O caso Sebastião Pereira


Há bordões que são repetidamente usados na política, num exercício de fornecer argumentos à retórica. Passando por alguns exemplos, lembro-me dos socialistas (ou os xuxas, como lhes chamam) só saberem gastar o dinheiro dos outros (como se não estivéssemos a pagar os desmandos da banca privada). Vem-me à memória os bafientos salazaristas da direita (como se a esquerda fosse um paraíso sem perseguições políticas). Ocorre-me a eficiência do privado, comparativamente à da gestão pública (fazendo tábua rasa da crua realidade de as empresas que foram privatizadas não terem melhorado os serviços, nem terem baixado os preços). Outro chavão que se ouve amiúde é que a esquerda é mestre na propaganda e no controlo da comunicação social (sem se referir a máquina “Maria da Luz” e passando uma esponja sobre o controlo accionista dos media). A lista poderia crescer bem mais e só vou acrescentar mais um exemplo para balancear, recordando o argumento da ética republicana (como se o escândalo das nomeações e da promiscuidade nos negócios não fosse igualmente forte entre os socialistas). Retirando os óculos partidários, vemos que o modus operandi é semelhante, independentemente da cor política.

Vem esta introdução a propósito do que podemos chamar de o “caso Sebastião Pereira”. O jornal espanhol El Mundo publicou um artigo sem grande interesse sobre o incêndio em Pedrogão Grande. Outros se seguiram e cairiam no esquecimento, não se desse o caso de terem sido empolgados por alguma comunicação social portuguesa (aquela controlada pelos socialistas, lembram-se?). Desde o inevitável Observador, passando pela SIC Notícias e Expresso, e continuando pelos habitués Jornal Económico e Sábado, sem esquecer o incendiário Correio da Manhã, entre outros, estes artigos saídos de cá dentro, para  cá voltarem depois de uma elevação ao estrelato do “lá fora diz-se”, constituem uma elaborada manobra de propaganda.

Diz-se, e com elevada probabilidade de estar certo, que o governo montou um gabinete de crise, com agências de comunicação a fazerem permanente assessoria comunicacional. Todo o governo o faria, nada de novo, portanto. Da parte da direita, o ataque pretendeu ser frouxo, dada a necessidade do politicamente correcto, tirando alguns gemidos quanto à actuação do Presidente da República e desmandos como o da senhora Sofia Vala Rocha. Mas o potencial da desgraça era demasiado tentador para não ser usado no combate político e, seguramente por isso, foi orquestrada esta manobra cobarde para lançar o tema indirectamente. Sim, é uma opinião minha sem provas, mas na qual vejo a mesma assinatura do que foi a última eleição legislativa com o caso “Maria da Luz“.

A única estranheza no caso Sebastião Pedreira está no autor ter decidido escrever sob pseudónimo. O que leva ao mesmo leque de dúvidas que o caso “Miguel Abrantes” levantou: quais são as motivações de quem opta por escrever sem dar a cara? No governo de Sócrates, as escritas do “Miguel Abrantes” foram amplamente discutidas, inclusivamente pela mesma direita que agora se abespinha com a discussão do caso “Sebastião Pereira”. Porque razão não hão-de ser também os escritos deste sniper político igualmente escrutinados?

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Hoje os jornais ditos de referência quase não se vendem. São de consumo reduzido, apesar do aumento de escolaridade obrigatória. Há umas honrosas excepções, mas mesmo esses, muito aquém de outras eras. O Correio da Manhã é o único que ainda se vende bem, mas por razões sobejamente conhecidas. Por exemplo, a revista Sábado e o Jornal Económico são da mesma empresa, e quase ninguém compra aquilo.
    Porque razão aparece o Sebastião Pereira, através do El Mundo?
    Para mim a resposta é facílima.
    Até hoje, estes esquemas comunicacionais de valorizar umas quantas coisas em detrimento de outras, fossem elas notícias, cusquices ou aldrabices, de maximizar eventos, replicando-os, minorando e abafando outros tantos, quando não interessavam às partes, sempre funcionaram em paralelo nas redes sociais e nos média tradicionais, de uma forma disfarçada, mais ou menos escamoteada. Uma no cravo, outra na ferradura. Apesar de tudo havia decoro. Mas sempre cá por dentro. Entre portas. Acontece que a comunicação social nacional, mas não só, no último quinquénio, pôs-se a jeito, tomando definitivamente a opção de estar apenas de um lado, omitindo o que não convinha noticiar, esmagando sem qualquer contraditório a parte que agendou silenciar, se possível até destruir. Trump ao pé de nós é um merdas. Parece grande, mas acreditem, é só por ser na América do Tio Sam. Se fosse aqui, não chegaria aos calcanhares de José Eduardo Moniz, por exemplo.
    Por cá, em nome do liberalismo tudo foi permitido, não estivéssemos nós sob resgate das nossas almas pecadoras.
    Só que o tempo, não o atmosférico, mas aquele que conta as horas, os dias e os meses, esse tempo é tramado. Vingativo por vezes. Revolta-se quando menos se espera.
    Eis então, que aquele português pouco disciplinado, pouco organizado, e com alguma falta de método, mas nunca néscio, percebe que está a ser enganado por uma tramóia em forma ladainha, sempre com a mesma cantilena, “vives acima das tuas possibilidades”, “encheste-te de dívidas”, “és laxista”, “piegas”, “se estás mal, emigra”, a qual lhe está a ser vendida dia após dia como se ele fosse um pária, um mandrião, ou mesmo um doente psiquiátrico,… e reage!
    É nessa altura que resolve mandar a Sofia Vala Rocha, o Sebastião Bugalho, o António Ribeiro Ferreira, o Rui Ramos, o João Marques de Almeida, o Alberto Gonçalves, o Octávio Ribeiro, o David Diniz, a Maria João Avilez, etc, etc, etc, pró raio que os parta, e deixa de comprar os jornais ditos de referência.
    Mas como sempre, há na mente Tuga, muita criatividade.
    Vai daí, apareceu um D. Sebastião pronto a salvar e dar credibilidade há nossa imprensa, de rastos, diga-se, mesmo que pela mão de “nuestros hermanos”, de Madrid, sempre prontos a venderem-nos um Miguel de Vasconcelos qualquer, não fossemos nós para eles, os “portuguesitos”.

  2. Orlando Sousa says:

    Tem de se perguntar à Fernanda Câncio se já almoçou com ele (como fez com o Miguel Abrantes). E assim saberemos também quem lhe paga (o Miguel Abrantes era pago pelo Sócrates).

  3. Pedro says:

    É pá, acho giríssima e muito pertinente esta onda de associar o “Sebastião” ao “Abrantes”. Agora é o Orlando. O Sebastião e o El Mundo é que não gostarão, se calhar…

  4. Até porque o Sebastião é claramente uma versão laranja do Abrantes. Resta saber quem lhe paga. Será um dos “bloggers da corda” que ajudou Passos a chegar ao poder?

  5. João says:

    Aquilo que aqui agora é referido, era e é uma prática antiga de alguns tugas fazerem sair “notícias” em Espanha, normalmente no El Pais, para poderem ser notícias cá. Depois era ver a TSF, o DN, o JN, a Visão, a TVI e outros, apressados a “citar” essas supostas notícias…

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  2. […] Pedro Passos Coelho deslocou-se a Pedrógão Grande para fazer política e não resistiu à tentação do dividendo fácil pós-tragédia. Após ter sido briefado por João Marques (PSD), um “dinossauro” autárquico que governou o município fustigado pelas chamas entre 1997 e 2013, posteriormente afastado pela lei da limitação de mandatos e novamente candidato este ano, depois de curto interregno como provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão, Pedro Passos Coelho agarrou a oportunidade e decidiu roubar os holofotes ao jornalista Sebastião: […]

  3. […] sabe quem é o Sebastião mas também não falta quem queira assumir a identidade do novo herói da direita ressabiada. Um […]

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