O auto-retrato feito pelas escolhas


Homens da dimensão de Mário Soares nunca são unidimensionais. Assim, as avaliações e referências que a eles se fazem reflectem sempre esta realidade. Na morte, ficam entregues às palavras dos outros sem direito a apelo. É por isso que os que agora se pronunciam escolhem o retrato que querem desenhar e ficam, eles próprios, sujeitos a julgamento pelas inclusões e omissões que fizeram, pela probidade e procedência do que dizem, sabendo-se que o que afirmam diz tanto deles como do objecto das suas apreciações. É por isso que um elogio pode ser insultuoso, uma distanciação pode ser honrosa, uma crítica pode ser um sinal de integridade. Ao escolher os atributos que definem aquele de quem falo, não me posso furtar de definir-me a mim próprio. Estes dias têm sido, neste domínio, uma lição do que há de pior e de melhor. Assim sendo, aguardava com alguma expectativa os discursos da cerimónia fúnebre a que assistimos hoje. Queria saber qual, nas palavras dos oradores – os filhos de Mário Soares e as figuras institucionais -, era a a imagem que emergia. Foi, há que reconhecer, um momento digno. Ilustro o que digo com o discurso de João Soares, o qual sublinhou, sobretudo, a dimensão de lutador anti-fascista e resistente do homenageado, a sua busca de liberdade. Em palavras que reflectiam, como é natural, a sua vivência pessoal dos acontecimentos. E lembrando factos que a comunicação social mal mencionou por estes dias, ocupada que estava em construções ficcionais tão indignas nos ditirambos como nos insultos e falsificações da história.

Comments

  1. Um bom exemplo de lucidez. O meu aplauso.

    Destaco as palavras que melhor caracterizam o que predominou nos últimos dias:
    “construções ficcionais tão indignas nos ditirambos como nos insultos e falsificações da história”

  2. Rui Naldinho says:

    A História está cheia de falsificações, quase todas construídas de forma seletiva, denegrindo uns, elogiando outros, bajulando outros tantos, escamoteando a verdade, ocultando e distorcendo a realidade dos factos que não interessam mostrar, tudo para que os triunfadores sejam sempre os mesmos. Aqueles para quem o Poder económico os torna imaculados.
    Não me escuso afirmar que Soares cometeu vários erros na sua vida. A maioria deles escrutinados por toda a imprensa, que na maioria das vezes procurou amplificá-los para que a sua imagem fosse reduzida a uma personalidade incoerente, sem escrúpulos, e desprovida de méritos.
    Se é verdade que Soares foi por vezes alguém errático, e que baralhou as contas dos seus mais fiéis seguidores, que não eu, mas daqueles que viam nele o socialista das causas justas, do mundo operário e do camponês sem terras, o defensor dos mais desfavorecidos, apesar da sua postura nobiliática, ele foi também o homem que se opôs à ditadura de Salazar e Marcelo Caetano. Foi contra a guerra ultramarina. Sujeitou-se ao exílio, ao degredo no Tarrafal e à prisão domiciliária em S. Tomé, ao mesmo tempo se recusava a seguir o caminho de outros países, onde o comunismo triunfara.
    A maioria dos seus detratores, especializaram-se na arte do enxovalho e da mentira, perante a sua própria incapacidade de se reverem na coragem de Mário Soares. Nunca tiveram “tomates”, eles, e “peito”, elas, para levantar a sua voz ao Regedor lá da freguesia, ou ao Chefe do Posto Administrativo da localidade, nas colónias, quanto mais perceberem o que é lutar pelas suas ideias, abdicar de quase tudo para se defender um país onde existisse uma verdadeira democracia.
    Já alguém perguntou onde andam os nossos triunfadores? Sim, aqueles que nos meteram na merda, e que nos vão deixar a pagar esta dívida incomensurável?
    Ou essa parte já na interessa?

  3. Àqueles que disseram na morte de Álvaro Cunhal que se tratava de um homem “coerente”, sugiro que digam agora de Mário Soares, que foi “amigo do seu amigo”.

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