From Russia, with love #11 (Saint-Petersburg)


Os gatos de São Petersburgo

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Podia concentrar-me no cruzador Aurora ou na Fortaleza de Pedro e Paulo, mas acho que prefiro falar sobretudo dos gatos de São Petersburgo. Talvez esteja já cansada de ver coisas que devem ser vistas, quero dizer, coisas que deveria ver sem falta uma vez em São Petersburgo e, por isso, talvez prefira concentrar-me naquilo que há em toda a parte: os gatos, os pardais, as pessoas e o vento.
 
Apanhei hoje, já não era cedo, o autocarro número 1 na avenida Nevsky. Atravesso a ponte Devortsoviy para a ilha de Vasileostrovsky e depois de contornada a Birzhevaya, a ponte Birzhevoy para Petrogradsky. Saio no cruzamento da rua Pushkarskaya com a rua Lenin e um bocadinho à frente apanho o pequeno autocarro K30 para perto da ponte Sampsonievskiy. O meu destino é o cruzador Aurora, ancorado na Petrogradskaya. O barco do século XIX que faz parte do património histórico da cidade. Participou em algumas guerras, mas ficou famoso por ter lançado o tiro de canhão que foi a senha para que os bolcheviques invadissem o Palácio de Inverno (que integra o Hermitage, ver postal de ontem), antiga moradia do Czar Nicolau II. O Aurora foi um dos maiores símbolos da URSS. Hoje é um museu.

 
Um museu que não visitei, diga-se. Vê-lo por fora, chegou-me e bastou-me. Também estava uma fila imensa e não estive para pagar 600 rublos para ver canhões e marinheiros e lemes e salva-vidas e tudo isso que têm os navios de guerra. De maneira que o vi por fora, durante um bom bocado, mas ocupei-me sobretudo a ver a paisagem. Ainda pensei ir à estação de caminho de ferro Finlyandskiy, de onde partem e de onde cham os comboios para, justamente a Finlândia. É também conhecida por ter sido a estação a que chegou Lenine em abril de 1917, regressado de um longo exílio, para liderar o movimento que daria origem à Revolução de Outubro. Um sonhador que concretizou o seu sonho, embora o tivesse vivido por pouco tempo (morreu em 1924). Talvez tenha sido melhor assim (para ele, quero dizer, para os russos e demais habitantes dos países da ex-URSS não estou assim tão segura). A estação da Finlândia não era longe de onde me enconrava, frente ao Aurora, mas decidi voltar para trás e ir à Fortaleza Pedro e Paulo.
 
Voltei a apanhar o pequeno autocarro K30 e saí duas paragens depois. Ao sair deparei-me com a mesquita mais bonita que já vi na vida e andei de volta dela, embasbacada, naturalemente. Toda ele é detalhes em tons de azul, delicados e minuciosos. A abóbada é enorme e detalhadíssima também. Uma obra bela, portanto, muito mais bela que o cruzador Aurora. Antes disso tinha visto um gato na Petrogradskaya. Um gato listado de grandes olhos verdes. Um gato dócil e delicado. Também ele a acrescentar beleza e suavidade ao mundo, como a Mesquita de São Petersburgo, embora de outra maneira. Atravessei o parque-praça Troitskaya e dispus-me a entrar na Fortaleza. Ao atravessar a ponte, patos e gaivotas disputam pedaços de comida que as pessoas atiram ao rio Kronverkskiy. Do outro lado uma estátua de um coelho em cima de uns pequenos pedestais de madeira para onde pessoas atiram moedas.
 
Pergunto a um rapaz para que é aquilo, já imaginando a resposta: é para dar sorte. Agarro numa moeda de 1 rublo (mais uma vez a minha sorte vale pouco e conheço a minha pontaria) e atiro-a ao colelho. Naturalmente cai na água. Cheguei assim, sem sorte, à Ilha do Coelho, onde está instalada a fortaleza fundada em 1703 por Pedro, O grande. Mal entro a primeira porta, deparo-me com um cenário ‘walt disneyano’. Bonecas russas e coelhos, lojas de souvenirs, cafés com canteiros de flores. Pago 600 rublos e atravesso a segunda entrada. Encontro sentado num banco um enorme coelho fazendo o V de Vitória ou de ‘está tudo cool’, como se quiser. Miúdos e graúdos tiram fotografias ao lado da estátua do coelho ‘cool’ e, obviamente eu faço o mesmo.
 
Antes de chegar à catedral de Pedro e Paulo passo uma estátua que acho maravilhosa de Pedro, o Grande, em frente à Casa da Guarda, bonita e sossegada com um grande relvado verde defronte. Chego à praça da Catedral de Pedro e Paulo, De perto não é tão bonita nem tão impressionante como vista do outro lado do Neva, com as suas cúpulas ou abóbadas e o seu pináculo a brilharem ao sol que, por sinal, hoje não há. Entro na Igreja seguindo filas de excursionistas. O interior da igreja
é impressionante e muito brilhante. Nela estão enterrados todos os Czares da Rússia, de Pedro I a Nicolau II, excepto Pedro II e Ivan VI, assim como as suas famílias. A igreja está. por isso, cheia de lápides de mármore. Não é a coisa que mais aprecio ver na vida, confesso. Dentro da igreja a confusão é grande e prolonga-se até à saída. Quando saio reparo numa gata que se lava, encostada a uma parede. Começo a tirar-lhe fotografias e ela levanta-se suavemente, atravessa a rua até ao canalzinho de água e fica ali a olhar para ele. Depois, com o mesmo sossego suave volta para trás e deita-se sobre uma escada de pedra.
 
A gata e a sua indiferença segura foi a coisa que mais gostei de ver na Fortaleza de Pedro e Paulo. A gata e os pardais quando me sentei para beber água, antes de me dirigir para a prisão Trubetskoy, onde muitos homens estiveram presos, antes da Revolução, especialmente por causa das suas ideias. Entre eles, Trostky, Gorki e Dostoyevsky. A prisão não está tão ‘disneylizada’, mas encontro nela uns bonecos horríveis a imitar guardas e presos. Detesto este aligeiramento das coisas graves, confesso, aqui como em toda a parte. Ando pelos corredores da prisão, que é enorme e tem dois andares. No segundo andar descubro a cela onde esteve Trotsky e também Gorki (a mesma, em períodos distintos). Depois vejo o pátio, a cozinha, os banhos e saio. A prisão foi convertida em museu em 1924, mas antes disso, já a época revolucionária, estiveram presas e foram aqui executadas várias centenas de pessoas.
 
Começa a chover e a Fortaleza torna-se num lugar triste de repente. Quero dizer, num lugar menos ‘disneylândia’. As pessoas abrigam-se, a estátua do coelho sentado no banco é deixada absolutamente só e gatos e pardais resguardam-se também. Eu volto para trás devagar, com o meu guarda-chuva vermelho, apanho o autocarro 46 na praça Troitskaya e deixo-me ir nele, numa grande volta. Nunca encontrei turistas, a não ser eu, nos autocarros em São Petersburgo. Nem gatos.

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