto. Eu, que só tenho um ‘very little Portugal’ escondido dentro de mim e, já o disse tantas vezes, podia ser de qualquer parte, como creio que sou.

Comments

  1. Conheço bem esse estilo de orgulho do nascido no Bangladesh. Por norma de facto a bica é má por aí, muitos cafés italianos tem bom café e há algumas pastelarias portuguesas na Dundas que também se orgulham do seu bom café do nosso Portugal.
    Penso que a geladaria que referiu é precisamente uma onde eu já comi bons gelados, embora eu vá a Canada mais vezes no inverno do que no verão.
    Conhecia bem a Distillery Historic District na altura em que um primo era curador de uma galeria de arte contemporânea cujos proprietários eram de Vancouver, mas agora ele age por sua conta e curiosamente mudou-se para a sua galeria em little Portugal, sendo apenas uma coincidência espacial, nada com outros ligações às terras dos antepassados lusitanos.

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