A poda


António Figueiredo e Silva

(Carta aberta à “PESTE GRISALHA”)

“A nossa pátria está contaminada pela já conhecida peste grisalha.”
Carlos Peixoto
Advogado e Deputado do PSD
(In: Jornal I)

É… a tão almejada campanha eleitoral avizinha-se, sendo por isso a época da poda – da poda, disse eu; não subentendam por isso, qualquer tipo de impropério ocasionado por imperfeição interpretativa – às vezes a idade não perdoa – que vos possa aflorar erradamente ao pensamento.

Eu não vos dizia?! Não sei se recordam!? Como eu perdoo mas não esqueço, faço questão de vos lembrar da carga psicológica negativa que a frase acima exposta teve, a somar ao peso da nossa idade afectada pela implacável velhice; do corpo, porque do cérebro, salvo algumas excepções, ainda supera a de muitos miúdos que andam p’raí com a cabeça cheia de brilhantina e nada mais, e keffiyeh enrodilhado ao pescoço de garnizo, a mandar uns manientos bitaites armados em doutos, mas que na realidade não passam de imprestáveis acéfalos.

Pois bem caros compinchas, digníssimos elementos do nosso clube da velhada, a tal época da esfrança está a chegar e não podemos de forma alguma, mercê da nossa experiência, deixar de dar umas tesouradas no nosso pomar, por causa dos ramos que nada produzem, e “desladroá-lo” – o que não presta corta-se ou esgaça-se – uma vez que as árvores não conseguem fazê-lo por si sós.

Cabe-nos pois, com a nossa “débil” força física, todavia com a robustez do nosso carácter – ainda que amparados por alguém ou agarrados a uma bengala – conceder o nosso “infectado” contributo no sentido da renovação do pomar deste nosso Portugal, cujas árvores têm dado carpos que já são putrefactos de nascença e por cá continuam a chupar a seiva que seria devida a frutos de melhor qualidade.

Velhinhos… apesar de poderdes acreditar na existência de uma justiça Divina e que os acertos de contas poderão feitos do outro lado, ainda não apareceu ninguém que se tivesse prontificado a ceder-me um bem material neste mundo e a receber um cheque meu para pagamento da dívida, a levantar numa entidade bancária do além.
Por isso, por uma questão de precaução, devemos optar pela certeza e fazer como S. Tomé: “ver para crer”; é o mesmo que dizer “cá se fazem, cá se pagam” – depois se verá… ou não se verá nada mesmo!?

Não podemos permitir que alguns “frutos” putrefactos se mantenham nos ramos e pinguem a sua podridão sobre as nossas cabeças que o manto de neve da experiência já cobriu, à custa de muita luta e sacrifício.
Temos de demonstrar que estamos vivos e satisfatoriamente activos, ainda que contra a vontade de alguns, e que também somos criaturas com capacidade para aferir a balança da razão, se a podridão no poder estiver a afectar o seu equilíbrio.

Vamos podar. O dia da poda será em 1 de Outubro do corrente ano.

O meu apertado abraço à “VELHADA”, distintos, prestáveis e corajosos elementos da “PESTE GRSISALHA”, que não se têm esquivado no combate à putrefacção elitista, para que um futuro melhor, ainda que curto, possa despontar no meio desta savana social onde as hienas do poder nos querem comer vivos.

Já não auguro um futuro promissor para nós, porque, como estamos “contaminados pela peste”, já estamos no fim da linha, porém para os mais novos, que no momento estão a sofrer com os resultados decorrentes desse apodrecimento; espero que essa podridão seja extirpada até à última bactéria.

Agarrem nas tesouras da vossa consciência e façam o trabalho limpo, deixando apenas para crescimento os ramos que julgarem sãos, onde poderão brotar as gavinhas da razão, da justiça e do respeito.

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 19/08/2017
www.antoniofsilva.blogspot.com

Comments

  1. Na minha modesta opinião, o grande problema reside em saber QUAIS SÃO (ONDE ESTÃO?) “… os ramos que julgarem sãos, onde poderão brotar as gavinhas da razão, da justiça e do respeito.”!

  2. Rui Naldinho says:

    Todos nós temos, amiúde, dúvidas existenciais. E na política ainda mais. Por exemplo, não sei se me identifico mais, nos dias de hoje, com o BE, ou mesmo com o PCP, apesar de alguma reserva às orientações e práticas políticas destes dois partidos, do que num partido como o PS, que mal se apanha no Poder sozinho, e faz logo merda.
    Agora, eu sei que não quero ver mais no Poder, o PSD, partido em que já votei num passado longínquo.
    Não sei se por onde vou, eu irei pelo caminho certo. Mas sei com toda a certeza, por onde eu onde não quero ir. Melhor, por onde eu me recuso a ir.
    É só isso.

    • antero seguro says:

      Concordo com o Rui e posso acrescentar que apesar de sempre ter votado duma forma consciente (penso eu) apenas ganhei umas eleições. Foi quando engoli o célebre sapo. Apesar de tudo não me arrependi.

  3. A metáfora da poda e da política não resulta bem, porque as árvores e as plantas não precisam ser podadas. O ser humano poda as árvores e as plantas, que mais não é do que amputar partes do ser vegetal, por mera ganância. Talvez o capitalismo tenha mesmo sido inventado com a agricultura. O querer mais e mais. A Natureza é uma harmonia e equilíbrio. E as árvores e plantas não nasceram com um ser humano acoplado de tesoura da poda na mão para que este as amputasse para lhes fazer bem! Não há qualquer relação de mutualismo entre homem e árvores e plantas. O que há é a ganância do homem, que amputando partes das árvores, obriga-as, em sofrimento, a produzir muito mais. Uma videira é uma trepadeira que cresceria livremente por dez ou vinte metros tal como uma glicínia por exemplo. Mas o ser humano quer a planta pequena e cheia de cachos de uvas para produzir mais e mais. Lá está a ganância e o capitalismo. Tal como as árvores não devem ser podadas. Mas é ver nas cidades, empresas privadas, como eu ainda vi este verão, por todos os jardins do Porto, a podarem árvores de grande porte. Não sabem o que fazem. Sabem claro, estão a chupar dinheiro de todos nós, para o bolso deles, e enquanto isso matam árvores que ali estavam há centenas de árvores. Não é preciso saber muito da poda, para saber que não se podem podar árvores de grande porte. Qualquer ramo grosso será um duro revés, e igual parte de raízes da árvore morrerá. E qualquer corte, será uma auto-estrada para os fungos entrarem e matarem a árvore.

    Percebi a ideia, mas a metáfora acaba não resultar porque as árvores e plantas viveriam bem melhor sem poda. Tal como nós viveríamos bem melhor sem políticos corruptos. E nós seres humanos, somos o político corrupto e ganancioso, que sem escrúpulos explora a Natureza.

    • Olhe, foi muito interessante essa acutilante observação que teve o condão de me fazer reflectir. As árvores e outras plantas são castradas pela nossa própria espécie para servir os nossos interesses egoístas e egocêntricos.
      A preocupação com a Natureza, a enfoque nos direitos dos seres vivos do mundo animal no meio da vida humana cada vida mais “selvática” tem muita pertinência nos dias que correm.
      Quanto à corrupção, realmente é um problema transveral a toda a sociedade portuguesa e, naturalmente, a todas as cores políticas (embora talvez haja partidos que não sejam tão maus como outros. Todavia, esse semi estado de graça talvez seja devido a nunca terem estado no Poder. E, com o sistema de Justiça que temos, não vejo isto a tomar rumo tão cedo …

      • Continuando a usar a terminologia de almanaque agrícola, nós estamos a colher o que semeamos. Poluímos o planeta de plástico? Agora estamos a comer e a bebê-lo. 84% da água das torneiras de todo o mundo (72% na Europa) contem fibras de plástico (e água engarrafada também não é diferente).
        As sociedades optaram pela oligarquia dos interesses dos mais ricos (chamaram-lhe democracia) e o povinho, na maioria das vezes mal informado (outras de livre vontade) elege políticos corruptos e ladrões? Então depois terá de sofrer as consequências das suas escolhas.

        E não pode haver estado de graça de partidos pequenos de esquerda, quando não temos um único órgão de comunicação social de esquerda. Quando os média portugueses, generalizadamente, indo atrás das picaretas falantes da direita, apelidaram de “geringonça” a coligação de partidos de esquerda, tentando humilhar, rebaixar, como quem chama paneleiro a quem tem uma opção sexual diferente da maioria, não podemos dizer que os pequenos partidos de esquerda estão em estado de graça, se estão, sempre, a ser chamados de radicais, como se ainda comessem criancinhas. Ainda por estes dias lia uma entrevista do Pacheco (Benfica e Sporting) a dizer que o Diamantino era um portento de jogador, mas foi prejudicado por ser comunista…
        Acho é que a simpatia que recolhem advém do facto de terem razão em muitas coisas e de colocarem muitas vezes o dedo na ferida. Como seriam esses partidos se fossem governo? Isso também não sei. Mas gostaria de ver. Pelo menos diferente do que têm sido estes 43 anos. Isso seria de certeza.

    • Fernando Manuel Rodrigues says:

      Não percebe nada nem da poda nem da agricultura.

  4. “A nossa pátria está contaminada pela já conhecida peste grisalha.”
    Carlos Peixoto
    Advogado e Deputado do PSD

    Pera aí?! Carreguemos no botão “Pause” para reflectir, com a devida seriedade e realismo na ideia ou na posiçao defendida por este comentário e por isto “pulhítoco”. Comentário … isto é uma opinião.

    São muitos os portugueseses que viveram (e vivem) no estrangeiro. Eu próprio vivi e fui educado, desde nascença, no Canadá – cuja cultura conheço relativamente bem.
    Em inglês esse comentário traduz-se mais ou menos assim

    “Our motherland is contaminated by the widely acknowledged graying hair disease or pest”

    Como seria a reacção da opinião pública e a do próprio partido perante um comentário destes, no Canadá, Suécia, Dinamarca, etc…? Trata-se de um deputado – um cargo político de grande responsabilidade!

    Nem quero imaginar. Seria trucidado. Provavelmente, seria banido do partido e obrigado, se tal fosse legalmente admissível, a abdicar do cargo. Os colegas do próprio partido o teriam denunciado, criticado e se distanciado dele.

    Teria, no mínimo, que pedir desculpa e seria sujeito a um ataque violento por parte de cidadãos, associações, movimentos, etc.

    Em Portugal, um comentário dessa natureza é alvo de alguma censura, mas muito pouca. A indignição e a revolta praticamente não se fazem sentir. Consequências? Nenhumas?

    É um comentário grave! Gravíssimo! Inadmissível! Violentíssimo! Revela um nível de “canalhice” e imaturidade inusitados e um total desrespeito pelas gerações mais velhas que merecem ser acarinhados, protegidas e louvadas – não denegridas!

    Uma vergonha!

    Ai rico povo português tão passivo e de costumes tão brandos! A nossa alienação, falta de cultura cívica e cidadania forte e activa é um dos nossos calcanhares de Aquiles.

    • ZE LOPES says:

      Ainda bem que quem está contaminada é a Pátria, e não o país. Já estou mais descansado. A Pátria é coisa que não costumo frequentar.

  5. JgMenos says:

    Não sei em que contexto foi referida a questão da PESTE GRISALHA, mas dou-vos a minha versão, tão própria quanto já pertenço a essa ‘peste’.

    Os arautos da velhada vêm com as pieguices que acreditam poder beneficiar quem diz querer manter-lhes a mama a bombar.
    Tornando claro:
    – Quem hoje é velho até aí aos oitenta e três anos, passou a maioria da sua vida activa num país que nunca ganhou o que comeu.
    – As reformas que são pagas excedem em pelo menos 50% o que resultaria da capitalização dos seus descontos. Se lhes acrescentar-mos as despesas que os sustentam numa velhice assistida medicamente e mais, a coisa vai muito além.
    – Como todas as aproximações estatísticas, casos há de total e absoluta bandalheira a par de misérias injustificadas.
    – Ainda por cima, nem sequer fizeram filhos bastantes para que possa dizer-se que são pagos em família.
    – De facto são pagos por quem há-de ainda nascer e trabalhar para lhes pagar as dívidas.
    – Muitos deles, ganham reformas por valores que quem hoje for desempenhar as funções que realizaram no seu tempo, provavelmente não consegue ganhar!

    Se isto não é peste, não sei o que será.
    Tadinhos dos velhinhos?
    Há demasiados mamões à mistura!

    • ZE LOPES says:

      Já vimos que V. Exa. também é um verdadeiro especialista em tintas capilares. Mais um tema a acrescentar ao seu futuro doutoramento. No entanto, há aqui algumas questões que não parecem loiras, perdão!, claras:

      Especifiquemos:

      Ponto prévio: pode-nos dizer onde V. Exa. contraíu a peste, para se tomarem medidas de precaução?

      1º) Afinal os países também comem?

      2º) Há três coisas que eu nunca vi acontecer durante a minha existência: um homem a parir, um defunto a ressuscitar e descontos de pensões a capitalizar. V. Exa já viu?

      3º) A bandalheira é um produto da estatística?

      4º) Só devia ter reforma quem usou o truca-truca para fazer menino ou menina, como manda a Igreja?

      5º) O Estado não deveria divulgar o nome dos concepturos e nascituros que estão a pagar as dívidas, para a gente lhes agradecer?

      6º) Se um indivíduo tiver sido um carroceiro de sucesso, ganhando e descontando imenso na sua época, deveria ficar sem pensão porque hoje os carroceiros ganham uma miséria?

      7º) Será o mamão o primeiro vegetal hospedeiro e transmissor da peste?

      8º) Deveria o “Restaurador Olex” passar a ser comparticipado?

      Cá para mim, a peste deixaria de ser grisalha se todos recebessem uma pensão. Temos que pensar sériamente nisso.

      Como diria o SIlva, cumps.

      • JgMenos says:

        Que vivacidade de espírito!
        Quem de inventiva!
        Que de prosápia!
        Que de humorismo!
        Que de idiotice!

        • ZE LOPES says:

          Cá está! V. Exa. está com um dos sintomas típicos da peste grisalha: a multiplicação de “que”s. Tenha cuidado, que isso tem tendência para agravar. Alguns acabam a só conseguir dizer coisas como “que, que, que, queque, queque, quequeque”. Nessa altura já será demasiado tarde.Depois diga que não avisei.

          • ZE LOPES says:

            Ah! Eu já sei que os homeopatas não vão concordar comigo, mas deve deixar de comer essas sopas de mamão. Não lhe fazem nada bem.

  6. José Faustino says:

    A este PàFioso e à Excelsa Excelência de Sua Excelência o Excelentíssimo, Doutíssimo e Meritíssimo Senhor Doutor Juiz que condenou o septuagenário que de indignou com a alarvidade defecada, a ambos e sem qualquer dúvida, desejo uma longa e saudável vida pelo menos até aos 120 anos, pois por certo serão ambos muito acarinhados pelos respectivos filhinhos, netinhos, bisnetinhos e trinetinhos,
    Uma longa e saudável vida desejo a ambos até pelos menos aos 120 anos.

  7. Faltou usar uma tirada de Oscar Wilde, mas isso ainda levaria a alguma multa de algum juiz macho marialva de Coimbra, isso de usar tiradas de um homosexual não está com nada… De Salazar o.k, embora esse me pareça sempre mais homosexual do que hetero, aquela forma de falar em falsete não me engana.

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